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Um Dragão com Alergias – ebook

Se seguem as novidades do grupo Fantasy & Co, então talvez já saibam da nova iniciativa deste inovador grupo de escritores do fantástico português. Agora, os contos que eles publicam e publicaram já no blog, estão também disponíveis em formato ebook (epub, mobi e pdf) para quem quiser ler.

Se bem se lembram, em Fevereiro, eu fui convidada a publicar um conto no Fantasy & Co, o “Um Dragão com Alergias“. Pois agora também podem fazer download desse meu conto, em vários formatos (ebook). Visitem ESTA página , eu estou na secção dos autores convidados; ou então vão directamente aqui: EPUB, PDF.

um dragão com alergias

Um Dragão com Alergias” está também já listado no Goodreads, AQUI, por isso se tiverem lido o conto, deixem ficar os vossos comentários. Entretanto continua disponível no post original, AQUI.

E, claro, não se esqueçam de ler os contos dos outros talentosos autores que fazem parte do grupo Fantasy & Co, um projecto que vale a pena seguir.

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Um Dragão com Alergias

Um Dragão com Alergias é um pequeno conto que escrevi no ano passado, passado alguns anos antes dos acontecimento narrados em Dragões e Seus Sacrifícios, com duas personagens muito pouco humanas.

Um Dragão com Alergias é um conto fofinho, nada de drama, nada de muita acção, mas que me divertiu muito a escrever.

um dragão com alergias

Podem ler o conto no Fantasy & Co, um projecto de autores portugueses que publicam contos de fantasia e ficção científica, e que me convidaram para colocar lá um conto inédito.

Leiam e digam de vossa justiça. Já agora leiam e comentem também os restantes trabalhos da equipa do Fantasy & Co. Têm muito para ler e muitas fantasias para visitar!

Curiosidade: O primeiro final que escrevi era muito diferente; o conto terminava mal, mas depois achei que não seguia o ambiente do resto da história e alterei-o.

