Caneta, Papel e Lápis

Um blog sobre escrita criativa, de Ana C. Nunes (A blog about writing fiction, by Ana C. Nunes)

Fez-se luz * A light went on

5 comentários

Semanário 168

Em algum momento nos últimos dias ouvi ou li algo do género: «Há um momento em que a história faz clique» e embora isto me aconteça constantemente (com todas as histórias) só quando esse »clique» regressa me lembro que estava à espera dele.

No domingo que passou (2012-07-08) a queridíssima ACSilva (‘promotora’ do NaNoWriMo no Porto) decidiu dar um pequeno workshop de escrita para uma pequena plateia muito atenta (o pessoal do NaNoWriMo porto). Ávida leitora e talentosa escritora, a ACSilva focou a sua ‘aula’ na estrutura da história (ficção), no caso em 4 actos e 7 cenas-fulcrais (tipo StoryWonk).
Depois de nos falar por alto de estruturas narrativas e nos dar vários exemplos, a ACSilva desafiou-nos a definir a estrutura de uma das nossas histórias de acordo com esse esquema (4 actos, 7 cenas-fulcrais), ou melhor, a redescobrir uma das nossas histórias dessa forma, quer uma que já tivéssemos escrito ou uma que estivéssemos a planear escrever.
Como nunca fui uma pessoa tão organizadora que chegasse a fazer estruturas (que não as na minha cabeça), vi-me inicialmente um pouco às aranhas.
Escolhi o “Angel Gabriel” para exemplo e lá fui escrevendo as cenas e os actos (não vou colocar aqui pois contém pormenores sobre o final), a custo. À medida que o fazia alguns dos erros que eu já havia percepcionado antes tornaram-se ainda mais notórios. Particularmente no que diz respeito ao início da trama.
Terminada a tarefa passei o ‘plano de combate’ à ‘professora’. O que ela me disse fez todo o sentido e, adivinhem, foi nesse momento que se fez um «clique».

Angel Gabriel” para mim já estava escrito e mais que escrito. E foi por essa razão que o comecei a enviar a editoras há quase dois anos. Na altura que terminei de o rever, senti que era um bom livro, o melhor que sabia fazer naquele momento, mas também sabia que tinha lacunas. No entanto, como sempre disse, há um momento em que temos de parar de mexer na história, um momento quem que temos de decidir que «Chega!».
Há uns meses atrás, como aqui referi, as dúvidas regressaram. Talvez por culpa das rejeições editoriais, ou talvez porque o “Angel Gabriel” é o meu primeiro ‘bebé’ e eu desejo-o perfeito (apesar de saber que tal é impossível, pois não creio na perfeição). Mas neste fim-de-semana fez-se um pouco mais de luz. Eu já tinha conhecimento de quais as falhas do livro, só não tinha ainda percebido totalmente como solucioná-las. Mas graças à conversa com a ACSilva penso ter chegado a um entendimento comigo mesma em relação a isto.
Vou alterar o início de “Angel Gabriel” (3 ou 4 capítulos), trocar algumas cenas de lugar e introduzir uma ou duas cenas novas no meio. Desta forma acredito que o início será mais forte e também as personagens, incluindo os vilões.
Se calhar não devia fazê-lo. Devia deixar estar quieto o que já está terminado, mas vou tentar isto uma última vez e então sim digo »Chega!».
Por isso, ACSilva obrigada por me ajudares a desatar alguns nós narrativos.

Aparte disto, a revisão de “Dragões e seus Sacrifícios” decorre a passo moderado (demasiado, talvez) e sem grandes revelações. No início da trama notei que usava muito do «contar» e pouco do «mostrar», mas à medida que a história foi avançando a minha escrita ajustou-se um pouco e já não cometi esse erro. “Show, don’t tell”!

E vocês, caros leitores, preferem uma história que vos é contada ou mostrada por palavras? Ou seja, preferem que vos diga «ela ficou zangada» ou ela fechou os punhos, cerrou os dentes e virou o rosto, incapaz de o encarar»?

 

*English version will be available in a few days. Sorry for the inconveninece.*

Autor: Ana C. Nunes

I love to write, read and draw. I write novels, draw characters and, sometimes, graphic novels or comics.

