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Número 366

Certamente já ouviram falar, numa ou noutra ocasião, em Transtorno Dissociativo de Identidade, mais comummente tratado por Transtorno das Múltiplas Personalidades. A maior parte das pessoas sabe muito por alto o que isso é, e algumas conhecem detalhes mais técnicos, estatísticas e afins, mas poucos são os conhecedores férreos desta condição.
Esta condição, quando manifestada num indivíduo, pode dar lugar a entre 2 a 100 personalidades distintas, mas a média, segundo dizem, é 10. Ao que parece, casos comprovados desta condição são extremamente raros, o que torna estas estatísticas mais difíceis de creditar.
Mas claro que eu não estou aqui para vos encher de falas sobre isto, porque, bem, eu tento ignorar tudo isto, já que duvido que alguma vez tenha havido um caso como o meu. Ou se houve, esse alguém manteve-se muito caladinho para não dar nas vistas.
No meu caso, eu tenho exactamente 365 personalidades distintas. É isso mesmo! Uma para cada dia do ano, excluindo anos bissextos em que “eu” (sim, o “eu” que vos fala) de quatro em quatro anos, tenho oportunidade de sair para o corpo que habitei sozinho até aos meus treze anos de idade. Mas também não é isso que me incomoda, pois sinceramente, sair para o mundo não é coisa que me fascine, divirto-me bem mais a ver, da periferia, o que as minhas outras personalidades fazem com as 24 horas que lhes são atribuídas todos os anos.
Parece ridículo, não é? E acreditem que me custou imenso habituar à algazarra que vai aqui dentro todos os dias. No início de cada novo ano então é que é! Uma verdadeira festa, em que ninguém se cala e todos querem ser os primeiros a sair. Sim porque isto é tipo uma lotaria, eles andam aqui dentro num autêntico turbilhão, e chegadas as 24 horas, um deles é o sortudo (o que estiver mais perto da saída) que vai ficar nesse dia no meu corpo. Um corpinho que, de resto, está muito bem conservado, não graças às minhas personalidades viciadas (Há de tudo! Uns para drogas distintas, uns quantos alcoólicos, cafeína, tabaco, medicamentos, etc.), mas sim graças aos restantes, que felizmente sabem apanhar os cacos deixados pelos outros. Ou pelo menos alguns deles sim. Também não posso falar muito bem das personalidades que gostam mais de desporto que doutra coisa, é que o meu corpo não está totalmente habituado ao exercício e quando vem um daqueles que gosta de fazer sprints, ou pior, pugilismo, na manhã seguinte a personalidade que acorda tem umas dores no corpo que já nem consegue mexer-se, e depois queixam-se que não puderam aproveitar as suas 24 horas, por um qualquer louco antes deles deu cabo do transporte colectivo.
Uma festa, digo-vos!
Assim sendo, podem imaginar as histórias que tenho para contar, não é?
Pois fiquem atentos.


*Este é um texto de ficção. Toda e qualquer semelhança com  realidade é pura coincidência.

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