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Aparências

Com os olhos quase colados, Janelle esfregou os nós dos dedos na cara, para tentar desfazer-se da desconfortável remela que todas as noites lhe envolvia os olhos. Era uma coisa muito nojenta, conforme ela tinha aprendido depois de, no seu primeiro dia na academia, ter saído do quarto sem lavar a cara, e ter sido posteriormente gozada por todas as pessoas que encontrou a caminho do gabinete do director.
Já se tinha sentido suficientemente mal por ser nova na academia, e por ainda não estar habituada àquele corpo, mas ouvir as risadas dos outros enquanto caminhava pelos corredores, foi a maior humilhação de sempre. Não que ela tivesse muitos termos de comparação, mas sentira-se como uma formiguinha debaixo das gargalhadas de gozo, e nunca mais se queria sentir assim.
Infelizmente ainda não tinha feito amigos, e limitava-se a ficar sempre junto do Nanael, que era exactamente como lhe tinham contado, um anjo de pessoa, ou melhor dizendo, era mesmo um anjo EM pessoa.
Às vezes também passava tempo com o Marco, que era um metamorfo como ela, mas já quase a terminar o seu mandato, ou mesmo com os restantes metamorfos em serviço, mas eles pouco tempo tinham para ela, pois estavam sempre atarefados com os seus afazeres.
Janelle gostava da companhia deles, mas o problema era que a diferença de idades era um entrave e acabava sempre por se sentir como uma criança imatura, o que raramente acontecia quando estava com o Nanael.

