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Moldagem

17_moldagemTu pensas que sou uma boneca de barro, não … um pedaço de barro bruto que tu podes, deves e tens o poder de moldar a teu belo prazer, da forma que mais te convém, com as arestas limadas a teu jeito e com o recheio que escolhes de uma montra selecta que tens dentro de ti. Queres retirar-me todos os excessos e pintar-me das cores que mais te satisfazem para que assim possa ser perfeita.

Pelo menos até que te canses e voltes amassar-me mais um pouco, entre os teus dedos calejados e gordurosos que mais não fazem do que enojar-me e dar-me as voltas. Fico com marcas dos teus dedos em todo o meu corpo, sinto a tua pele de encontro a mim e sinto asco. Quero fugir, quero gritar, quero voltar a ser como era no início, antes de tu teres acesso à minha fábrica, à minha roda de oleira e teres começado a girá-la e a contornar-me, pondo-me zonza, dando-me vómitos.
Se tento sair um pouco dos teus parâmetros, acabo castigada. Se sequer penso em soltar-me das amarras que colocaste a prender-me, tu trazes mais um cadeado. Por mais que tente não tenho forças para sair desta prisão, deste caixão enterrado em cimento que tu mesmo derramaste.
Odeio-te!
Dizes que se te amasse, faria o que tu me pedes, mas tu, que dizes sentir tanto por mim, és incapaz de me respeitar e de ouvir um pedido que seja meu.
Estrangulas-me com as tuas regras, os teus ciúmes despropositados, as tuas paranóias constantes. Sufocas-me com o teu amor desmedido e as tuas dúvidas, sempre à tona da água, sempre presentes, sempre cruéis.
Odeio-te!
Quero que desapareças para sempre! Que me deixes respirar, que me permitas mover com as minhas próprias pernas, que me possibilites a experiência de ser livre e de viver!
Quero viver, mesmo que isso signifique que um de nós terá de morrer…


Como nas últimas semanas tenho falhado bastante com os “Contos de sexta-feira”, esta semana trago dois. Espero que gostem!
P.S.: A boneca de barro ali na foto fui eu que fiz. Claro que está mais linda de frente, mas achei que esta foto representava melhor esta história.

