Caneta, Papel e Lápis

Um blog sobre escrita criativa, de Ana C. Nunes (A blog about writing fiction, by Ana C. Nunes)

Tropeçar nas inconsistências e cair em buracos narrativos

7 comentários

Escrita Criativa, uma rubrica de Ana C. Nunes

Gabriel, protagonista do meu romance

Recentemente alguém me perguntou: “Não tens medo de publicar o teu livro? E se as pessoas não gostarem?” e confesso que esta pergunta foi o que me impediu de fazer isto antes. O medo é um factor muito persuasor. Sussurra-nos ao ouvido e é tão convincente que consegue fazer-nos desacreditar naquilo em que cremos com veemência. Um inimigo fugaz e eficaz.
A minha resposta, contudo, foi bastante mais assertiva que a minha resolução: “É um risco que todos os autores correm. Se publico é porque acredito que o que escrevi tem valor, mas se o publico achar que não, em breve sabê-lo-ei, e se o resultado for tão mau que me apeteça enfiar-me num buraco, então mudo de pseudónimo e começo do zero, como uma desconhecida”.
Se é verdade, espero nunca o descobrir (espero que as pessoas gostem do que escrevi) mas se tal acontecer, então ao menos não poderei dizer que não tentei. Como já disse anteriormente, se não achasse que o que escrevi é bom, não o publicaria. alguns dos meus trabalhos são lixo e por vezes até os mostro (gratuitamente), mas não porque acho que seja bom, e sim porque acho que até com os erros aprendemos. E quando assim é, digo-o de caras. Mas também sei que como autora nunca sou imparcial em relação às minhas obras, por isso é um risco. Sempre.

Nas últimas semanas oscilei entre a alegria, a tristeza, a euforia e a depressão, como não podia deixar de ser. Mas isso não é novidade nenhuma.

Tinha enviado o meu romance para dois copy-editors (versão PT) e tenho outros dois para a versão EN (que estou a enviar à medida que escrevo) e já recebi algum feedback.
O mais engraçado é que o que agrada a umas pessoas, desagrada a outras, no entanto aquelas coisas que mais que duas pessoas apontam, têm mesmo de ser corrigidas (se duas pessoas reparam, é porque muitas pessoas vão notar depois). Então ficam agora algumas das minhas gafes (umas de mais fácil resolução que outras).

Plot-Holes (buracos onde enfiamos os pés só damos conta quando alguém o aponta ou precisamos mesmo da perna):
– Buraco 1: Tinha uma inconsistência nas horas. Uma cena acontecia logo a seguir a outra e não podia, pois certas coisas tinham de ocorrer entre ambas cenas. Resolução: alterar as horas e explicar o porquê do espaço temporal entre cenas.
– Buraco 2: Esqueci-me de mencionar a morte de um personagem. Não leram mal! Esta personagem só é mencionado uma vez, mas a sua morte tem repercussões na história, e eu aparentemente esqueci-me de incluir a cena em que a morte é anunciada. Grave! Resolução: Inserir a morte. Simples e rápido.
– Buraco 3: O Google maps tramou-me! Durante o meu romance as personagens fazem uma grande viagem, desde a Ucrânia à Espanha, com várias paragens pelo meio. Eu, fiz cálculos (sem googlemaps) para descobrir quanto tempo demorariam, mais ou menos, de um lado para o outro, mas pelos vistos fiz-las mal (segundo o googlemaps). Resolução: Recalcular as datas e modificar no romance (e descansem que não me vou fiar só no googlemaps), nada de muito grave … espero.
Buraco 4: Este é para maiores de 18 (a sério!) mas só para ser má não vos dou detalhes (sei lá se não tenho crianças a ler isto) mas basta dizer que eu li algures uma coisa cuja veracidade duvidosa (há quem diga que é possível e muita gente que diz que não). E depois de me terem apontado tal … dúvida, veio a Resolução: Tirar a dita informação (para maiores de 18) e fazer o meu protagonista sofrer um bocadinho. Coitado!