Anormal

Todos me chamam anormal.
Nem os da minha espécie mostram respeito ou sequer um pouco de simpatia. Pensei que ao menos eles compreendessem, afinal são vampiros como eu e deviam perceber a minha dor por não conseguir ser … normal. Não que concorde com os que me chamam anormal, mas também sei que não sou como os outros.
Eu bem gostava de perfurar artérias com só meus incisivos e deixar o sangue fluir dos humanos para a minha boca. Gostava de soltar enzimas nos seus corpos reticentes que logo se tornariam cooperativos, quando o sugar de sangue se tornasse prazeroso ao invés de doloroso. Muitos imploravam para serem mordidos, sugados, desprovidos do seu sangue. Mas não a mim! A mim nunca ninguém implorava.
“AUCH!” – O humano afastou-me do seu pescoço e tapou a ferida com a mão. Estava furioso mas eu tinha os olhos fixos no pescoço dele e nas gotas de sangue que escapavam por entre os seus dedos calejados. – “Qual é o teu problema, miúda? Isso doe para caralho!”
Deixei cair o garfo de dois dentes no chão e a custo lá desviei o olhar para o rosto dele, arrependendo-me logo de seguida.
Ele tinha o rosto manchado de óleo de motor, mais piercings do que dentes e uma expressão que prometia muita pancada. Nunca fui fã de violência, mas como a minha avó costumava dizer: «A cavalo dado não se olha o dente».
“Desculpa mas já tinha dito que não ia ser como com os outros.” – Passei a língua pelos lábios e baixei o rosto até ao pescoço dele. Uma mão suja e malcheirosa estampou-se na minha testa, empurrando-me o rosto para trás. – “Então? Tínhamos um acordo!”
Ele levantou-se do banco de jardim, tentando amedrontar-me com os seus metro e noventa de altura e corpo robusto. – “Mudança de planos. Não sou masoquista.”
Ergui-me do chão e bati-lhe com mão no peito, fazendo-o cambalear um pouco para trás. – “Eu já te paguei e tu vais dar-me o que preciso.”
“Vai-te foder, miúda!” – Ele curvou-se para agarrar no casaco de cabedal que estava no banco e depois voltou-se para partir, cuspindo para o chão aos meus pés, desprezando-me.
Senti o sangue ferver-me nas veias e a minha visão pintou-se de vermelho. Antes que ele tivesse tempo de dar dois passos, saltei-lhe para as costas. Ele caiu de cara no chão e agarrei nos dedos que tapavam a ferida no pescoço, vergando-os um a um para ter acesso aos dois buracos que tinha aberto da artéria segundos antes. Os gritos dele fundiram-se com o som do comboio que passava ali perto e eu saboreei cada gota de sangue que fluiu do seu pescoço. Estava um pouco alcoolizado, e tinha muito colesterol, mas eu não era muito exigente com as minhas refeições.
Quando me senti finalmente saciada, levantei-me, fazendo das costas dele um assento algo desconfortável. Passei a manga da minha camisola pela boca, retirando o excesso de sangue que sempre ficava nos cantos e na parte inferior dos lábios. Eu babava-me sempre um bocado.
Ergui-me de um salto e dei umas quantas palmadas amigáveis nas costas do homem, que nem se mexia. Estava fraco pela falta de sangue mas eu não estava preocupada. Umas horas de sono no chão do parque e ele estaria pronto para outra ronda, assim que comesse qualquer coisa, claro.
“Para a próxima devolves o dinheiro. Não gosto que me roubem.” – Finalizei dando-lhe um pontapé nos rins que, esperei, tivesse doido muito. Odiava quando me desprezavam.
Baixei-me para apanhar o garfo do chão e inspeccionei-o cuidadosamente. Estava intacto, o que me agradou já que era feito de platina, sendo uma peça rara que outrora pertencera ao faqueiro da minha avó, a mulher mais maravilhosa que conheci, tanto em vida como na morte. Limpei os dentes do garfo na bainha da camisola, ergui-o ao nível dos meus olhos, voltei a limpá-los e só à terceira vez fiquei contente com o resultado. Não queria manchas de sangue alheio no meu garfo. Bufei para o talher depois esfreguei-o na ombreira da minha camisola, que era feita de pele, e depois, satisfeita, enfiei-o no bolso de trás dos calções.
Enxotando o chão arenoso, caminhei para fora do parque, passando por vários pares de namorados, enrolados uns nos outros como se precisem de respirar através da boca do parceiro. Um ou outro mendigo pediram-me esmolas, mas eu estava sem cheta pois tinha usado todo o dinheiro que carregava comigo para pagar àquele ladrão que pensava fugir sem me dar o que eu solicitara.
Quando atravessei os portões parque, senti o telemóvel a vibrar num outro bolso. Abri-o, vi de relance que era o remetente («Hugo Parvalhão») e premi o botão verde. – “O que é que queres?”
“Também te amo, minha doce Marta.” – Ao fundo podia ouvir a música alta e os gritos estridentes dos loucos que se esfregavam uns nos outros em cima da pista de dança.
“Diz lá o que queres que eu não tenho a noite toda.” – Impaciente batia com as unhas no telemóvel enquanto tentava mastigar a língua. Escusado será dizer que não podia fazer balões de goma com ela.
“O Chefão disse para passares por cá. Vai haver festa esta madrugada.” – E por Chefão ele referia-se ao Filipe, o vampiro mais velho da região, e um impotente completo que não conseguia erguê-la fosse por quem fosse, à excepção de uma situação bem invulgar em que eu estive envolvida. Desde aí nunca mais tinha conseguido que ele tirasse os olhos de mim.
“Não estou interessada.”
“Não sejas assim! Já sabes que ele te vai buscar à força se assim tiver de ser.” – Houve uma pausa em que pensei ouvir umas sucções e quase consegui imaginá-lo a falar ao telefone enquanto agarrava duas mulheres e lhes chupava o sangue sabe-se lá bem de que artéria (ele não tinha preferência especial pelo pescoço). Finalmente o som parou. – “Ele acha que queres te rebelar e olha que não é bom teres o Chefão na tua perna.” – A quem ele o dizia. Eu andava com ele na minha perna há três anos. Três anos! Sempre odiei stalkers.
“Eu não vou e ponto final.” – Sem aguardar por uma resposta, pressionei o botão vermelho e voltei a guardar o pequeno aparelho no bolso dos calções. Ainda nem tinha chegado à primeira esquina quando ouvi o chiar dos pneus de um carro e senti um par de mãos puxarem-me para dentro de uma limusina branca. Nem tive tempo de lutar antes de aterrar de fuças nos estofos de pele.
Olhei para cima e dei de caras com o dito cujo: o Chefão! Saltei para trás e tentei abrir as portas que estavam trancadas. O interior da limusina estava completamente escura, mas só pelo cheiro e pela silhueta eu conseguia saber que era ele.
“É um prazer rever-te, minha querida.” – Ele nem e mexeu, mas eu senti o olhar dele em mim e arrepiei-me toda.
“O prazer é todo TEU. Agora deixa-me sair.” – Voltei a tentar forçar as portas, mas nem sinal de enfraquecimento.
“Não te canses. Este carro está preparado para aguentar com o ataque de um Troll. E acredita que tu não tens nem metade da força de um.” -Como se eu precisasse de umas lições de mitologia e sobrenatural.
“O que queres de mim?” – Ajeitei-me o assento tentando manter-me o mais afastada possível dele. Duas taças de champanhe, vazias, brilhavam com as luzes laterais das portas e eu conseguia ver as calças de cabedal vermelho que ele usava, justinhas ao corpo, se a vista não em enganava. Tive vontade de rir quando o imaginei vestido todo em cabedal vermelho. Certamente que a visão seria mais ridícula que quando o Hugo se vestiu de Teletubby.
“Acho que sabes a respostas a isso.” – Saber até sabia, mas uma parte de mim preferia manter-se ignorante.
“Não posso ajudar-te.” – Abri as pernas, para ver se ficava mais distante das dele, mas quando ele mexeu as suas, achei que estava, inadvertidamente, a convidar a algo que não queria certamente dar-lhe e voltei a fechar as pernas.
“Não podes, ou não queres?”
“Ambas.” – Não valia a pena mentir.
“Porque é que me odeias tanto assim?”
Eu não o odiava, simplesmente não gostava dele. Nem sei bem porquê, mas sentia um fosso entre nós de cada vez que pensava nele. Nunca lhe tinha visto sequer o rosto, que pelos vistos ele não mostrava a ninguém. Mantinha-se sempre nas sombras ou coberto com véus gigantescos que lhe cobriam o rosto e torso, ou então no inverno, quando usava roupas pesadas que nem deixavam antever o seu corpo por baixo, ele usava simples máscaras que impediam que alguém o visse por aquilo que realmente era.
Pessoalmente imaginava-o como um velho cheio de rugas, babado e nojento. Só de pensar nisso sentia o estômago a dar voltas.
“Porque é que te escondes por trás de mascaras e véus?”
Ele ficou tenso e ajeitou o corpo, fazendo chiar a pele branca dos assentos.
Um silêncio banal cobriu a limusina e por minutos só se ouviam os sons da estrada e do tráfego intenso. Devíamos estar perto do clube porque o resto da cidade estava em silêncio e o barulho lá fora era infernal.
“Gostava que me acompanhasses esta noite. Vamos comemorar os cem anos da revolução. É uma grande noite e deves estar junto dos teus companheiros.”
Companheiros? Bah! Como se algum deles gostasse de mim. À excepção do Hugo, que é o parvalhão do meu criador, ninguém me respeita ou me considera “igual”. Ainda assim eu gostava de festas e se ficasse com o Chefão, ninguém se atreveria a tratar-me mal. E desde que eu me mantivesse a uma distância segura dele (um metro chegaria?) também não tinha de temer que ele me atacasse. Só de pensar arrepiava-me toda!
“Muito bem, mas espero que não tenhas ideias estranhas durante o serão.”
Podia jurar que ele sorriu, mas estava demasiado escuro para distinguir os traços do rosto descoberto dele. – “Nunca.”
Senti um arrepio percorrer-me a espinha e tive novamente vontade de sair a correr da limusina, mas no último instante lá me contive. Afinal íamos estar num clube nocturno cheio de gente. Ele não se atreveria a tocar-me e arriscar um escândalo.

