Arquivo da categoria: Alma

Uma homenagem à Água

A água é um bem muito precioso e que devemos respeitar e do qual devemos cuidar constantemente, quer seja água doce ou salgada.
Trago-vos algumas ilustrações que fiz ao longo dos anos que ilustram ou se passam na água. Certas ilustrações estão relacionadas com projectos meus de escrita, outros não. Por favor notem que algumas já têm uns bons anos. 🙂
Podem vê-las todas AQUI. Espero que gostem! Fica só uma amostra:

Garnath a passear os cães na praia (romance
Garnath a passear os cães na praia (romance “Alma”).

Mas nem só nas ilustrações a água predomina, por isso convido-vos a ler “Miragem na Chuva“, um conto meu publicado na antologia “Tecendo Nós”, que podem ler gratuitamente AQUI.

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Sobre Pontos de Vista

Lembro-me de já algumas vezes tocar nesta assunto aqui no blog: Pontos de Vista. Hoje vou falar de um caso específico e de como, com o tempo, as nossas certezas se podem transformar em incertezas.

Escrita Criativa - o Relatório

Quando comecei a escrever, cheia de imaturidade literária e narrativa, testei várias formas de narração através dos pontos de vista. Existem muitos tipos de pontos-de-vista mas os principais são: escrita na 1ª pessoa, na 2ª pessoa e na 3ª pessoa (estes subdividem-se, mas foquemo-nos no principal).

A 2ª pessoa nunca usei e, sinceramente, tenho receio de usar. Até hoje ainda não li um livro que o usasse bem, a não ser aqueles livros em que podes escolher o teu próprio final.

A 1ª pessoa foi, desde o início, aquele que me saiu mais fácil: Na altura diziam-me que só quem não sabia escrever é que usava a 1ª pessoa, que era de preguiçosos e Yada, yada, yada … Até hoje, discordo. Aliás, cada vez discordo mais. Acho que a 1ª pessoa é a mais difícil de escrever BEM. É, certamente, a mais fácil de escrever no início porque muitas vezes vivemos intensamente as histórias que criamos, mas para escrever BEM na 1ª pessoa, temos um grande desafio pela frente. Mesmo muito grande!
Cada vez mais percebo isto e cada vez tenho mais receio de escrever na 1ª pessoa, pois temos de conseguir dar uma voz muito única, muito reconhecível a todo o texto. Não podemos escrever como nós, senão todas histórias que escrevemos soam iguais e o POV da 1ª pessoa deixa de ter um propósito. Por exemplo, acho que funcionou bem no Electro-dependência, no Dispensáveis e no A Última Ceia.

A 3ª pessoa foi, para mim, a mais difícil de maturar. A princípio tudo o que escrevia neste ponto-de-vista me irritva. Havia uma separação entre mim e o que estava a escrever e não conseguiu atravessar a ponte. No entanto, quanto mais testava esta narrativa, mais percebia que funcionava, que era a que me permitia melhor expressar as personagens e que obrigava a menos diálogos internos, menos Blah blah, blah.

E então porque decidi falar nisto agora? Simples! É que estou a ler o “Alma“, a versão do 1ª rascunho, que escrevi no NaNoWriMo de 2010, e a odiar cada frase que escrevi na 1ª pessoa, e a amar quase tudo o que escrevi na 3ª pessoa.

a ler Alma - ana c nunes

No dia 8 de Novembro de 2010, conforme efusivamente contado AQUI, eu tomei a brilhante ideia de parar de escrever Alma na 3ª pessoa e passei para a 1ª pessoa.É irónico como a razão que eu apontei para justificar esta mudança, é na realidade a mesma porque hoje acho que esse foi o maior erro que cometi neste 1º rascunho da história:
– Humor: O humor subtil que consegui escrever na 3ª pessoa funciona! Enquanto que até agora tudo o que li na 1ª pessoa de Alma não me provoca qualquer reacção de riso ou sequer sorriso. O humor perdeu-se em introspecções aborrecidas e info-dumps.

Alma tem tantas personagens e uma trama tão rica quanto subtil, e a 1ª pessoa rouba-a de personalidade, de diversidade, de intensidade mais que tudo!
Sinceramente não consigo entender porque, enquanto escrevia, achava que estava a funcionar.

