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Ideias Dispersas * Scattered Ideas

Semanário 161

Por vezes acontece de haver uma enxurrada de ideias. E quando isto acontece, poucas são as vezes em que as ideias vêm todas para um mesmo projecto. Ou pelo menos é o que tende a acontecer comigo.
Já há algum tempo que não me recordava de ser assolada por várias descobertas em simultâneo. Tive de me sentar ao computador e escrever até sentir que pusera numa folha o que tinha em mente.
O mais interessante – penso eu – é que não foram ideias apenas para um projecto, mas sim para três: “Vermelho Sangue“, “Angel Gabriel ~ Pacto de Sangue” e especialmente para o “PFA” (nome provisório) no qual já não pensava há algum tempo.

Acredito que este enchente de ideias dispersas tenha um pouco a ver com o facto de esta semana ter ponderado se devia ou não participar no Camp NaNoWriMo (em Junho e Agosto, mas se eu fizesse era somente em Agosto). Posso ainda mudar de ideias mas, apesar de estar desempregada de momento, não me parece que vá participar em nenhum desses meses, preferindo depois juntar-me ao NaNoWriMo em Novembro, como já é hábito.
De um ponto de vista mais lógico talvez fosse melhor para mim participar agora que estou desempregada, mas ao fazê-lo estaria a atrasar outros objectivos como a revisão do “Dragões e seus Sacrifícios” e isso não quero fazer. Além do mais com quatro romances à espera de revisão, seria um pouco irresponsável da minha parte escrever outro e negligenciar esses.
Ninguém disse que as revisões eram fáceis e quem me dera ser um dos poucos escritores que não precisa de rever os textos pois sai-lhe tudo bem à primeira. Ai, ai! (Não admira que sejam tão escassos os casos em que tal aconteça)

Tal como tinha falado na semana passada, revi o conto de Livros, que intitulei de “A Dança das Letras“. Tive de cortar alguns trechos para que o conto se inserisse no solicitado pela Fénix 2. Cada vez mais me parece custar escrever contos curtos, o que chega a ser engraçado tendo em conta que no início, quando comecei este blog, todos os meus contos eram bastante curtos (uma ou duas páginas).
Por outro lado não tive tempo de rever o conto sobre Dragões, mas a minha intenção é torná-lo mais divertido e descontraído. Lá para o fim voltei a cair no velho hábito de tornar a história demasiado séria (acontece-me sempre isso, mesmo quando estou convicta que a história é boa para comédia). E depois disso pretendo escrever outro conto sobre Dragões, passado no mesmo mundo (do”Dragões e seus Sacrifícios“) para submeter à Antologia Dragões da Editora Draco (limite 31-07-2012).

E não havendo muito mais a dizer, gostava de saber – se não se importarem – quem está a pensar participar em quais antologias?

Não se esqueçam que a Fénix fanzine está à procura de contos sobre Livros/Bibliotecas Fantásticas e Fantástico no Feminino; e a NanoZine vai fazer um número especial sobre Steampunk (e outras formas de Punk). Todas boas oportunidades de divulgação a nível nacional. (Se souberem de alguma antologia/fanzine que não esteja na minha lista na coluna direita do blog, por favor deixem um comentário com os links)

*ENGLISH*

Weekly 161

Occasionally a storm of ideas happens. And when it does, few times these ideas come for one project alone. Or at least that’s what happens to me.
It’s been a while since the last time I remember being filled with several new discoveries. I had to sit down and type in until what was on my mind was also on a virtual page.
The most interesting thing – I think – is that those weren’t ideas for a single project, but three: “Blood Red“, “Angel Gabriel ~ Blood Pact” and especially for “PFA” (temporary title), a project I hadn’t thought much about in a while.

I believe this assault of scattered ideas has something to do with the fact that this week I thought long and hard about joining Camp NaNoWriMo (in June and August, although I’d only join in August if at all). I might still change my mind but, despite my being unemployed at the moment, I don’t think I’ll be participating in either, instead I’ll do NaNoWriMo in November, as usual.
From a logical point of view it would probably be wisest to join in now, while I’m unemployed, but by doing so I’d be putting aside other objectives, such as the revisions of “Dragons and their Sacrifices” and that’s something I don’t want to do. Besides, with four novels waiting for revision, it would be reckless of me to start writing a new one and neglect the ones that are already written.
No one ever said revisions were easy and I wish I was one of thos authors that don’t need to revise their texts because all their novels come out perfect on the first draft. A, ai! (No wonder the cases are so few).