Espreguiçou-se lentamente na cama, sem grande vontade de abandonar os lençóis de flanela que lhe aqueciam as pernas e a deixavam mole o suficiente para querer ficar o dia todo deitada no conforto do quarto.
Vestindo as primeiras peças de roupa que apareceram à sua frente, sem qualquer preocupação em combinar as cores ou perceber se as peças lhe assentavam bem (desde que não a apertassem, porque ela odiava sentir-se apertada), passou os dedos pelos cabelos lisos e quebradiços, antes de escovar os dentes.
Quando se preparava para sair do quarto, um receio familiar tomou-a de assalto e ela nem conseguiu agarrar convenientemente a maçaneta da porta, antes de a empurrar para baixo e entreabrir a porta. Meteu o nariz de fora e espreitou para o corredor. O barulho era estrondoso, como nas manhãs anteriores, e a comoção era assustadora. Todos os alunos se levantavam àquela hora para depois seguirem em direcção à cantina onde todos, mesmo os agentes mais condecorados, tomavam as suas refeições.
Janelle ficou à porta, esperando que a multidão dispersasse e ela pudesse então sair a correr, para não correr o risco de se cruzar com ninguém, mas o seu estômago não estava de acordo com esses estratagema já que começou a roncar baixinho, embaraçando-a ainda mais.
Ela voltou a enfiar-se dentro do quarto, com as bochechas rosadas e os joelhos moles. Respirou fundo antes de voltar a abrir a porta e, dessa vez, sair para o corredor concorrido. Ninguém lhe prestou muita atenção. Era apenas mais uma no meio de muitas!
Foi para a cantina e tomou o seu pequeno-almoço vitamínico, cheio de complementos e preparados especiais a que só os da sua espécie tinham acesso, pois eram os únicos que deles necessitavam. Estranhou não ver o Nanael, mas concluiu que ele já estaria na sala de aula e por isso despachou-se a comer tudo para depois poder ir para junto dele.
Queria lá chegar depressa, mas a multidão era tão densa que ela tinha dificuldade em avançar rapidamente, e em nada ajudava o facto de a sua coordenação motora não ser das melhores. Muitas vezes tropeçou nos próprios pés e só não caiu de cara porque a multidão acabava por a amparar, não sem muitos grunhidos e queixumes do restante corpo de aulas. De cada vez que embatia em alguém, Janelle baixava a cabeça, fazia uma pequena vénia, desfazendo-se em desculpas, até que os queixosos lhe viravam costas, muitos apenas depois de gozarem um pouco com o aspecto físico dela, algo que ela achava incompreensível.
De tão estranho que achava tal comportamento, decidiu questionar o Nanael sobre o assunto.
Quando chegou à sala de aulas, encontrou o professor junto da mesa de docente, preparando o computador portátil e o projector para a aula que só começaria dali a trinta minutos.
“Bom dia, Nanael!” – Janelle entrou sorridente pela sala, e ele logo ergueu o rosto para a cumprimentar da mesma forma carinhosa.
“Bom dia, minha querida. Passaste bem a noite?”
Ela respondeu-lhe com um aceno vivaz da cabeça, juntando as mãos nervosas na bainha da saia. – “Queria perguntar-lhe … -te uma coisa.” – Ainda não estava habituada a trata-lo por tu, como ele tinha insistido que fizesse desde o primeiro dia.
“Força!”
“Bem, é que toda a gente faz pouco do meu aspecto e eu gostava de saber se há alguma coisa de mal com a minha aparência. Se calhar estou a fazer alguma coisa de mal e nem me dou conta.”
O Nanael sorriu-lhe ainda mais enquanto ligava o computador. – “Diz-me, porque escolheste essa forma?”
Ela roçou o pé esquerdo na perna direita, nervosa. – “Lá em casa a televisão está sempre ligada e nós vemos de tudo, para nos mantermos actualizados.” – Ela fez uma pausa e ele fez um leve gesto com a cabeça, incentivando-a a prosseguir. – “Um dia estava a ver um filme e apareceu uma rapariga muito sorridente, que parecia irradiar felicidade e eu achei-a tão bonita que decidi ficar parecida com ela.”
O Nanael afagou-lhe o cabelo com um sorriso trapaceiro nos lábios. – “Era muito bonita mesmo.”
A Janelle mostrou um beicinho que fez com que ele desatasse a rir. – “Mas todos fazem pouco de mim!”
Ele parou de rir e abaixou-se para a poder encarar olhos nos olhos. – “Isso é porque nesta sociedade a beleza é estereotipada e tudo o que fuja à regra deixa de ser bonito aos olhos de quase toda a gente.”
“Então eu não sou bonita?” – Cabisbaixa, de olhos postos no chão e olhos semi-cerrados, ela lutou contra as lágrimas mordendo o lábio inferior enquanto este tremia. Escolhera aquela forma por a achar linda. Não fazia ideia que os outros não gostavam daquele modelo de pessoa.
O Nanael colocou as mãos debaixo dos braços dela e ergue-a no ar. Janelle soltou um gritinho estridente, sentindo-se muito pequena ao pé daquele gigante.
“Tu és linda! E nunca deixes que ninguém te diga o contrário. Está bem?”
A Janelle concordou com a cabeça, de rosto tão vermelho como a camisola do professor que a erguia bem alto nos seus braços.
Ele pousou-a no chão e ela quase perdeu o equilíbrio ao sentir novamente os pés a suportarem o peso do corpo. Afastou-se dele, dando-lhe espaço para terminar as preparações para a aula, e voltou-se para o espelho no fundo da sala.
O reflexo mostrava uma menina de dez anos, com o rosto quadrado, lábios finos, olhos azuis como a água, mãos pequenas e dedos cheios, num corpo mais recheado do que os que ela via a passear pelo corredor.
Na sua mente jovem não conseguia entender como podiam achá-la feia. As suas curvas eram bem mais bonitas de se ver que os ossos salientes dos restantes. A sua pele era macia e não se sentia mal a andar, conseguia respirar muito bem e fazia tudo o que os outros faziam. Porque então é que a desprezavam e chamavam de gorda?
Nanael surgiu atrás dela e o reflexo mostrou também o professor com pele da cor da terra, escura e com um cheiro muito característico do cacau puro.
Ele colocou as mãos nos ombros dela e beijou-lhe o cabelo antes de fitar os olhos dela reflectidos no espelho. – “Vês como és linda?”
“Sim, mas outros não pensam o mesmo, pois não?”
“Não interessa o que os outros pensam. O que importa é que tu te sintas bem e gostes do que vês. Tudo o resto é secundário.”
Aquelas palavras ficariam para sempre com ela, assim como o carinho patente em cada palavra do seu guardião.
“Obrigada.”
Ele sorriu uma vez mais, mostrando os seus belos dentes brancos, antes de se erguer e pedir-lhe que o ajudasse com o quadro. Ela seguiu-o, mas não sem antes dar uma última olhada ao reflexo e sorrir a si mesma, rodopiando com a saia voar à sua volta, como a bela menina que ela uma vez vira na televisão.

Este pequeno conto faz parte, como história alternativa, do projecto PFA (titulo provisório).