Dois amores

08_dequemgostomaisEspecial Dia de S. Valentim (Dia dos Namorados)
Rodou a torneira da água quente, com a mão esquerda, e cortou a circulação da água para a banca. Sacudiu as mãos e alcançou o pano da louça que estava pendurado na porta do armário à sua direita, para limpar as mãos levemente. Levou as mãos às suas costas e desfez o nó que prendia o avental florido, pendurando-o de seguida num pequeno prego colocado atrás da porta da cozinha. Apagou a luz do compartimento e atravessou o corredor até chegar à sala de estar.
Ele estava sentado no sofá, ou melhor, quase deitado, tal era a sua posição desleixada em frente ao televisor. O comando que segurava com as duas mãos, sofria com o constante impacto dos seus dedos hábeis, já tão acostumado às formas ergonómicas do acessório.
Ela suspirou e aproximou-se lentamente. O ecrã brilhava com as cores vivas dos gráficos do jogo que ele tinha adquirido nessa mesma tarde, quando tinham ido ao centro comercial, supostamente para passarem a tarde juntos, comemorando o “Dia de S. Valentim”. No entanto, esse passeio romântico, e tão pouco usual, rapidamente tinha chegado ao fim. Maldita hora em que tinha dado a sugestão de fazer o jantar em casa dele! A refeição tinha corrido muito bem, à luz das velas, com um menu caprichado e feito com muita dedicação. Tinha sido, no entanto, um suplício fazê-lo ir para a mesa. Enquanto ela tinha estado enfiada na cozinha a preparar tudo, ele tinha aproveitado para iniciar a jornada no novo jogo, o que resultou nuns quinze minutos a tentar convencê-lo a sentar-se à mesa para comer. E agora, que ela tinha ido lavar a louça, ele tinha voltado ao lugar que tanto adorava: O sofá em frente à consola e à televisão.
“Jorge, vamos ver o filme que alugamos?” – Sentou-se no braço do sofá branco, de pele, inclinando-se levemente na direcção do homem que continuava de olhos fixos no ecrã.
“Agora não! Estou ocupado!” – A voz dele mudava sempre que estava com a cabeça nos jogos. Como se ficasse possuído, como se fosse engolido e não tivesse pretensões de lutar para se libertar.
“Mas nós escolhemos o filme juntos e, de qualquer das formas, temos de o devolver amanhã por isso temos de o ver hoje.”
Ele nem se dignou a responder-lhe, o que pareceu irritá-la.
“Jorge? Vá lá!”
“Já disse que não! Deixa-me em paz!” – Mais uma vez ele não desviou a atenção para ela.
Ela levantou-se, furiosa e começou a caminhar pela sala, passando propositadamente em frente ao televisor, impedindo assim a visão, mesmo que momentaneamente, do namorado.
“Hey! Pára lá com isso!”
Ela parou e, arqueando os ombros, olhou-o com completo desdém, como que intimidando-o. – “Mas afinal tu gostas mais de mim ou do porcaria do jogo?
Ele ficou um pouco zangado, mas depois de uma pequena pausa, respondeu com a maior sinceridade do mundo. – “Gosto dos dois!”
Ela ficou abismada, de boca aberta, a olhar para o homem a quem dedicara o seu amor nos últimos dois anos. – “Como assim? Isso não faz sentido nenhum!”
“Mas eu amo-te a ti e amo os meus jogos. Se me perguntas de quem gosto, essa é a resposta eu te posso dar.”
Ela não podia crer no que estava a ouvir. – “Mas ouve lá! Por acaso os jogos fazem-te o jantar, beijam-te ou fazem amor contigo?”
Ele respondeu-lhe muito sério, como se fosse a coisa mais natural do mundo. – “Claro que não! E é por isso mesmo que eu também te amo a ti!”
O som que o corpo dela criou ao embater no chão, ficará para sempre na sua memória como o som de um coração despedaçado, sem piedade.

Dá para perceber que não tenho namorado neste momento, não dá? XD
Agora a sério, eu tive esta ideia depois de observar, durante anos, o comportamento de alguém que me é muito próximo. Foi uma coisa do momento. Não me levem a mal e espero que nunca ninguém tenha passado por uma situação semelhante.

Tu…

03_tuAcordo com um sorriso. Abro os olhos para te ver ao meu lado, dormindo calmamente, por vezes soltando pequenas risadas, que suponho serem causadas por um qualquer bom sonho que estejas a ter.
Acaricio o teu rebelde cabelo castanho e o teu rosto, tão sedoso como a pele de um bebé.
Sei que tenho de acordar-te, mas não quero interromper o sono que te embala.
Baixo o rosto de encontro ao teu, para te plantar um pequeno beijo na face direita. Contorces-te sonolenta, mas não pareces despertar. Esse teu pequeno gesto faz o meu sorriso tornar-se ainda maior.

Sou um cobarde, pois da minha boca nunca irás ouvir a mais pura verdade. Nunca te direi quantas vezes fico a ver-te dormir, quantas vezes fico parado no corredor enquanto tomas banho, só para ouvir a tua voz desafinada a cantar uma qualquer musica estrangeira que adoras, mas cuja letra não decoras com precisão. Se ao menos soubesses quantas vezes te quero abraçar no meio da rua, em frente a multidões, para lhes mostrar o quanto te amo. O quanto me fazes feliz.
Sem ti a minha vida não faria qualquer sentido!
Às vezes sinto-me sufocar. Penso que se um dia nos separarmos não saberei mais como viver, como pensar, como agir.
Tu és assim, uma parte vital de mim.
Tu és tudo o que eu preciso.
Tu…