As I’d said last week, I revised my short story about Books, which I named “Letter’s Dance”. I had to cut off some parts of the story for it to fit into the rules for Fénix 2. More and more it seems like it’s hard for me to write smaller short-stories, which is kind of funny considering that back when I started this blog all my short-stories were really short (one or two pages).
On the other hand I didn’t have enough time to revise my short-story on Dragons, but it’s my intention to make it funnier and lighter. At the end I went back to my old habits and inserted some drama (this always happens to me, even when I’mconvinced the story is a comedy). And after that I’ll write another story about dragons, in the same setting (from “Dragons and their Sacrifices“) for submission to Dragons Anthology by Draco Editions (deadline 31-07-2012).

And with little else to say I’d like to know – if you don’t mind – what anthologies are you think of participating, if any?

Don’t forget that Fénix fanzine is looking for short-stories about Fantasie Books/Libraries and Fantasy in Feminine; and NanoZine is preparing a special number on all things Steampunk (and other Punk trends). All good opportunities of national propaganda. (If you know of any other anthologies/fanzines open to submissions, please drop a comment with the links)

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Aparências

Com os olhos quase colados, Janelle esfregou os nós dos dedos na cara, para tentar desfazer-se da desconfortável remela que todas as noites lhe envolvia os olhos. Era uma coisa muito nojenta, conforme ela tinha aprendido depois de, no seu primeiro dia na academia, ter saído do quarto sem lavar a cara, e ter sido posteriormente gozada por todas as pessoas que encontrou a caminho do gabinete do director.
Já se tinha sentido suficientemente mal por ser nova na academia, e por ainda não estar habituada àquele corpo, mas ouvir as risadas dos outros enquanto caminhava pelos corredores, foi a maior humilhação de sempre. Não que ela tivesse muitos termos de comparação, mas sentira-se como uma formiguinha debaixo das gargalhadas de gozo, e nunca mais se queria sentir assim.
Infelizmente ainda não tinha feito amigos, e limitava-se a ficar sempre junto do Nanael, que era exactamente como lhe tinham contado, um anjo de pessoa, ou melhor dizendo, era mesmo um anjo EM pessoa.
Às vezes também passava tempo com o Marco, que era um metamorfo como ela, mas já quase a terminar o seu mandato, ou mesmo com os restantes metamorfos em serviço, mas eles pouco tempo tinham para ela, pois estavam sempre atarefados com os seus afazeres.
Janelle gostava da companhia deles, mas o problema era que a diferença de idades era um entrave e acabava sempre por se sentir como uma criança imatura, o que raramente acontecia quando estava com o Nanael.