Este texto é um excerto de um conto em que estou a trabalhar. Perdoem-me se os tempos verbais não estiverem certos, pois ainda não revi o texto ao pormenor.

Aparências

Com os olhos quase colados, Janelle esfregou os nós dos dedos na cara, para tentar desfazer-se da desconfortável remela que todas as noites lhe envolvia os olhos. Era uma coisa muito nojenta, conforme ela tinha aprendido depois de, no seu primeiro dia na academia, ter saído do quarto sem lavar a cara, e ter sido posteriormente gozada por todas as pessoas que encontrou a caminho do gabinete do director.
Já se tinha sentido suficientemente mal por ser nova na academia, e por ainda não estar habituada àquele corpo, mas ouvir as risadas dos outros enquanto caminhava pelos corredores, foi a maior humilhação de sempre. Não que ela tivesse muitos termos de comparação, mas sentira-se como uma formiguinha debaixo das gargalhadas de gozo, e nunca mais se queria sentir assim.
Infelizmente ainda não tinha feito amigos, e limitava-se a ficar sempre junto do Nanael, que era exactamente como lhe tinham contado, um anjo de pessoa, ou melhor dizendo, era mesmo um anjo EM pessoa.
Às vezes também passava tempo com o Marco, que era um metamorfo como ela, mas já quase a terminar o seu mandato, ou mesmo com os restantes metamorfos em serviço, mas eles pouco tempo tinham para ela, pois estavam sempre atarefados com os seus afazeres.
Janelle gostava da companhia deles, mas o problema era que a diferença de idades era um entrave e acabava sempre por se sentir como uma criança imatura, o que raramente acontecia quando estava com o Nanael.