Estou apenas a ler o texto, nem sequer estou a apontar erros ou o que deve ser mudado, não só porque quero ler sem me preocupar com as correcções, mas porque a verdade é que tenho vontade de riscar tudo!
A única coisa que acho que poderei salvaguardar do que está escrito na 1ª pessoa são alguns diálogos e, claro, a história central que está sólida. O que não está bem é o texto. Vai tudo sumir! KAPUFF!

a ler Alma - ana c nunes 2

Nunca pensei dizer isto mas, cada vez adoro mais a escrita na 3ª pessoa, e temo a escrita na 1ª pessoa, excepto para a escrita de contos que se focam numa só personagem, ou outras histórias de premissa semelhante. No restante, a 3ª pessoa é, quase sempre, a melhor opção. Não estamos limitados à visão de uma só personalidade, nem aos seus pensamentos, nem às suas características. E por mais que isso possa e funcione a favor da história em certas premissas, em romances (livros) raramente tem  o efeito desejado. Mas, claro, excepções existem muitas e boas.

E vocês o que acham? Prefere ler/escrever na 1ª, 2ª ou 3ª pessoa?

A vida repete-se * Life repeats itself

Semanário 159

São muitas as vezes que penso em parar com este relatório semanal. Ou porque acontece muitas vezes de pouco ter para dizer, ou porque não consigo dinamizar isto tanto quanto gostaria, ou simplesmente porque me apetece desistir de tudo (aqueles momento em que achamos que nada do que fizemos até aqui valeu de alguma coisa; sabem como é?).
Mas tenho resistido a isso e cada vez mais penso: porquê? E depois lembro-me de porque comecei isto em 2008 e as dúvidas desaparecem.

Gostava de poder ser eloquente e confiante ao dizer que vou continuar com isto, não tanto pelos leitores (embora também por eles), mas porque sei que preciso disto.
Já o disse várias vezes, mas repito: sou das pessoas que trabalha melhor quando sabe que tem ‘contas a ajustar’, nem que seja consigo mesma. Sabendo que tenho todas as semanas de vir aqui falar do meu progresso literário, faz com que não me encoste ao sofá sem fazer nada porque depois vou querer enfiar a cabeça num buraco quando chegar a segunda-feira e eu apenas puder dizer: “Não fiz nada!”

O que, felizmente, não foi o caso da semana passada. Mas, como já perceberam, tive de qualquer forma algumas dúvidas em relação à minha dedicação a esta arte que tanto gozo me dá, mas que também tantas dúvidas me traz.
Vale a pena? Acredito piamente que sim, mesmo quando o retorno não é o esperado.

O que é mais engraçado é que toda esta conversa (possivelmente repetida, de alguma forma, ou não andasse eu nisto há mais de 3 anos) não surge por culpa do email que recebi dizendo que o meu conto, “Segredos e Impulsos“, não foi seleccionado para a antologia A Fantástica Literatura Queer (embora eu tenha ficado um pouco triste em sabê-lo, como seria de esperar).
Não, nem foi isso que me deixou em baixo, até porque julgo que começo a ficar um pouco mais imune a rejeições. Não que estas alguma vez se tornem fáceis, mas quem sabe se tornem mais suportáveis. (Ou não?!)
E já que falo em “Segredos e Impulsos“, vou dar-lhe uma nova revisão, enviar para alguns beta-readers e depois decidir se o guardo para futuras submissões a outras antologias, ou se o revelo aqui no blog. Ainda não decidi, mas logo vos informo.

Ainda não comecei a rever o “Dragões e seus Sacrifícios” para grande decepção minha, mas sei que não foi por falta de vontade ou determinação e isso é bom o suficiente (ou terá de ser).
No entanto prossegui na delineação da história do “Lobo & Dragão” e quanto mais avanço com o resumo detalhado, mais percebo que esta história é gigantesca! Possivelmente o resultado de andar a matutar nela desde 2001. Quando se pensa muito numa coisa, ela cresce e cresce e (Adivinharam?) CRESCE!