Espreguiçou-se lentamente na cama, sem grande vontade de abandonar os lençóis de flanela que lhe aqueciam as pernas e a deixavam mole o suficiente para querer ficar o dia todo deitada no conforto do quarto.
Vestindo as primeiras peças de roupa que apareceram à sua frente, sem qualquer preocupação em combinar as cores ou perceber se as peças lhe assentavam bem (desde que não a apertassem, porque ela odiava sentir-se apertada), passou os dedos pelos cabelos lisos e quebradiços, antes de escovar os dentes.
Quando se preparava para sair do quarto, um receio familiar tomou-a de assalto e ela nem conseguiu agarrar convenientemente a maçaneta da porta, antes de a empurrar para baixo e entreabrir a porta. Meteu o nariz de fora e espreitou para o corredor. O barulho era estrondoso, como nas manhãs anteriores, e a comoção era assustadora. Todos os alunos se levantavam àquela hora para depois seguirem em direcção à cantina onde todos, mesmo os agentes mais condecorados, tomavam as suas refeições.
Janelle ficou à porta, esperando que a multidão dispersasse e ela pudesse então sair a correr, para não correr o risco de se cruzar com ninguém, mas o seu estômago não estava de acordo com esses estratagema já que começou a roncar baixinho, embaraçando-a ainda mais.
Ela voltou a enfiar-se dentro do quarto, com as bochechas rosadas e os joelhos moles. Respirou fundo antes de voltar a abrir a porta e, dessa vez, sair para o corredor concorrido. Ninguém lhe prestou muita atenção. Era apenas mais uma no meio de muitas!
Foi para a cantina e tomou o seu pequeno-almoço vitamínico, cheio de complementos e preparados especiais a que só os da sua espécie tinham acesso, pois eram os únicos que deles necessitavam. Estranhou não ver o Nanael, mas concluiu que ele já estaria na sala de aula e por isso despachou-se a comer tudo para depois poder ir para junto dele.
Queria lá chegar depressa, mas a multidão era tão densa que ela tinha dificuldade em avançar rapidamente, e em nada ajudava o facto de a sua coordenação motora não ser das melhores. Muitas vezes tropeçou nos próprios pés e só não caiu de cara porque a multidão acabava por a amparar, não sem muitos grunhidos e queixumes do restante corpo de aulas. De cada vez que embatia em alguém, Janelle baixava a cabeça, fazia uma pequena vénia, desfazendo-se em desculpas, até que os queixosos lhe viravam costas, muitos apenas depois de gozarem um pouco com o aspecto físico dela, algo que ela achava incompreensível.
De tão estranho que achava tal comportamento, decidiu questionar o Nanael sobre o assunto.
Quando chegou à sala de aulas, encontrou o professor junto da mesa de docente, preparando o computador portátil e o projector para a aula que só começaria dali a trinta minutos.
“Bom dia, Nanael!” – Janelle entrou sorridente pela sala, e ele logo ergueu o rosto para a cumprimentar da mesma forma carinhosa.
“Bom dia, minha querida. Passaste bem a noite?”
Ela respondeu-lhe com um aceno vivaz da cabeça, juntando as mãos nervosas na bainha da saia. – “Queria perguntar-lhe … -te uma coisa.” – Ainda não estava habituada a trata-lo por tu, como ele tinha insistido que fizesse desde o primeiro dia.
“Força!”
“Bem, é que toda a gente faz pouco do meu aspecto e eu gostava de saber se há alguma coisa de mal com a minha aparência. Se calhar estou a fazer alguma coisa de mal e nem me dou conta.”