Espreguiçou-se lentamente na cama, sem grande vontade de abandonar os lençóis de flanela que lhe aqueciam as pernas e a deixavam mole o suficiente para querer ficar o dia todo deitada no conforto do quarto.
Vestindo as primeiras peças de roupa que apareceram à sua frente, sem qualquer preocupação em combinar as cores ou perceber se as peças lhe assentavam bem (desde que não a apertassem, porque ela odiava sentir-se apertada), passou os dedos pelos cabelos lisos e quebradiços, antes de escovar os dentes.
Quando se preparava para sair do quarto, um receio familiar tomou-a de assalto e ela nem conseguiu agarrar convenientemente a maçaneta da porta, antes de a empurrar para baixo e entreabrir a porta. Meteu o nariz de fora e espreitou para o corredor. O barulho era estrondoso, como nas manhãs anteriores, e a comoção era assustadora. Todos os alunos se levantavam àquela hora para depois seguirem em direcção à cantina onde todos, mesmo os agentes mais condecorados, tomavam as suas refeições.
Janelle ficou à porta, esperando que a multidão dispersasse e ela pudesse então sair a correr, para não correr o risco de se cruzar com ninguém, mas o seu estômago não estava de acordo com esses estratagema já que começou a roncar baixinho, embaraçando-a ainda mais.
Ela voltou a enfiar-se dentro do quarto, com as bochechas rosadas e os joelhos moles. Respirou fundo antes de voltar a abrir a porta e, dessa vez, sair para o corredor concorrido. Ninguém lhe prestou muita atenção. Era apenas mais uma no meio de muitas!
Foi para a cantina e tomou o seu pequeno-almoço vitamínico, cheio de complementos e preparados especiais a que só os da sua espécie tinham acesso, pois eram os únicos que deles necessitavam. Estranhou não ver o Nanael, mas concluiu que ele já estaria na sala de aula e por isso despachou-se a comer tudo para depois poder ir para junto dele.
Queria lá chegar depressa, mas a multidão era tão densa que ela tinha dificuldade em avançar rapidamente, e em nada ajudava o facto de a sua coordenação motora não ser das melhores. Muitas vezes tropeçou nos próprios pés e só não caiu de cara porque a multidão acabava por a amparar, não sem muitos grunhidos e queixumes do restante corpo de aulas. De cada vez que embatia em alguém, Janelle baixava a cabeça, fazia uma pequena vénia, desfazendo-se em desculpas, até que os queixosos lhe viravam costas, muitos apenas depois de gozarem um pouco com o aspecto físico dela, algo que ela achava incompreensível.
De tão estranho que achava tal comportamento, decidiu questionar o Nanael sobre o assunto.
Quando chegou à sala de aulas, encontrou o professor junto da mesa de docente, preparando o computador portátil e o projector para a aula que só começaria dali a trinta minutos.
“Bom dia, Nanael!” – Janelle entrou sorridente pela sala, e ele logo ergueu o rosto para a cumprimentar da mesma forma carinhosa.
“Bom dia, minha querida. Passaste bem a noite?”
Ela respondeu-lhe com um aceno vivaz da cabeça, juntando as mãos nervosas na bainha da saia. – “Queria perguntar-lhe … -te uma coisa.” – Ainda não estava habituada a trata-lo por tu, como ele tinha insistido que fizesse desde o primeiro dia.
“Força!”
“Bem, é que toda a gente faz pouco do meu aspecto e eu gostava de saber se há alguma coisa de mal com a minha aparência. Se calhar estou a fazer alguma coisa de mal e nem me dou conta.”
O Nanael sorriu-lhe ainda mais enquanto ligava o computador. – “Diz-me, porque escolheste essa forma?”
Ela roçou o pé esquerdo na perna direita, nervosa. – “Lá em casa a televisão está sempre ligada e nós vemos de tudo, para nos mantermos actualizados.” – Ela fez uma pausa e ele fez um leve gesto com a cabeça, incentivando-a a prosseguir. – “Um dia estava a ver um filme e apareceu uma rapariga muito sorridente, que parecia irradiar felicidade e eu achei-a tão bonita que decidi ficar parecida com ela.”
O Nanael afagou-lhe o cabelo com um sorriso trapaceiro nos lábios. – “Era muito bonita mesmo.”
A Janelle mostrou um beicinho que fez com que ele desatasse a rir. – “Mas todos fazem pouco de mim!”
Ele parou de rir e abaixou-se para a poder encarar olhos nos olhos. – “Isso é porque nesta sociedade a beleza é estereotipada e tudo o que fuja à regra deixa de ser bonito aos olhos de quase toda a gente.”
“Então eu não sou bonita?” – Cabisbaixa, de olhos postos no chão e olhos semi-cerrados, ela lutou contra as lágrimas mordendo o lábio inferior enquanto este tremia. Escolhera aquela forma por a achar linda. Não fazia ideia que os outros não gostavam daquele modelo de pessoa.
O Nanael colocou as mãos debaixo dos braços dela e ergue-a no ar. Janelle soltou um gritinho estridente, sentindo-se muito pequena ao pé daquele gigante.
“Tu és linda! E nunca deixes que ninguém te diga o contrário. Está bem?”
A Janelle concordou com a cabeça, de rosto tão vermelho como a camisola do professor que a erguia bem alto nos seus braços.
Ele pousou-a no chão e ela quase perdeu o equilíbrio ao sentir novamente os pés a suportarem o peso do corpo. Afastou-se dele, dando-lhe espaço para terminar as preparações para a aula, e voltou-se para o espelho no fundo da sala.
O reflexo mostrava uma menina de dez anos, com o rosto quadrado, lábios finos, olhos azuis como a água, mãos pequenas e dedos cheios, num corpo mais recheado do que os que ela via a passear pelo corredor.
Na sua mente jovem não conseguia entender como podiam achá-la feia. As suas curvas eram bem mais bonitas de se ver que os ossos salientes dos restantes. A sua pele era macia e não se sentia mal a andar, conseguia respirar muito bem e fazia tudo o que os outros faziam. Porque então é que a desprezavam e chamavam de gorda?
Nanael surgiu atrás dela e o reflexo mostrou também o professor com pele da cor da terra, escura e com um cheiro muito característico do cacau puro.
Ele colocou as mãos nos ombros dela e beijou-lhe o cabelo antes de fitar os olhos dela reflectidos no espelho. – “Vês como és linda?”
“Sim, mas outros não pensam o mesmo, pois não?”
“Não interessa o que os outros pensam. O que importa é que tu te sintas bem e gostes do que vês. Tudo o resto é secundário.”
Aquelas palavras ficariam para sempre com ela, assim como o carinho patente em cada palavra do seu guardião.
“Obrigada.”
Ele sorriu uma vez mais, mostrando os seus belos dentes brancos, antes de se erguer e pedir-lhe que o ajudasse com o quadro. Ela seguiu-o, mas não sem antes dar uma última olhada ao reflexo e sorrir a si mesma, rodopiando com a saia voar à sua volta, como a bela menina que ela uma vez vira na televisão.

Este pequeno conto faz parte, como história alternativa, do projecto PFA (titulo provisório).