E só para terminar fica a informação que no sábado, dia 5 de Maio, teve lugar o 2º encontro do Clube de Leitura de Braga, onde foi discutido o livro “A Fenda” da Doris Lessing.
O próximo encontro está marcado para 2 de Junho e o livro em discussão será “Os Malaquias” de Andréa del Fuego. Juntem-se a nós!

Já agora algum dos leituras daqui do sítio foi seleccionado para a A Fantástica Literatura Queer? E noutras antologias, alguém tem tido sorte?

 

*ENGLISH*

Weekly 159

Many times I think about ceasing this weekly report. It’s either because it happens too often that I’ve very little to say, or because I can’t make this as dynamic as I’d like, or simply because I feel like giving up on everything (those moments when you think that nothing you did was worth anything; You know?).
But I have persisted and that’s why all the more often I think: why? But then I remember why I started this in 2008 and the doubts just vanish.

 

I’d like to be more eloquent and confident while saying that I’ll keep doing this, not as much for the readers (although I think of them), but because I know that I need this. I’ve said it many times, but I’ll say it again: I am a person who works best when she knows she has to report back to someone, even if only to herself. Knowing that every week I have to come here and talk about my literary progress makes it impossible for me to just idly sit around, because, come Mondays, I’ll want to shove my head in a hole if all I have to say is “I didn’t do anything!”.

 

This, happily, wasn’t the case for last week. But, as you’ve noticed by now, I had more than a few doubts plaguing me in regards to my dedication to this art, which brings me so much joy but also many doubts.
Is it worth it? I really believe it is, even when the result isn’t what we idealized.

 

The funniest thing in all of this is that this ‘talk’ (possibly repeated in one way or another, since I’ve been doing this for more than three years) does not come aboard because I received notice that my short-story, “Secrets and Impulses (Segredos e Impulsos)” was not selected for the anthology The Amazing Queer Literature (although I’m sad to know this, as expected).
No, this wasn’t what let me down, and I actually believe I’m becoming a little immune to rejections. It’s not lie they ever become easy, but maybe more bearable. (Or is it?!)
And since I’m on the topic of  “Secrets and Impulses (Segredos e Impulsos)”, I’ll be giving it another revision, sending it to a few beta-readers and decide if I’ll save it for later submissions to other anthologies, or if I’ll post it here on the blog. I haven’t decided yet, but I’ll soon be informing you.

 

I have yet to start revising “Dragons and their Sacrifices”, to my great disappointment, but I’m sure it’s not caused by lack of will or determination and that will have to be good enough for now.
Yet, I did get ahead on the outline of “Wolf & Dragon” and the more I write with the detailed resume, the more I realized this story is enormous!
Possibly the result of my engagement to this project since 2001. When you think too long on something, it grows and grows and (guess what?) GROWS!

 

Finally I have to register here that on Saturday, May 5th, the 2nd encounter of Braga’s Reading Group took place, and the book discussed this time around was “The Cleft” by Doris Lessing.
The next meeting is scheduled for June 2nd and the book chosen was “Os Malaquias” by Andréa del Fuego. Join us!

 

And since we were on the subject, did anyone here get his/her short-story selected for The Amazing Queer Literature? And what about other anthologies, anyone has had any luck?


Nos meus outros blogs * On my other blogs:
– Compras – Abril 2012;
Clube de Leitura de Braga – Maio;
– “Empowered – volume 1“, de Adama Warren;
–  2º Encontro do Clube de Leitura de Braga;
– “Watashitachi no Shiawase na Jikan“, de Sumomo Yumeka.

Eu ou Ele/a (Semanário 98)

Comecei a semana com o terminar o guião para “Não alimentem a Caveira“, que pretendo também poder desenhar num futuro próximo (embora este vá ser bastante mais demorado que o “Quando chegas já é tarde“, não só por ter mais algumas páginas, como por eu ter pretensões de o fazer a cores).
Sem planear, acabei a começar a reler o “V.I.D.A.“, e mais tarde a rever um pouco do “Alma“. E para não perder o fio à meada, ainda escrevi mais para o “Sacrifício” e revi algumas partes que tinha escrito antes, mas nada de muito substancial.