Um dia no Futuro

13_futuro1O cigarro acesso e ainda meio por consumir foi repousar no cinzeiro ao lado da cama. O fumo que saiu por entre os carnudos lábios da sedutora mulher despida, envolveu o quarto escuro. O homem que dormia a seu lado, com o seu corpo musculado e tez bronzeada, era o melhor amante que ela conhecera e os dois entendiam-se muito bem entre lençóis e fora deles.
O luxuoso quarto estava silencioso e não se ouvia uma sequer sirene no exterior do prédio. As estrelas e a Lua cheia reluziam mais do que nunca.
Um ecrã holográfico saltou à frente dos seus olhos, o seu verde contrastava em absoluto com o restante ambiente, exibindo em letras mecânicas a mensagem

Consulta mensal de saúde marcada para daqui a 1 hora

Ela pressionou o holograma no canto superior direito e o ecrã desapareceu por completo. Desviou os lençóis de cetim que acariciaram gentilmente a sua pele e saiu da cama sem grandes cerimónias, caminhando nua pelo extenso quarto.
Aproximou-se do pequeno ecrã que estava colocado na parede ao lado da porta de entrada e pressionou os números

754391275

O ecrã mudou para a cor laranja e exibiu a mensagem

Terminar sessão

A mulher desmaterializou-se.

Num minúsculo quarto, cujo único mobiliário era uma espécie de cadeira de consultório com uma infinidade de fios ligados à corrente e dez pequenos ecrãs em todos os lados, repousava uma mulher obesa.
Um dos ecrãs exibia uma mensagem em letras vermelhas

Sessão terminada

A mulher abriu os olhos relutante e levou as mãos inchadas até aos fios que estavam ligados à sua testa, retirando-os cuidadosamente, um a um, e colocando-os numa bacia metálica do seu lado esquerdo.
As luzes amarelas do compartimento ligaram-se automaticamente assim que ela retirou as pernas gordas do conforto da cadeira.
As suas pernas não resistiram e cederam perante o seu peso. Ela embateu no chão com um sonoro som e gemeu palavrões e frustrações umas a seguir às outras, como se isso a fosse ajudar a levantar-se.
Demorou alguns minutos a conseguir erguer-se. Os membros estavam adormecidos e o corpo não estava habituado a carregar tanto peso. Quando finalmente conseguiu mover-se correu o fecho do fato completo que usava e despiu-o com alguma dificuldade. O suor e restantes fluidos que lhe cobriam o corpo tinham colado o fato, já de si justo, ao seu corpo quase como um autocolante.
Começou a caminhar lentamente até à porta metálica que se encontrava do lado esquerdo do quarto. A porta deslizou para lhe dar passagem. Do outro lado encontrava-se um cubículo onde não cabia mais de uma pessoa, com as paredes brancas cobertas de pequenos orifícios. O tecto era em metal e quando ela entrou lá dentro a porta voltou a fechar-se, exibindo um pequeno ecrã, na parte de trás da porta, com várias escolhas

Duche rápido
Massagem corporal
Sauna
Deluxe

Ela pressionou a opção de duche rápido.
Jactos de água de cheiro voaram pelas centenas de orifícios da parede e o tecto abriu-se para deixar descer duas pequenas mãos metálicas, uma com uma esponja de massagens e outra com orifícios nas extremidades. As duas juntaram-se e do primeiro orifício saiu um espesso líquido de cor rosa para cima da esponja da outra mão que rapidamente iniciou a sua árdua tarefa de esfregar todos os cantos do corpo da mulher. Ela limitou-se a abrir ligeiramente os braços e pernas, deixando que os mecanismos fizessem o seu trabalho.
Cerca de quinze minutos depois, com o cabelo já hidratado e o corpo seco, todos os aparelhos recolheram às suas estações e o ecrã brilhou de vermelho

Duche terminado

A porta voltou a abrir-se e ela deu passadas lentas pelo chão frio, atravessando o quarto adjacente e indo de encontro à outra porta que também se abriu à sua passagem.
Estava dentro de um outro cubículo mas este estava revestido com espelhos e apenas continha uma ranhura que atravessava uma das paredes de um lado ao outro e um pequeno ecrã, colocado por cima da ranhura, com um simples menu