Celibato

22_celibatoUm velho salão, iluminado pelos majestosos candeeiros que se estendiam e multiplicavam pelo telhado esculpido em séculos passados. Os ocupantes caminhavam de forma ordeira pelas delimitações impostas pela cantina e conversavam animadamente uns com os outros. O som de uma campainha barulhenta soou por todo o edifício. Os suspiros que se seguiram demonstraram o desagrado de muitos.
“Lá vamos nós outra vez.” – Um dos homens mais altos que ali se encontrava, envergando uma batina castanha, benzeu-se com o sinal da cruz e elevou os olhos ao céu, como que implorando misericórdia.
O barulho que se seguiu poderia apenas ser comparado a uma debandada. O chão tremeu e os candeeiros de cristal abanaram compulsivamente, dando a sensação de estarem prestes a cair.
A multidão que invadiu o refeitório, foi de tal modo rápida e feroz que quase arrancou as colossais portas duplas que davam entrada para o local.
Olhos esbugalhados, bocas abertas e a salivarem, irromperam pelas filas ordenadas, empurrando tudo e todos que se apresentavam à sua frente.
“ORDEM! Meninos, ORDEM!” – Os funcionários que estavam protegidos da comoção por balcões de aço, batiam com as colheres de pau nos tachos, tentando impor respeito e ordem naquela rusga desenfreada. – “Há comida que chegue para todos.”
“Temos fome!” – Um rapaz com cabelos encaracolados e sardas salpicadas pelo rosto, elevou a sua voz acima da multidão. Foi seguido por um estrondoso grito de apoio dos restantes colegas.
“Vocês e toda a gente que aqui está. Mantenham-se na fila ou então vão passar as noites a limpar retretes.”
O som de amuo que tomou conta dos jovens foi como o gemido irritante e infantil de miúdos mimados a quem os pais prometeram doces e deram sopa.
Eles acalmaram-se, se bem que só um pouco, tentando ganhar terreno no campo de batalha que era a fila para a cantina.
O monge, que tinha tido o infortúnio de ser um dos últimos a entrarem antes de a escola terminar, viu-se rodeado de crianças que esbarravam contra ele. Nem mesmo o seu ar de “não te metas comigo que eu sou um homem de Deus e tenho força e autorização para te dar uns bons tabefes”os mantinha na linha. Ele suspirou e rezou, como que tentando afastar a ideia de berrar com eles e desatar à batatada.
«Deus é contra a violência.» – Repetia ele por entre os dentes.
“É verdade que os monges não podem ter sexo?”
A questão, vinda do nada, deixou-o atónico. Lentamente virou o rosto na direcção do seu inquisidor. Uma rapariga de curtos cabelos ruivos e com os olhos enormes e inquisidores, olhava-o curiosa. Não foi capaz de lhe responder.
“Deve ser uma seca. Viver sem sexo. Quem foi que inventou essa parvoíce?”
Para seu espanto, ao lado da ruiva estava outra ruiva. Uma cópia quase igual mas com um corte de cabelo ligeiramente diferente, mais curto ainda.
“Já experimentaste ao menos? É que se calhar nem sabes o que estás a perder.”
O queixo dele quase tocou no chão e ele ficou com a boca aberta a observar as duas pirralhas a discutirem sobre a sua vida sexual, ou falta dela neste caso. Elas não podiam ter mais de quinze anos. Que raio de conversa era aquela? E ainda tinham a distinta lata de o tratar como se ele fosse um amigo de escola. Onde estava o respeito pelos mais velhos.
“Se quiseres eu conheço umas raparigas que não se importavam de te mostrar os prazeres carnais. E nem levam dinheiro nem nada.”
“Que nos dizes, padreco? Prometo que não te vais arrepender”
«Eu não sou padre, suas piolhas!»
Ele considerou que fingir ignorância seria o seu melhor bilhete de saída para fora daquele filme assustador. Virou o rosto para o outro lado e prosseguiu em escolher uma sopa de ervilhas.
A gémea com o cabelo mais comprido observava-o atentamente e ele sentia-se como debaixo de um microscópio, sendo examinado ao pormenor e dissecado lentamente.
“Tu até pareces ter um corpo bem jeitoso. Tens a certeza que não queres deixar de lado essa ideia de celibato? Eu não me importava de dar umas voltas no teu —”
Como num reflexo ele plantou a sua mão na boca dela, corando como um tomate maduro.
“Mas será que vocês não têm tento na língua?”
A outra irmã sorriu de orelha a orelha e ele sentiu-se derrotado. Elas tinham conseguido afectá-lo mais do que ele gostaria.
“Afinal o padreco até sabe umas coisas …”
«Eu não sou padre, raios.»
“Não que isso seja do vosso interesse, mas eu sou monge e o celibato não me impede de ter … relações, apenas me impede de casar.” – E dizendo essas palavras, com o rosto ainda tingido de vermelho, prosseguiu rapidamente para fora da fila, tentando enfiar-se numa mesa qualquer o mais rapidamente que podia.
Os miúdos já não tinham respeito nenhum.

Este pequeno conto faz parte, como história alternativa, do projecto PFA (titulo provisório).