Durante o resto da semana, mantive-me ainda nos mundos de “Alma” e “Sacrifício“.
Percebi, para meu suplício, que vou ter muito trabalho a fazer na revisão do “Alma” e já estou a ficar com dores de cabeça só de pensar nisso. Para já estou apenas a corrigir erros ortográficos e a dar uma olhadela pelo manuscrito, enquanto tento detectar lacunas na história.
Para meu grande espanto, acabei por ocupar quase toda a semana com este leitura (sim, porque nunca tinha chegado a ler o que escrevi em Novembro passado) e pouco consegui fazer na matéria do “Sacrifício“, lacuna que pretendo preencher na próxima semana.

Um ‘problema’ recorrente que me surge quando estou a escrever um texto (seja conto ou romance), e que já aqui mencionei por várias vezes, é o ponto-de-vista. Sou adepta da 1ª pessoa, mas gosto de experimentar a 3ª pessoa (assim como mudar os tempos). Sei que há histórias que funcionam melhor de uma forma que de outra, e algumas nem sequer pondero escrevê-las de maneira diferente pois percebo que não iria funcionar, mas, no caso de “Alma” continuo indecisa.
Não sei se se recordam, mas em Novembro comecei a escrever esta história na 3ª pessoa, e quando já ia a um quarto da história, mudei de ideias. Na altura estava convencida que a vista da 3ª pessoa não estava a funcionar em prole da narrativa, e por isso saltei para a 1ª pessoa, consciente que mais tarde teria de reescrever tudo o que ficou para trás. O problema é que, agora, ao reler o texto, estou novamente num dilema. Parece-me, sem sombra de dúvida, que a 3ª pessoa – a minha primeira escolha – foi na verdade a mais adequada. E se há cenas que funcionam bem na 1ª pessoa, outras há que até me irritaram de tão insossas que soaram.
Ainda não decidi o que vou fazer, mas, seja qual for a minha decisão, o “Alma” vai praticamente ter de ser reescrito de raiz. Ai, mãezinha, que já fico doente só de pensar!

Já alguma vez vos aconteceu o mesmo, ou sou eu que penso demasiado sobre isto?

No Floresta de Livros:
– “A Raposa Azul“, de Sjón;
– Booking Through Thursdays – Ponto de Partida;
– “A Noite e o Sobressalto“, de Pedro Medina Ribeiro;

No exterior:
The 10 Essential Grammar Rules, no Wordplay;
What makes bad romance, no Dirty Sexy Books;
8 signs your writing is stuck in a rut, no Wordplay;
How a blogging platform can aid novelists, no Wordplay;
Revising that fight – Part 2, no Deadline Dames;
The Missing Link – NaNoEdMo, no Writer Unboxed;

Dose Diária (2010) 28

Garnath
Garnath

Eu já tinha muita coisa para falar sobre este magnífico dia, mas ele não podia ter terminado de melhor forma.
No entanto, comecemos pelo princípio:
– Na noite de 27 para 28 de Novembro, algumas malucas – leia-se NaNoNinjas – decidiram juntar-se numa Night of Writing Dangerously … in Pajamas, que é efectivamente uma festa de pijama em que supostamente iriamos escrever muito. Frisem bem o “supostamente”, porque entre visionamento de filmes, degustação de bolachas, chocolates e afins, pouco foi o que conseguimos escrever. Mas como a minha má dspoisção não tinha ainda passado, eu não fiquei acordada depois das 3 da manhã.
– De manhã acordamos e fomos teclar mais qualquer coisa, e também dar à lingua.
– Perdemos o comboio e por isso eu fui mais tarde, e estive uma hora à espera da troca em Nine, o que fez com que eu produzisse mais ainda nessa hora do que no resto do dia todo.
– À noite cheguei a casa e quando fui visitar a página inicial do NaNoriMo, deparo-me com ISTO. Fiquei aos berros (só não berrei mesmo a sério porque já passava das 00:00h.
Sinto-me tão sortuda neste momento!
Para quem não sabe, o NaNoWriMo está a organizar uma espécie de projecto paralelo chamado 30 Days, 30 Covers, onde 30 artistas de capas profissionais, tentam fazer 1 capa em 24 horas, para uma qualquer novela de um qualquer participante do NanoWriMo.
Por acaso no início do mês avisaram-me que eu poderia ser uma das felizardas, mas eu não contei nada a ninguém porque não quis depois sair decepcionada, mas eis que eles me fazem esta surpresa.