Homem
Senhora

Seleccionou senhora o que deu lugar a outro menu

Casual
Desportivo
Formal

Ela foi seleccionado menu atrás de menu e as escolhas aumentavam a cada pressionar dos seus dedos desajeitados. Finalmente surgiram no ecrã múltiplas fotos de vestidos floridos, a escolha que ela tinha feito anteriormente. Ela pressionou o terceiro da primeira fila, um curto vestido primaveril, branco com flores de todas as cores. Nos espelho o seu reflexo mudou e ela pôde ver, de todos os ângulos possíveis e imaginários, como ficaria naquela roupa. O seu corpo continuava despido mas a imagem holográfica era perfeita e ela decidiu que aquele vestido lhe assentava muito bem. Pressionou

Comprar

A ranhura na parede abriu-se para deixar passar o vestido que ela acabara de adquirir. Ela vestiu-o rapidamente e depois voltou ao ecrã para pressionar a seguinte cadeia de escolhas

Mudança de parâmetros > Transporte > Local: Consultório Médico “Beleza Eterna” > Aprovar desintegração

Assim que terminou esta sequência o chão começou a brilhar um intenso azul e o corpo dela começou a desmaterializar-se.

Quando voltou a abrir os olhos encontrava-se em frente a um balcão, numa pequena sala de paredes lilás. A menina atrás do balcão cumprimentou-a com um largo sorriso pedindo gentilmente para que colocasse a palma da mão no ecrã no topo do balcão. Ela fê-lo e foi imediatamente identificada pelo computador

Lurdes Andreia Casanova Arantes

Foi avisada que o médico estava à sua espera e que podia entrar no consultório número 1546. À sua esquerda estava um longo corredor, percorrido por duas passadeiras rolantes, cada uma seguindo em direcções opostas. Ela pisou o passadiço que seguia em frente.
Demorou cerca de 10 minutos a alcançar a porta que lhe fora nomeada. O médico que a recebeu não era seu conhecido, mas ela não estranhou. O homem, na casa dos quarenta, explicou-lhe que tinha engordado 22 kg desde a sua última consulta e sugeriu-lhe os procedimentos habituais. Check-up geral e intervenções cirúrgicas para remover o excesso de gordura e repô-la à sua beleza de sempre.
Foi tudo feito ali, com a ajuda das enfermeiras e cirurgiões robóticos que ela sempre reconhecera e que não falhavam nunca.
Quando terminou, horas depois, era a bela mulher que fumara, horas antes, um cigarro virtual num quarto virtual, acompanhada pela imagem virtual do seu marido. E sentia-se a pessoa mais feliz do mundo, sorrindo a todos que passavam por si no caminho de volta àquele quarto minúsculo e àquela fria cadeira impessoal.
O ciclo repetir-se-ia dentro de 30 dias.

Texto inspirado pelo desafio “Um dia no Futuro” da Fábrica de Histórias.

Bucha e Estica

02_bucha-e-esticaAo colocar as compras no tapete da caixa do hipermercado, deu-se conta que, mais uma vez, tinha adquirido mais chocolates do que o que devia, mas isso não a fez arrepender-se.
Podia não ser viciada em tabaco, álcool ou drogas, mas tinha de admitir que o chocolate era o seu único vício.
A menina que se encontrava na caixa era sua conhecida. Uma rapariga franzina, com o cabelo liso e um pouco alourado. Sorriu-lhe e cumprimentou-a, antes de começar a passar as compras em frente ao leitor de códigos de barra.
– “Outra vez?”
A pergunta surpreendeu-a e ela olhou intensamente para a menina da caixa, com uma expressão interrogativa.
– “Levas outra vez mais bolinhas!”
Por bolinhas ela referia-se as ‘Pintarolas’, algo que, por acaso, ela nem comprava já há bastante tempo. – “Estás enganada. Eu não costumo levar estes. ”
– “Se não são esses são outras bolinhas de chocolate.” – “Olha que assim engordas muito. ”
Sorriu. Afinal que fazer quando mais uma vez a criticavam, directa ou indirectamente por ser obesa?
– “Queres um bocado?” – Perguntou sem qualquer intento sarcástico.
– “Não obrigada! Não quero engordar mais. As minhas calças já não me servem!”
Olhou-a com atenção. Onde estava essa dita gordura? A rapariga parecia quase uma anoréctica.
Decidiu não dar mais conversa para aquele tema. Pagou a conta e foi-se embora.
Mais tarde, naquele mesmo dia, viu a menina da caixa com umas calças de cetim preto que lhe caiam, literalmente, pelas pernas abaixo de tão largas que eram. E pensou uma vez mais: «Onde está essa dita gordura?»