Prato principal

21_pratoprincipalA afluência de pessoas à cantina, todas as noites, era um espectáculo impressionante. Estudantes, funcionários, agentes, todos tinham algo para comer naquele enorme salão da era vitoriana, reaproveitado para um serviço mais comunitário que a simples dança ocasional.
Alana, uma jovem de longos cabelos loiros e baixa estatura, entrou na fila que avançava a passo de caracol. O tabuleiro castanho, seguido dos talheres, guardanapo, pão saloio, copo e uma pequena garrafa de água, deslizaram pelo corrimão, sob a mão dela.
“Boa noite, linda.”
Alana estremeceu ao ouvir uma voz conhecida a soprar no seu ouvido. Com um movimento rápido, levou o cotovelo na direcção do seu, mais que indesejado, companheiro.
“Boa noite, só se for para ti.”
Ele desviou-se sem dificuldade, mergulhando o rosto no seu próprio tabuleiro e sorrindo de orelha a orelha. – “Tem calma, fofura.”
“Não me chames isso.”
Ele ergueu-se novamente em toda a sua glória. Quase dois metros de pura imposição corporal. Ele era capaz de ameaçar qualquer um, mesmo quando essa não era a sua intenção. Mas Alana não se deixava intimidar.
“Tu és tão stressada. Tens as veias a saltar-te da testa, querida.”
“Não te preocupes que não vão explodir e banhar-te em sangue, ok?”
“Uma pena …”
Ela grunhiu qualquer coisa enquanto tentou ignorá-lo e avançou um pouco mais com o seu tabuleiro.
“Carne, Peixe, Vegetariana ou Surpresa?” – A mulher de idade que a cumprimentou, por detrás do balcão, com uma cara carrancuda, segurava na mão uma enorme colher de pau e exultava uma aura de ‘não quero discussões aqui’, que impunha mais respeito que a estatura do homem ao seu lado.
“Vegetariana, por favor.”
“Para variar …” – O sarcasmo intencional do homem, não foi bem vindo.
“Escuta, Giorgio. Lá porque tu tens uma dieta selecta, não quer dizer que possas meter o bedelho no que eu como.”
“Mas vegetais e fruta … é triste!”
Ela quase lançou o cotovelo novamente no ar.
“Ignora-o, ignora-o.”
“Eu consigo ouvir-te, doçura.”
Ela estava prestes a rebentar, mas a servente fez o favor de interromper a tensão, pousando ruidosamente o prato no tabuleiro de Alana.
“Próximo!”
“AB positivo, por favor.”
Alana suspirou de alívio quando deixou a fila e prosseguiu para uma das poucas mesas ainda vazias. Aquele homem punha-a numa pilha de nervos.
Sentou-se e antes mesmo que tivesse oportunidade de começar a comer, já ele estava sentado à sua frente. Ela rugiu como uma leoa feroz.
“Vá, vá. Sabes muito bem quais são as regras.” – O sorriso constante dele, só serviu para a pôr ainda mais azul de raiva.
“Quem fez essas malditas regras devia arder no fogo do inferno.”
Ele soltou uma gargalhada e girou o temporizador na tampa da sua caneca de litro. – “Acho que já lá esteve durante muito tempo.”
O estômago de Alana deu umas voltas e fez um barulho como quem queria vomitar.
“Não sejas assim, fofa. Eu também não sou fã da tua comida, mas ao menos não me dá vómitos ver-te comer.”
“Eu como comida normal!”
“Normal para ti, queres tu dizer.”
Alana ignorou-o e levou uma garfada de salada exótica à boca.
Sentiu um arrepio na espinha e olhou de relance para o homem à sua frente. Ele lambeu os lábios de forma sedutora.
Eeeeeeeewwwwwwwwww!
“Que foi?”
“Tu acabaste de olhar para mim como se eu fosse um aperitivo.”
“Estava a pensar mais em prato principal, doçura.”
Nojento! Afasta-te de mim.”
Ele voltou a soltar uma gargalhada sonora e várias pessoas olharam na direcção dos dois. Alana abaixou o rosto e devorou, literalmente, a sua refeição.
Um suave ‘plim‘ soou do temporizador no tabuleiro da frente e ela viu-o lamber novamente os lábios enquanto retirava a tampa e levava o copo à boca.
Alana observou, como que hipnotizada, enquanto ele bebia avidamente o líquido vermelho, sem desperdiçar uma única gota. A maçã de adão dele subia e descia no seu pescoço, como uma relógio compassado.
Quando ele finalmente terminou, com um suspiro de satisfação, Alana reparou que quase se tinha esquecido de comer. Tentando esquecer a imagem dele a devorar o sangue, ela depenicou lentamente no seu prato, já sem grande fome.
“Tens que comer tudo senão ficas fraca. Não te queremos com anemia, pois não?”
Ela olhou-o incrédula.
“O que é que isso tem a ver contigo?”
Ele sorriu e interligou os dedos por baixo do queixo, olhando-a como um predador olha a sua presa.
“Querida, eu gosto mais quando o teu sangue flui bem pelas tuas veias. É mais fácil lutar a teu lado quando sei que não vais desmaiar a meio de uma missão.”
“És tão atencioso.” – Ela usou o tom mais sarcástico que conseguiu.
“Só contigo, querida.”
Ela revirou os olhos e continuou a comer, desta vez já com mais vontade.
Ele continuou a observá-la, incitando-a a comer mais. Ela tentou não pensar muito nisso e terminou o mais depressa que pôde. A companhia dele deixava-a nervosa, mas trabalho era trabalho.

Nota: Este texto faz parte do universo do meu novo projecto, temporariamente apelidado de PFA. E antes que perguntem … não, não é só sobre vampiros, muito longe disso aliás.