SORTE!
Vejam ao lado direito.
Esta capa foi feita pela talentosa Coralie Bickford-Smith, que, sem eu estar a contar em absoluto, dos 30 artistas apresentados, até foi um dos que mais me fascinou. Possivelmente não teria escolhido outro se me perguntassem a opinião, pois ela faz capas esteticamente fantásticas para algumas colecção bem sonantes. Visitem o site.
Nota: A elaboração da capa teve como base única a sinopse (já divulgada no blog)

E pronto, o meu dia claramente não poderia ter terminado melhor, mas vamos a contagens:
– 4707 novas palavras, o que sumariza 82 405 palavras.
Quase que tinha mais um dia triunfal acima das 5000, mas não me queixo. (Como podia depois de receber esta surpresa?)

O que fazer no NaNoWriMo 2010?

Duvido que por aqui exista alguém que ainda não saiba que, mais uma vez, vou participar no NaNoWriMo (o desafio que consiste em escrever um romance de 50 000 palavras nos 30 dias de Novembro).

No início do mês (Outubro) ainda não tinha a certeza sobre que projecto ia desenvolver neste próximo mês, mas cedo um dos três seleccionados se destacou dos restantes. A ribalta calhou a “Alma“, que anteriormente eu tinha desenvolvido como novela gráfica.

A transição de novela gráfica para romance, implicou certas mudanças, mas a meu ver a história só tem a ganhar com esta nova “plataforma” narrativa. No fundo o formato romance permitir-me-á dar mais relevo às personagens e até integrar mais pessoas no elenco.
Outra mudanças significativa, que não advém necessariamente da mudança de método, é o facto de eu pretender contar esta história com um certo tom de humor e sarcasmo. E digo que pretendo porque sendo eu a amante de drama que sou, tenho impressão que no fim me vou render às possibilidades do não-humor e acabar com algo que em nada se assemelha a uma comédia. Ainda assim, o meu objectivo é mesmo contar a história com uma voz mais “leve” e embora a trama seja maioritariamente dramática, há lugar para muito humor, se eu o souber usar bem.

E permitam-me só dizer que não sou das que considera o humor como um género menor. Muito pelo contrário, adoro um bom livro de humor, se o autor tiver jeito para isso. Adoro soltar gargalhadas despropositadas no meio da leitura. Juro! Nem que esteja num café cheio de gente. Que interessa? Ao menos divirto-me e “quem não estiver bem, que se ponha“, já dizia a minha mãe.
O que não quer dizer que ache que sou um desses autores, mas logo ficarei a saber.

Entretanto aqui fica um “cheirinho” do que é a história (nem conto nada do que é a parte da fantasia só para ser má):

NaNoWriMo,Alma
Classificação: Maiores de 12
Género: Fantasia Urbana (Realismo Mágico), Romance, Comédia, Drama

Resumo:
O que é que uma bruxa avarenta, um playboy nato e uma miúda anti-social têm em comum?

Ellaine é uma estranha dentro da própria família. O que já de si não é normal porque os Alma, de vulgar não têm nada. O seu irmão, Jarad, é ainda mais problemático que ela e não consegue passar 24 horas sem correr atrás de um novo rabo de saias.
Os dois partem numa viagem para tentarem encontrar-se, e, quem sabe, descobrirem o que não está bem com ambos. Por isso quando chegam à pequena vila à beira mar, eles não fazem ideia do que lá vão encontrar:
Uma jovem mulher que se faz passar por bruxa e tem uma paixoneta pela sua bola e cristal;
Um homem que parece um motoqueiro mas que trabalha na biblioteca em part-time;
Uma mãe solteira que não consegue fazer nada bem e está sempre metida em sarilhos;
Uma velha tarada que se acha grande vidente;
Um miúdo que parece um balão e nunca pára quieto;
Um pasteleiro que tem um coração que é um doce;
Uma grávida que era bem capaz de sobreviver à base de bolos;
Uma rapariga que tem o cabelo tão rosa como a cara;
Um fotógrafo que fotografa almas (mais a sua normalíssima namorada);

No meio de tudo isto, Ellaine e Jarad acham-se os mais normais de todos. E o facto de a bruxa avarenta ser a única que os pode ajudar, não lhes dá grande confiança no futuro.