O Nanael sorriu-lhe ainda mais enquanto ligava o computador. – “Diz-me, porque escolheste essa forma?”
Ela roçou o pé esquerdo na perna direita, nervosa. – “Lá em casa a televisão está sempre ligada e nós vemos de tudo, para nos mantermos actualizados.” – Ela fez uma pausa e ele fez um leve gesto com a cabeça, incentivando-a a prosseguir. – “Um dia estava a ver um filme e apareceu uma rapariga muito sorridente, que parecia irradiar felicidade e eu achei-a tão bonita que decidi ficar parecida com ela.”
O Nanael afagou-lhe o cabelo com um sorriso trapaceiro nos lábios. – “Era muito bonita mesmo.”
A Janelle mostrou um beicinho que fez com que ele desatasse a rir. – “Mas todos fazem pouco de mim!”
Ele parou de rir e abaixou-se para a poder encarar olhos nos olhos. – “Isso é porque nesta sociedade a beleza é estereotipada e tudo o que fuja à regra deixa de ser bonito aos olhos de quase toda a gente.”
“Então eu não sou bonita?” – Cabisbaixa, de olhos postos no chão e olhos semi-cerrados, ela lutou contra as lágrimas mordendo o lábio inferior enquanto este tremia. Escolhera aquela forma por a achar linda. Não fazia ideia que os outros não gostavam daquele modelo de pessoa.
O Nanael colocou as mãos debaixo dos braços dela e ergue-a no ar. Janelle soltou um gritinho estridente, sentindo-se muito pequena ao pé daquele gigante.
“Tu és linda! E nunca deixes que ninguém te diga o contrário. Está bem?”
A Janelle concordou com a cabeça, de rosto tão vermelho como a camisola do professor que a erguia bem alto nos seus braços.
Ele pousou-a no chão e ela quase perdeu o equilíbrio ao sentir novamente os pés a suportarem o peso do corpo. Afastou-se dele, dando-lhe espaço para terminar as preparações para a aula, e voltou-se para o espelho no fundo da sala.
O reflexo mostrava uma menina de dez anos, com o rosto quadrado, lábios finos, olhos azuis como a água, mãos pequenas e dedos cheios, num corpo mais recheado do que os que ela via a passear pelo corredor.
Na sua mente jovem não conseguia entender como podiam achá-la feia. As suas curvas eram bem mais bonitas de se ver que os ossos salientes dos restantes. A sua pele era macia e não se sentia mal a andar, conseguia respirar muito bem e fazia tudo o que os outros faziam. Porque então é que a desprezavam e chamavam de gorda?
Nanael surgiu atrás dela e o reflexo mostrou também o professor com pele da cor da terra, escura e com um cheiro muito característico do cacau puro.
Ele colocou as mãos nos ombros dela e beijou-lhe o cabelo antes de fitar os olhos dela reflectidos no espelho. – “Vês como és linda?”
“Sim, mas outros não pensam o mesmo, pois não?”
“Não interessa o que os outros pensam. O que importa é que tu te sintas bem e gostes do que vês. Tudo o resto é secundário.”
Aquelas palavras ficariam para sempre com ela, assim como o carinho patente em cada palavra do seu guardião.
“Obrigada.”
Ele sorriu uma vez mais, mostrando os seus belos dentes brancos, antes de se erguer e pedir-lhe que o ajudasse com o quadro. Ela seguiu-o, mas não sem antes dar uma última olhada ao reflexo e sorrir a si mesma, rodopiando com a saia voar à sua volta, como a bela menina que ela uma vez vira na televisão.

