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No limiar da vida -excerto-

Aqui fica um excerto de uma das primeiras escritas que fiz para o meu projecto “No limiar da vida”. Está bastante mau (especialmente o diálogo telefónico), mas também fica já aqui a nota que este excerto nunca chegará à versão final do livro.

Só o estou a colocar aqui para eu própria e os outros se aperceberam um pouco de como a minha escrita mudou. Mais subtil do que drasticamente, mas ainda assim sofreu mutações.

Desfrutem!

« A noite estava gelada e Lara esfregou as mãos vigorosamente, numa tentativa de minimizar a sensação de frio. Ao respirar fortemente para as mãos, que por essa altura, já se encontravam com uma tonalidade roxa, uma mini-nuvem criou-se com a saída do ar pela sua boca, aquecendo levemente as pontas dos dedos, que rapidamente pegaram no auscultador do telefone na cabine pública onde se encontrava, discando os três dígitos.
Lara não teve de esperar mais do que uns meros segundos até ouvir a voz de um jovem rapaz do outro lado da linha. – “Ligou para o 112, qual é a sua emergência?”
Lara respirou profundamente antes de falar num tom bastante alarmado. – “Por favor mandem a polícia e ambulâncias para a Rua das Brumas , no N.º 27 de Arcos em Braga. Estão lá os quatro rapazes desaparecidos.” – Terminando com um suspiro pesado, pousou o auscultador no descanso, dando um fim ao contacto telefónico.
Enfiando as mãos nos bolsos do casaco preto que, naquele momento parecia feito de seda, de tão esfriado que era. Lara abandonou a cabine telefónica e caminhou rua abaixo num compasso apressado, deixando escapar um desabafo esperançoso. – “Espero que não entendam a chamada como uma partida de mau gosto.”
Ao percorrer as ruas, passou ao lado de um casal que conversava discreta e amorosamente. Ao vê-los de mãos dadas, o rosto de Lara mudou de expressão, sendo aparente que uma ideia tinha surgido na sua mente. Retirando a sua mão esquerda do acolhedor bolso, estendeu o braço ao seu lado, como que tomando uma outra mão na sua. – “Está mesmo muito frio esta noite.” – Sorrindo calorosamente, fitou um espaço vazio ao seu lado. – “Crianças como tu, deviam estar entre lençóis de flanela nas suas camas. Não concordas?” – Apenas depois de proferir estas palavras, Lara apercebeu-se de que alguém seguia atrás de si. A mulher, com os seus cinquenta anos e um rosto carregado de maquilhagem, demasiado vistosa, torceu o nariz na direcção dela. Deixando transparecer que pensava que Lara estava doida ou extremamente bêbada por andar na rua àquelas horas, e a falar sozinha.
Lara abrandou, observando enquanto a mulher passou por si com uma expressão de altivez e o nariz bem erguido no ar.
Quando a senhora já se encontrava a uma distância que não lhe permitisse ouvi-la, Lara deu uma gargalhada quase inaudível, mas sentida. – “Viste bem a cara dela? Digna de registo!” – A sua mão esquerda continuava suspensa no ar, como que, agarrando algo invisível. E assim permaneceu enquanto ela percorria aquelas ruas escuras e silenciosas.
O som do sino da igreja não se fez esperar e anunciou as duas badaladas noite adentro. O único pensamento da jovem Lara naquele instante foi que nunca conseguia dormir mais que cinco horas por noite e não o faria enquanto desempenhasse o papel de boa samaritana. Embora isso nunca lhe tivesse demovido da sua resolução. Para ela, a vida era demasiado curta para que se preocupasse tanto com o seu bem-estar mental. Sentia-se bem em saber que, as poucas horas que dormia, fazia-o de consciência limpa e de bem consigo mesma, sem quaisquer remorsos em relação ao rumo que a sua vida tomara. »

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