O retrato

20_retratoGostava de fotografar a tua alma, mas tenho medo do que possa ver.
Será que mudarei a minha opinião acerca de ti quando a lente da câmara captar a tua verdadeira forma?
Será que é justo julgar-te dessa forma?
Tu que sempre te mostrastes pronta a ajudar todos, que estás rodeada de amigos e que ao mesmo tempo pareces tão só.
Tu que sorris tantas vezes e ao mesmo tempo nunca sorris verdadeiramente.
Será que tenho o direito de violar o teu íntimo desta forma?
“Então o que vai ser hoje?”
Sorris, mas não o sentes. Consigo vê-lo nos teus olhos.
Não o fazes por mal. Acredito que não. Mas por detrás de toda essa aparente felicidade está um manto de tristeza.
O que foi que te feriu tão profundamente?
“É hoje que tiras o meu retrato?”
Pondero a tua questão. Sinto vontade de dizer que sim, mas temo fazê-lo.
“Começo a sentir-me menosprezada. Serei eu a única pessoa da vila a quem nunca tiraste uma foto?”
Sim és. Mas nunca to direi.
“Achas que te vou dar cabo da película?”
Duvido que esse fosse o problema. Só não quero é estragar a imagem que tenho de ti.
Quero compreender-te, mas tenho medo. Medo de ver a verdade e nunca mais conseguir olhar-te do mesmo modo.
Não quero menosprezar-te. Não quero alienar-te como fiz a tantos outros depois de os capturar em filme.
Aquelas fotos que nunca deveriam sair do meu estúdio. Aquelas que todos acham ser os melhores retratos da cidade, mas que aos meus olhos mostram todas as barbaridades e toda a podridão de cada um dos retratados.
Tu foste a única que permaneceu imutável depois de tantos anos de ausência. Ages da mesma forma, sorris da mesma forma. O teu coração de ouro mantêm-se intacto. Mas … o brilho desapareceu. Aquele brilho que rendia qualquer um imóvel e que te tornava tão única.
Quatro anos de ausência trouxeram muitas mudanças à minha vida. Quando regressei à vila, tudo parecia semelhante, mas no fundo estava tudo diferente. Todos têm algo a esconder e eu acabei por descobrir a podridão de todos eles.
Tornei-me apático já que não queria criar inimizades.
Tento não pensar no que sei, no que vejo, no que todos escondem debaixo de uma manto de normalidade que não faz mais que camuflar a verdade ao de leve, sem nunca esconder de realmente o que quer que seja.
Tu também deves ter os teus podres. A diferença é que não os quero conhecer. As tuas falhas, quero que permaneçam só tuas, a menos que querias partilhá-las comigo.
Tantas vezes ergo a câmara na tua direcção.
Hesito com o dedo sobre o “Capture”.
Os minutos passam e eu pareço uma estátua presa no tempo.
Acabo sempre por recolher a ferramenta, sem ter pressionado o botão uma só vez.
Gosto deste relacionamento. Deste desconhecimento total que tenho em relação a ti. Tão diferente do que tenho com os restantes. Tão mais confortável. Assustador, sim, mas também extremamente confortável.
“Promete-me que um dia vais tirar o meu retrato e que será o melhor de sempre.”
Por momentos aquele brilho característico regressa ao teu olhar. Tenho a certeza que o meu rosto mostra surpresa.
“Prometes?”
Afagas levemente o teu ventre proeminente. Não é intencional no meio da conversa, mas de alguma forma esse gesto faz desaparecer o brilho novamente.
Quero perguntar-te tantas coisas sobre a criança.
Quem é o pai?
Onde é que ele está?
Porque vos abandonou?
Mas sou um covarde e por isso mantenho-me em silêncio.
Será por isso que te sentes tão à vontade comigo? Porque não te questiono como todos os outros fazem. Todos os curiosos e coscuvilheiro que não querem mais do que ter razões para se deleitar na miséria dos outros, ao invés de ponderar sobre a sua.
“Sabes…”
A tua pausa parece durar uma eternidade.
“Gostava mesmo que tirasses uma foto de nós os dois. Só tu conseguirias captar verdadeiramente o que sinto por esta criança.”
Fico abismado enquanto observo o brilho regressar. Sempre soube que nutrias um amor incondicional pelo bebé que carregas no ventre, mas também era por ele que mostravas a maior tristeza que os teus olhos poderiam carregar.
Voltas o teu olhar para mim e suplicas-me, sem palavras, que realize o teu desejo.
Nem eu seria capaz de recusar.
Pego numa velha cadeira que está encostada a um canto e trago-a para o pé de ti, atrás do balcão.
Peço-te que te sentes, da forma mais confortável que puderes.
Afastas ligeiramente as pernas e viras-te um pouco de lado, apoiando as costas na cadeira que chia. As tuas mãos repousam suavemente sobre a tua barriga de quase nove meses.
Sempre pensei que fosses daquelas mulheres curiosas que não esperaria até ao nascimento para saber o sexo do bebé, mas surpreendeste-me ao revelar que não pretendias fazê-lo.
Relaxa.
Ficas silenciosa.
É estranho.
Vejo-vos através do visor da câmara.
Hesito.
O teu leve sorriso e o brilho nos teus olhos … quero aprisioná-los na película, mas temo o resultado.
Pressiono o botão.