O retrato

20_retratoGostava de fotografar a tua alma, mas tenho medo do que possa ver.
Será que mudarei a minha opinião acerca de ti quando a lente da câmara captar a tua verdadeira forma?
Será que é justo julgar-te dessa forma?
Tu que sempre te mostrastes pronta a ajudar todos, que estás rodeada de amigos e que ao mesmo tempo pareces tão só.
Tu que sorris tantas vezes e ao mesmo tempo nunca sorris verdadeiramente.
Será que tenho o direito de violar o teu íntimo desta forma?
“Então o que vai ser hoje?”
Sorris, mas não o sentes. Consigo vê-lo nos teus olhos.
Não o fazes por mal. Acredito que não. Mas por detrás de toda essa aparente felicidade está um manto de tristeza.
O que foi que te feriu tão profundamente?
“É hoje que tiras o meu retrato?”
Pondero a tua questão. Sinto vontade de dizer que sim, mas temo fazê-lo.
“Começo a sentir-me menosprezada. Serei eu a única pessoa da vila a quem nunca tiraste uma foto?”
Sim és. Mas nunca to direi.
“Achas que te vou dar cabo da película?”
Duvido que esse fosse o problema. Só não quero é estragar a imagem que tenho de ti.
Quero compreender-te, mas tenho medo. Medo de ver a verdade e nunca mais conseguir olhar-te do mesmo modo.
Não quero menosprezar-te. Não quero alienar-te como fiz a tantos outros depois de os capturar em filme.
Aquelas fotos que nunca deveriam sair do meu estúdio. Aquelas que todos acham ser os melhores retratos da cidade, mas que aos meus olhos mostram todas as barbaridades e toda a podridão de cada um dos retratados.
Tu foste a única que permaneceu imutável depois de tantos anos de ausência. Ages da mesma forma, sorris da mesma forma. O teu coração de ouro mantêm-se intacto. Mas … o brilho desapareceu. Aquele brilho que rendia qualquer um imóvel e que te tornava tão única.
Quatro anos de ausência trouxeram muitas mudanças à minha vida. Quando regressei à vila, tudo parecia semelhante, mas no fundo estava tudo diferente. Todos têm algo a esconder e eu acabei por descobrir a podridão de todos eles.
Tornei-me apático já que não queria criar inimizades.
Tento não pensar no que sei, no que vejo, no que todos escondem debaixo de uma manto de normalidade que não faz mais que camuflar a verdade ao de leve, sem nunca esconder de realmente o que quer que seja.
Tu também deves ter os teus podres. A diferença é que não os quero conhecer. As tuas falhas, quero que permaneçam só tuas, a menos que querias partilhá-las comigo.
Tantas vezes ergo a câmara na tua direcção.
Hesito com o dedo sobre o “Capture”.
Os minutos passam e eu pareço uma estátua presa no tempo.
Acabo sempre por recolher a ferramenta, sem ter pressionado o botão uma só vez.
Gosto deste relacionamento. Deste desconhecimento total que tenho em relação a ti. Tão diferente do que tenho com os restantes. Tão mais confortável. Assustador, sim, mas também extremamente confortável.
“Promete-me que um dia vais tirar o meu retrato e que será o melhor de sempre.”
Por momentos aquele brilho característico regressa ao teu olhar. Tenho a certeza que o meu rosto mostra surpresa.
“Prometes?”
Afagas levemente o teu ventre proeminente. Não é intencional no meio da conversa, mas de alguma forma esse gesto faz desaparecer o brilho novamente.
Quero perguntar-te tantas coisas sobre a criança.
Quem é o pai?
Onde é que ele está?
Porque vos abandonou?
Mas sou um covarde e por isso mantenho-me em silêncio.
Será por isso que te sentes tão à vontade comigo? Porque não te questiono como todos os outros fazem. Todos os curiosos e coscuvilheiro que não querem mais do que ter razões para se deleitar na miséria dos outros, ao invés de ponderar sobre a sua.
“Sabes…”
A tua pausa parece durar uma eternidade.
“Gostava mesmo que tirasses uma foto de nós os dois. Só tu conseguirias captar verdadeiramente o que sinto por esta criança.”
Fico abismado enquanto observo o brilho regressar. Sempre soube que nutrias um amor incondicional pelo bebé que carregas no ventre, mas também era por ele que mostravas a maior tristeza que os teus olhos poderiam carregar.
Voltas o teu olhar para mim e suplicas-me, sem palavras, que realize o teu desejo.
Nem eu seria capaz de recusar.
Pego numa velha cadeira que está encostada a um canto e trago-a para o pé de ti, atrás do balcão.
Peço-te que te sentes, da forma mais confortável que puderes.
Afastas ligeiramente as pernas e viras-te um pouco de lado, apoiando as costas na cadeira que chia. As tuas mãos repousam suavemente sobre a tua barriga de quase nove meses.
Sempre pensei que fosses daquelas mulheres curiosas que não esperaria até ao nascimento para saber o sexo do bebé, mas surpreendeste-me ao revelar que não pretendias fazê-lo.
Relaxa.
Ficas silenciosa.
É estranho.
Vejo-vos através do visor da câmara.
Hesito.
O teu leve sorriso e o brilho nos teus olhos … quero aprisioná-los na película, mas temo o resultado.
Pressiono o botão.

No meu estúdio escuro, revelo cuidadosamente o rolo que usei para tirar fotografias tuas.
Não sei o que deva sentir, pois depois da minha relutância inicial, acabei por não conseguir parar de te tirar fotos. Tu que, divertida, mudavas de posições e esbanjavas sorrisos como já não te via fazer desde que regressara à vila, sete meses atrás.
Estranhamente não sinto grande receio enquanto espero que as películas sequem. Tento não olhar fixamente para elas, pois só quero vê-las fora do estúdio.
Pode ser ridículo, mas não quero descobrir-te no mesmo local que vi todos os outros por aquilo que realmente são.
Saio do quarto, com as fotos na mão. Sento-me no sofá e respiro fundo. Não há como negar que estou nervoso.
Talvez não devesse vê-las a fundo.
Seria melhor entregá-las e nunca lhes prestar atenção.
Lentamente baixo o olhar para as fotos.
Nada.
Não há nada a sujar a imagem, nada a rodear-te em obscuridade.
Nada.
Nunca tinha visto uma imagem capturada tão limpidamente. Nunca vira um sorriso tão verdadeiro e uma completa ausência de ressentimentos, culpas e tristezas.
Seria possível que eu estivesse todo aquele tempo a pensar demais?
Será que tu não tinhas mesmo nada a esconder?
À medida que visualizo cada uma das tiragens, acredito que sim. Que nada te havia manchado e que tu conseguias assim criar a mais bela das fotos.
Até que cheguei à última. Aquela que tinha sido, de verdade, a primeira a ser tirada, quando ainda não estavas suficientemente descontraída.
A sombra negra que paira sobre ti e alcança o seu ventre, com um sorriso assustador no rosto … eu reconheço aquela forma. Sei quem era pois já o tinha capturado com a minha câmara e sabia as coisas que ele tinha feito.
O meu coração acelera o compasso.
Todo o meu corpo treme e sinto uma raiva tão grande que penso não conseguir contê-la.
Aquela besta!
A morte seria punição demasiado leve para ele.