Este pequeno conto faz parte, como história alternativa, do projecto PFA (titulo provisório).

Celibato

22_celibatoUm velho salão, iluminado pelos majestosos candeeiros que se estendiam e multiplicavam pelo telhado esculpido em séculos passados. Os ocupantes caminhavam de forma ordeira pelas delimitações impostas pela cantina e conversavam animadamente uns com os outros. O som de uma campainha barulhenta soou por todo o edifício. Os suspiros que se seguiram demonstraram o desagrado de muitos.
“Lá vamos nós outra vez.” – Um dos homens mais altos que ali se encontrava, envergando uma batina castanha, benzeu-se com o sinal da cruz e elevou os olhos ao céu, como que implorando misericórdia.
O barulho que se seguiu poderia apenas ser comparado a uma debandada. O chão tremeu e os candeeiros de cristal abanaram compulsivamente, dando a sensação de estarem prestes a cair.
A multidão que invadiu o refeitório, foi de tal modo rápida e feroz que quase arrancou as colossais portas duplas que davam entrada para o local.
Olhos esbugalhados, bocas abertas e a salivarem, irromperam pelas filas ordenadas, empurrando tudo e todos que se apresentavam à sua frente.
“ORDEM! Meninos, ORDEM!” – Os funcionários que estavam protegidos da comoção por balcões de aço, batiam com as colheres de pau nos tachos, tentando impor respeito e ordem naquela rusga desenfreada. – “Há comida que chegue para todos.”
“Temos fome!” – Um rapaz com cabelos encaracolados e sardas salpicadas pelo rosto, elevou a sua voz acima da multidão. Foi seguido por um estrondoso grito de apoio dos restantes colegas.
“Vocês e toda a gente que aqui está. Mantenham-se na fila ou então vão passar as noites a limpar retretes.”
O som de amuo que tomou conta dos jovens foi como o gemido irritante e infantil de miúdos mimados a quem os pais prometeram doces e deram sopa.
Eles acalmaram-se, se bem que só um pouco, tentando ganhar terreno no campo de batalha que era a fila para a cantina.
O monge, que tinha tido o infortúnio de ser um dos últimos a entrarem antes de a escola terminar, viu-se rodeado de crianças que esbarravam contra ele. Nem mesmo o seu ar de “não te metas comigo que eu sou um homem de Deus e tenho força e autorização para te dar uns bons tabefes”os mantinha na linha. Ele suspirou e rezou, como que tentando afastar a ideia de berrar com eles e desatar à batatada.
«Deus é contra a violência.» – Repetia ele por entre os dentes.
“É verdade que os monges não podem ter sexo?”
A questão, vinda do nada, deixou-o atónico. Lentamente virou o rosto na direcção do seu inquisidor. Uma rapariga de curtos cabelos ruivos e com os olhos enormes e inquisidores, olhava-o curiosa. Não foi capaz de lhe responder.
“Deve ser uma seca. Viver sem sexo. Quem foi que inventou essa parvoíce?”
Para seu espanto, ao lado da ruiva estava outra ruiva. Uma cópia quase igual mas com um corte de cabelo ligeiramente diferente, mais curto ainda.
“Já experimentaste ao menos? É que se calhar nem sabes o que estás a perder.”
O queixo dele quase tocou no chão e ele ficou com a boca aberta a observar as duas pirralhas a discutirem sobre a sua vida sexual, ou falta dela neste caso. Elas não podiam ter mais de quinze anos. Que raio de conversa era aquela? E ainda tinham a distinta lata de o tratar como se ele fosse um amigo de escola. Onde estava o respeito pelos mais velhos.
“Se quiseres eu conheço umas raparigas que não se importavam de te mostrar os prazeres carnais. E nem levam dinheiro nem nada.”
“Que nos dizes, padreco? Prometo que não te vais arrepender”
«Eu não sou padre, suas piolhas!»
Ele considerou que fingir ignorância seria o seu melhor bilhete de saída para fora daquele filme assustador. Virou o rosto para o outro lado e prosseguiu em escolher uma sopa de ervilhas.
A gémea com o cabelo mais comprido observava-o atentamente e ele sentia-se como debaixo de um microscópio, sendo examinado ao pormenor e dissecado lentamente.
“Tu até pareces ter um corpo bem jeitoso. Tens a certeza que não queres deixar de lado essa ideia de celibato? Eu não me importava de dar umas voltas no teu —”
Como num reflexo ele plantou a sua mão na boca dela, corando como um tomate maduro.
“Mas será que vocês não têm tento na língua?”
A outra irmã sorriu de orelha a orelha e ele sentiu-se derrotado. Elas tinham conseguido afectá-lo mais do que ele gostaria.
“Afinal o padreco até sabe umas coisas …”
«Eu não sou padre, raios.»
“Não que isso seja do vosso interesse, mas eu sou monge e o celibato não me impede de ter … relações, apenas me impede de casar.” – E dizendo essas palavras, com o rosto ainda tingido de vermelho, prosseguiu rapidamente para fora da fila, tentando enfiar-se numa mesa qualquer o mais rapidamente que podia.
Os miúdos já não tinham respeito nenhum.

Este pequeno conto faz parte, como história alternativa, do projecto PFA (titulo provisório).