No meu estúdio escuro, revelo cuidadosamente o rolo que usei para tirar fotografias tuas.
Não sei o que deva sentir, pois depois da minha relutância inicial, acabei por não conseguir parar de te tirar fotos. Tu que, divertida, mudavas de posições e esbanjavas sorrisos como já não te via fazer desde que regressara à vila, sete meses atrás.
Estranhamente não sinto grande receio enquanto espero que as películas sequem. Tento não olhar fixamente para elas, pois só quero vê-las fora do estúdio.
Pode ser ridículo, mas não quero descobrir-te no mesmo local que vi todos os outros por aquilo que realmente são.
Saio do quarto, com as fotos na mão. Sento-me no sofá e respiro fundo. Não há como negar que estou nervoso.
Talvez não devesse vê-las a fundo.
Seria melhor entregá-las e nunca lhes prestar atenção.
Lentamente baixo o olhar para as fotos.
Nada.
Não há nada a sujar a imagem, nada a rodear-te em obscuridade.
Nada.
Nunca tinha visto uma imagem capturada tão limpidamente. Nunca vira um sorriso tão verdadeiro e uma completa ausência de ressentimentos, culpas e tristezas.
Seria possível que eu estivesse todo aquele tempo a pensar demais?
Será que tu não tinhas mesmo nada a esconder?
À medida que visualizo cada uma das tiragens, acredito que sim. Que nada te havia manchado e que tu conseguias assim criar a mais bela das fotos.
Até que cheguei à última. Aquela que tinha sido, de verdade, a primeira a ser tirada, quando ainda não estavas suficientemente descontraída.
A sombra negra que paira sobre ti e alcança o seu ventre, com um sorriso assustador no rosto … eu reconheço aquela forma. Sei quem era pois já o tinha capturado com a minha câmara e sabia as coisas que ele tinha feito.
O meu coração acelera o compasso.
Todo o meu corpo treme e sinto uma raiva tão grande que penso não conseguir contê-la.
Aquela besta!
A morte seria punição demasiado leve para ele.