Tropeções (quando temos uma rocha no caminho e em vez de a contornarmos, caímos):
– Queda 1: O Davet (personagem secundária) tanto tinha olhos pretos (como deviam de ser) como os tinha cor-de-mel. E não me perguntem porque lhe trocava as cores, é que eu nem tenho desenhos das personagens, nem nada. *revira os olhos*. Resolução: Pôr-lhe os olhos azuis … não!, corrigi onde estava mal.🙂
– Queda 2: Conveniências a mais, ou seja, quando eu faço pesquisa e sei que as coisas podem existir em determinado cenário (sim que eu de vez em quando faço os TPCs) mas ainda assim, ao leitor, parecem coincidências a mais. Resolução: Retirar algumas ‘conveniências’ e servir pombos em vez de perdizes (isto é verídico).
– Queda 3: Vampiros que têm visão nocturna a carregarem tochas. E acreditem, eles não estavam a levá-las, mas nas últimas revisões, por alguma razão, meti lá as tochas e nem me dei conta da estupidez que era. Resolução: Mandar as tochas às urtigas!

O mais impressionante é que, depois de inúmeras revisões (já ando neste projecto desde 2008) ainda encontro estes entraves. E ter outros olhos na história ajudam sempre. Os anteriores beta-readers ajudaram-me muito e agora os copy-editors  continuam a ajudar. Espero sinceramente não encontrar mais nada e, também sei que às vezes sou eu que penso de mais (alguns deste problemas fui eu que os encontrei) e se calhar algumas coisas (que nem mencionei aqui) poucas pessoas veriam, mas eu quero o melhor livro possível e, confesso, desanimei um pouco este fim-de-semana, mesmo depois de alguém me ter dito que  gostou do livro.
Não me fui abaixo, mas vacilei. Felizmente já passou e é continuar a trabalhar porque ainda tenho muito que fazer.

E porque quero terminar numa boa nota, a Marcelina Gama Leandro (uma das minhas copy-editors, amiga e escritora talentosa), pôs no blog uma classificação ao meu livro (junto com outros que leu) e publicou uma capa (que eu enviei) mas que, aviso já, não é final, mas podem dizer o que acham.🙂 Vejam AQUI o post.

E conforme prometido, aqui fica mais uma ilustração tradicional. desta vez é o Gabriel, o outro protagonista:

Gabriel, protagonista do romance de Ana C. Nunes

Gabriel

Que vos parece?

E porque não quero ser assim, tão mázinha, fica a capa que a Marcelina mostrou no blog (mas visitem-no na mesma):

Autor: Ana C. Nunes

I love to write, read and draw. I write novels, draw characters and, sometimes, graphic novels or comics.

7 thoughts on “Tropeçar nas inconsistências e cair em buracos narrativos

  1. Gosto muito das ilustrações e o teu novo estilo da colorização digital está muito fixe.
    A ilustração com o Gabriel está poderosa. Não posso deixar de referir as mãos, principalmente a direita. Talvez com a palma para cima ficaria melhor.

    Muito engraçada esta partilha dos tropeções🙂

  2. Ah minha nossa: ando a rever um romance que escrevi na adolescência, a fim de fazer uma edição privadíssima, apenas para mais tarde recordar. Tenho personagens que mudam de nome! De grau de parentesco com outras! Ui… isto só para dizer algumas coisas…

  3. Obrigada Rui, na versão digital (na qual estou a trabalhar aos poucos), tive que mudar ligeiramente a mão direita porque me pareceu grande de mais em relação À outra.

  4. Olinda, bem sei ao que te referes. Então no primeiro draft encontramos cada lacuna que até parece mentira.
    Depois quero saber detalhes dessa edição privada.😀

  5. LOL imagina um romance de fantástico sem fantástico…

  6. Hahaha! Tens que me ensinar como se faz isso.🙂

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