Prato principal

21_pratoprincipalA afluência de pessoas à cantina, todas as noites, era um espectáculo impressionante. Estudantes, funcionários, agentes, todos tinham algo para comer naquele enorme salão da era vitoriana, reaproveitado para um serviço mais comunitário que a simples dança ocasional.
Alana, uma jovem de longos cabelos loiros e baixa estatura, entrou na fila que avançava a passo de caracol. O tabuleiro castanho, seguido dos talheres, guardanapo, pão saloio, copo e uma pequena garrafa de água, deslizaram pelo corrimão, sob a mão dela.
“Boa noite, linda.”
Alana estremeceu ao ouvir uma voz conhecida a soprar no seu ouvido. Com um movimento rápido, levou o cotovelo na direcção do seu, mais que indesejado, companheiro.
“Boa noite, só se for para ti.”
Ele desviou-se sem dificuldade, mergulhando o rosto no seu próprio tabuleiro e sorrindo de orelha a orelha. – “Tem calma, fofura.”
“Não me chames isso.”
Ele ergueu-se novamente em toda a sua glória. Quase dois metros de pura imposição corporal. Ele era capaz de ameaçar qualquer um, mesmo quando essa não era a sua intenção. Mas Alana não se deixava intimidar.
“Tu és tão stressada. Tens as veias a saltar-te da testa, querida.”
“Não te preocupes que não vão explodir e banhar-te em sangue, ok?”
“Uma pena …”
Ela grunhiu qualquer coisa enquanto tentou ignorá-lo e avançou um pouco mais com o seu tabuleiro.
“Carne, Peixe, Vegetariana ou Surpresa?” – A mulher de idade que a cumprimentou, por detrás do balcão, com uma cara carrancuda, segurava na mão uma enorme colher de pau e exultava uma aura de ‘não quero discussões aqui’, que impunha mais respeito que a estatura do homem ao seu lado.
“Vegetariana, por favor.”
“Para variar …” – O sarcasmo intencional do homem, não foi bem vindo.
“Escuta, Giorgio. Lá porque tu tens uma dieta selecta, não quer dizer que possas meter o bedelho no que eu como.”
“Mas vegetais e fruta … é triste!”
Ela quase lançou o cotovelo novamente no ar.
“Ignora-o, ignora-o.”
“Eu consigo ouvir-te, doçura.”
Ela estava prestes a rebentar, mas a servente fez o favor de interromper a tensão, pousando ruidosamente o prato no tabuleiro de Alana.
“Próximo!”
“AB positivo, por favor.”
Alana suspirou de alívio quando deixou a fila e prosseguiu para uma das poucas mesas ainda vazias. Aquele homem punha-a numa pilha de nervos.
Sentou-se e antes mesmo que tivesse oportunidade de começar a comer, já ele estava sentado à sua frente. Ela rugiu como uma leoa feroz.
“Vá, vá. Sabes muito bem quais são as regras.” – O sorriso constante dele, só serviu para a pôr ainda mais azul de raiva.
“Quem fez essas malditas regras devia arder no fogo do inferno.”
Ele soltou uma gargalhada e girou o temporizador na tampa da sua caneca de litro. – “Acho que já lá esteve durante muito tempo.”
O estômago de Alana deu umas voltas e fez um barulho como quem queria vomitar.
“Não sejas assim, fofa. Eu também não sou fã da tua comida, mas ao menos não me dá vómitos ver-te comer.”
“Eu como comida normal!”
“Normal para ti, queres tu dizer.”
Alana ignorou-o e levou uma garfada de salada exótica à boca.
Sentiu um arrepio na espinha e olhou de relance para o homem à sua frente. Ele lambeu os lábios de forma sedutora.
Eeeeeeeewwwwwwwwww!
“Que foi?”
“Tu acabaste de olhar para mim como se eu fosse um aperitivo.”
“Estava a pensar mais em prato principal, doçura.”
Nojento! Afasta-te de mim.”
Ele voltou a soltar uma gargalhada sonora e várias pessoas olharam na direcção dos dois. Alana abaixou o rosto e devorou, literalmente, a sua refeição.
Um suave ‘plim‘ soou do temporizador no tabuleiro da frente e ela viu-o lamber novamente os lábios enquanto retirava a tampa e levava o copo à boca.
Alana observou, como que hipnotizada, enquanto ele bebia avidamente o líquido vermelho, sem desperdiçar uma única gota. A maçã de adão dele subia e descia no seu pescoço, como uma relógio compassado.
Quando ele finalmente terminou, com um suspiro de satisfação, Alana reparou que quase se tinha esquecido de comer. Tentando esquecer a imagem dele a devorar o sangue, ela depenicou lentamente no seu prato, já sem grande fome.
“Tens que comer tudo senão ficas fraca. Não te queremos com anemia, pois não?”
Ela olhou-o incrédula.
“O que é que isso tem a ver contigo?”
Ele sorriu e interligou os dedos por baixo do queixo, olhando-a como um predador olha a sua presa.
“Querida, eu gosto mais quando o teu sangue flui bem pelas tuas veias. É mais fácil lutar a teu lado quando sei que não vais desmaiar a meio de uma missão.”
“És tão atencioso.” – Ela usou o tom mais sarcástico que conseguiu.
“Só contigo, querida.”
Ela revirou os olhos e continuou a comer, desta vez já com mais vontade.
Ele continuou a observá-la, incitando-a a comer mais. Ela tentou não pensar muito nisso e terminou o mais depressa que pôde. A companhia dele deixava-a nervosa, mas trabalho era trabalho.

Nota: Este texto faz parte do universo do meu novo projecto, temporariamente apelidado de PFA. E antes que perguntem … não, não é só sobre vampiros, muito longe disso aliás.