A campainha toca, retirando-me à força do meu estado odioso.
Sinto nojo de mim próprio, pois por momentos tinha imaginado as coisas mais horrendas e tinha arquitectado planos mirabolantes para colocar tudo isso em prática.
Não ia fazê-lo.
Não podia fazê-lo.
Tu és quem devia odiá-lo, e mesmo assim escolheste perdoá-lo. Quem sou eu para negligenciar essa decisão?
Abro a porta e sinto-me ainda mais enojado ao aperceber-me que tenho de forçar um sorriso para receber-te. Tenha vergonha de mim mesmo.
“Disseste-me que podia passar por cá quando fechasse a loja.”
Entras, sem grandes cerimónias. Afinal já conheces os cantos à casa.
“Já estão prontas?”
Vês o monte que espalhei na mesa da sala e pareces brilhar de excitação.
“Posso vê-las?”
Tenho a boca seca. Limito-me a acenar e tu caminhas o mais rápido que podes até lá. Sentas-te e reparo que tens muito cuidado para não bateres com a barriga na mesa. O bebé deve estar quase a nascer. Essa criança que nasceu de uma noite que te marcará para sempre.
“UAU! Estão lindas.”
Posso apenas imaginar pelo que tenhas passado.
És muito mais forte do que alguma vez te julguei. Sinto vergonha por ter sequer ponderado a tua fraqueza, a tua vergonha. És mais do que alguma vez poderei desejar ser e só espero nunca te magoar.
“Não sei como consegues. Eu nunca fui fotogénica, mas estão … estão … olha nem sei.”
Estão muito aquém da realidade, essa é a verdade.
“Podes colocar esta em tamanho maior? Quero pendurá-la lá na loja.”
Escolheste bem. Não só a foto capta uma grande parte do teu estabelecimento como tu irradias de beleza nela.
“Estou indecisa. Quais devo aumentar?”
Aumenta-as todas.
“AHA! Não posso. Onde as ia colocar?”
Podes ter a certeza que ficarão penduradas nas paredes do meu coração para sempre.
Sou mesmo covarde.
Durante todo este tempo tive medo. Medo de te ver realmente. Medo de me ferir.
Agora que sei a verdade, tenho o mesmo medo, somado ao medo de te magoar mais do que alguma vez poderia a mim mesmo.
“Vais pôr alguma destas exposta na tua galeria?”
Não tenho tempo para te responder que sim. Claro que sim!
“AHA! Claro que não. Tens fotos de gente tão mais bonita. Porque havias de ocupar um espaço comigo?”
O teu riso não é nervoso, nem falso. É como música.
É óbvio que vou expor-te. És a minha obra-prima, a única para a qual consigo olhar sem ter de camuflar o meu asco, a minha repulsa. Podia esconder-te dos olhares alheios, mas estaria a ser egoísta.
Vou colocar-te no pódio da galeria, em tamanho três vezes maior que todos os outros.
“Não brinques.”
Nunca.
“A sério? Ah, mas isso é muito embaraçoso.”
Só quero que todos vejam o que eu vejo. Nada mais.
“Estás a deixar-me corada. AHA!”
Este último riso já é nervoso, mas não soa falso.
O teu rosto brilha um rosado tão teu, que já não via à mais de quatro anos. Tinha-me perguntado onde ele tinha ido.
Ainda tens o hábito de conciliar as tuas bochechas vermelhas com as mãos.
Não mudaste quase nada.
Não!
Mudaste muito.
Para melhor …
“Lá estás tu outra vez.”
Quero abraçar-te, mas não sinto que seja o momento apropriado. Ou talvez seja e eu esteja a pensar demasiado sobre as coisas.
Tudo seria mais fácil se eu soubesse ao certo como reagirias, mas tu consegues sempre surpreender-me e por isso temo mover-me demasiado depressa.
Só lá colocarei a foto se me deres permissão. Se não quiseres, basta dizeres-me.
“Bem … não sei … achas mesmo que vale a pena?”
Nunca me senti mais orgulhoso de uma foto. Mas se não estiveres à vontade com isso, eu limitar-me-ei a guardá-las na minha colecção
“Isso é ainda mais embaraçoso.”
Viras o rosto para onde não posso ver a tua expressão.
Não sei como devo interpretar essa tua resposta.
O silêncio toma conta de nós e sinto que devo dizer algo, fazer algo para o quebrar.
Temo arrepender-me mas os meus braços já rodeiam os teus ombros antes mesmo que me dê conta do que estou a fazer.
Ficas tensa.
Relaxas.
Não fazes qualquer movimento para me afastar e eu deixo-me ficar, sentindo o perfume delicioso a jasmim que sai dos teus cabelos.
Talvez seja melhor mantê-las só na minha colecção.
“É capaz de ser melhor.”
Fechas os olhos e recostas-te na cadeira e nos meus braços.
Não te largarei até que me obrigues a fazê-lo.


Nota: Esta história faz parte do universo de “Alma” um projecto meu que começou por ser uma novela gráfica, mas que provavelmente terminará em romance.

Nota 2: A pessoa na fotografia é uma amiga. Espero que não leve a mal.