5 thoughts on “Fez-se luz * A light went on

  1. Ainda bem que a sessão com a ACSilva foi produtiva.
    Se for possível melhorar, se for algo que o romance merece que veja modificado, então penso que se deve fazer isso. Mas dizer “Chega!” também tem o seu grau de importância. Parece-me que na escrita é complicado decidir esse momento. Nunca escrevi um romance por isso não posso falar muito.
    Na ilustração, e não preciso de dizer a ti, é muito mais fácil decidir quando “Chega”, porque se queremos modificar uma parte não podemos, particularmente se foi a tinta, simplesmente não dá para “redesenhar”!

    Este é o ano deles. Os Dragões estão a chamar, estão com fome. Querem ser alimentados, mais a cria para submeter ao concurso😉

    O Show, principalmente como no teu exemplo, é muito melhor. Eu gosto mais de ler assim e até posso gostar mais de um autor que outro conforme o uso do Show.
    Mas fazendo um pouco de “advogado de diabo”, o Tell também tem direito a aparecer. Há aqueles momentos que queremos levar o leitor mais rapidamente para as cenas seguintes, ou mesmo para ser sucinto a apresentar a informação: “leitor, é isto e assado, nao preciso de andar a descrever muito, ficas com a ideia”.
    Será?

  2. Rui,
    Tu também deves ter tirado algo de positivo do ‘workshop’ com a Claudia.🙂
    E claro que concordo. Nem sempre podemos usar o “show”, há momentos em que o “tell” é a melhor opção. Mas infelizmente há muitos livros quem i/a autor/a só faz “tell” e isso torna os livros monótonos, a meu ver.

  3. Também acho, o tell nao dá personalidade.

    Foi útil a lição da Cláudia, já estou a pôr em prática no conto de dragões e está a ajudar-me bastante a orientar as ideias.
    “Após este ponto devo pensar neste e não me posso esquecer do seguinte, mas, ah, seria demasiado cedo, preciso de uma cena antes e com mais presença”, etc
    xD

  4. Essa questão é muito interessante e devo dizer que é uma daquelas que me tem atormentado há algum tempo.
    Quando comecei a ter aulas de argumento (eu costumava estar num curso de cinema) o meu professor, que era muito bom mas igualmente exigente, acreditava numa estrutura narrativa muito definida e era todo ele a favor do “SHOW DON’T TELL”. Isso obrigava-nos a apagar várias falas e diálogos que, para nós, faziam todo o sentido dramático e cénico, mas que para ele eram apenas excessos melodramáticos,cujo objectivo podia ser atingido de uma forma muito mais subtil e intensa.
    Dito isto, acho que quando se trata de BD, provavelmente o show será sempre melhor que o tell, porque através do desenho podemos mostrar gestos e expressões sem palavras a acompanhar. Mas quando se trata de escrita…acho que certos debates interiores de uma personagens, conflitos e pensamentos, serão sempre um tipo de “tell” – mas se forem bem trabalhados, tornam-se em textos algo poéticos e introspectivos. Depende muito da forma como se escreve. Quanto a acções específicas das personagens, acho que o show é sempre melhor (como o teu exemplo acima). Isto porque demonstra um conhecimento psicológico mais profundo da personagem em quem te baseias e tornas o leitor cúmplice dessa relação.
    Devo acrescentar que fiquei com curiosidade sobre essa tua história agora…! Se alguma vez chegares a publicar, please do tell😛

  5. Verdadeiramente há muito quem use os diálogos como “info-dumps”. Como pôr personagens a relatarem/explicarem coisas umas às outras que ambas já sabem e que claramente só lá estão para contar ao leitor essa informação e isso é mau quando usado com frequência ou quando torna o diálogo longo e monótono.
    Com certeza que na BD o show é melhor que o tell, mas não necessariamente na escrita de guiões. O autor tem que ser muito descritivo para que o artista consiga compreender o que ele quer. claro que depois em termos de balões, na BD isso não pode acontecer. Os balões não devem dizer algo que os desenhos podem facilmente transmitir.
    E muito obrigada pela visita e pelo encorajamento, Billie. Volta sempre que vou disponibilizando novidades sempre que as haja.🙂

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