A campainha toca, retirando-me à força do meu estado odioso.
Sinto nojo de mim próprio, pois por momentos tinha imaginado as coisas mais horrendas e tinha arquitectado planos mirabolantes para colocar tudo isso em prática.
Não ia fazê-lo.
Não podia fazê-lo.
Tu és quem devia odiá-lo, e mesmo assim escolheste perdoá-lo. Quem sou eu para negligenciar essa decisão?
Abro a porta e sinto-me ainda mais enojado ao aperceber-me que tenho de forçar um sorriso para receber-te. Tenha vergonha de mim mesmo.
“Disseste-me que podia passar por cá quando fechasse a loja.”
Entras, sem grandes cerimónias. Afinal já conheces os cantos à casa.
“Já estão prontas?”
Vês o monte que espalhei na mesa da sala e pareces brilhar de excitação.
“Posso vê-las?”
Tenho a boca seca. Limito-me a acenar e tu caminhas o mais rápido que podes até lá. Sentas-te e reparo que tens muito cuidado para não bateres com a barriga na mesa. O bebé deve estar quase a nascer. Essa criança que nasceu de uma noite que te marcará para sempre.
“UAU! Estão lindas.”
Posso apenas imaginar pelo que tenhas passado.
És muito mais forte do que alguma vez te julguei. Sinto vergonha por ter sequer ponderado a tua fraqueza, a tua vergonha. És mais do que alguma vez poderei desejar ser e só espero nunca te magoar.
“Não sei como consegues. Eu nunca fui fotogénica, mas estão … estão … olha nem sei.”
Estão muito aquém da realidade, essa é a verdade.
“Podes colocar esta em tamanho maior? Quero pendurá-la lá na loja.”
Escolheste bem. Não só a foto capta uma grande parte do teu estabelecimento como tu irradias de beleza nela.
“Estou indecisa. Quais devo aumentar?”
Aumenta-as todas.
“AHA! Não posso. Onde as ia colocar?”
Podes ter a certeza que ficarão penduradas nas paredes do meu coração para sempre.
Sou mesmo covarde.
Durante todo este tempo tive medo. Medo de te ver realmente. Medo de me ferir.
Agora que sei a verdade, tenho o mesmo medo, somado ao medo de te magoar mais do que alguma vez poderia a mim mesmo.
“Vais pôr alguma destas exposta na tua galeria?”
Não tenho tempo para te responder que sim. Claro que sim!
“AHA! Claro que não. Tens fotos de gente tão mais bonita. Porque havias de ocupar um espaço comigo?”
O teu riso não é nervoso, nem falso. É como música.
É óbvio que vou expor-te. És a minha obra-prima, a única para a qual consigo olhar sem ter de camuflar o meu asco, a minha repulsa. Podia esconder-te dos olhares alheios, mas estaria a ser egoísta.
Vou colocar-te no pódio da galeria, em tamanho três vezes maior que todos os outros.
“Não brinques.”
Nunca.
“A sério? Ah, mas isso é muito embaraçoso.”
Só quero que todos vejam o que eu vejo. Nada mais.
“Estás a deixar-me corada. AHA!”
Este último riso já é nervoso, mas não soa falso.
O teu rosto brilha um rosado tão teu, que já não via à mais de quatro anos. Tinha-me perguntado onde ele tinha ido.
Ainda tens o hábito de conciliar as tuas bochechas vermelhas com as mãos.
Não mudaste quase nada.
Não!
Mudaste muito.
Para melhor …
“Lá estás tu outra vez.”
Quero abraçar-te, mas não sinto que seja o momento apropriado. Ou talvez seja e eu esteja a pensar demasiado sobre as coisas.
Tudo seria mais fácil se eu soubesse ao certo como reagirias, mas tu consegues sempre surpreender-me e por isso temo mover-me demasiado depressa.
Só lá colocarei a foto se me deres permissão. Se não quiseres, basta dizeres-me.
“Bem … não sei … achas mesmo que vale a pena?”
Nunca me senti mais orgulhoso de uma foto. Mas se não estiveres à vontade com isso, eu limitar-me-ei a guardá-las na minha colecção
“Isso é ainda mais embaraçoso.”
Viras o rosto para onde não posso ver a tua expressão.
Não sei como devo interpretar essa tua resposta.
O silêncio toma conta de nós e sinto que devo dizer algo, fazer algo para o quebrar.
Temo arrepender-me mas os meus braços já rodeiam os teus ombros antes mesmo que me dê conta do que estou a fazer.
Ficas tensa.
Relaxas.
Não fazes qualquer movimento para me afastar e eu deixo-me ficar, sentindo o perfume delicioso a jasmim que sai dos teus cabelos.
Talvez seja melhor mantê-las só na minha colecção.
“É capaz de ser melhor.”
Fechas os olhos e recostas-te na cadeira e nos meus braços.
Não te largarei até que me obrigues a fazê-lo.


Nota: Esta história faz parte do universo de “Alma” um projecto meu que começou por ser uma novela gráfica, mas que provavelmente terminará em romance.

Nota 2: A pessoa na fotografia é uma amiga. Espero que não leve a mal.