Caneta, Papel e Lápis

Um blog sobre escrita criativa, de Ana C. Nunes (A blog about writing fiction, by Ana C. Nunes)

Mudanças Centrais (Semanário 124)

5 comentários

Pensando em participar em alguns concursos de contos, estive na semana passada a trabalhar nas revisões de alguns, que não tenho publicados no blog e que, por um ou outra razão, acabaram por não ficar nos locais (leia-se revistas/antologias) que primeiramente lhes tinham sido atribuídos.
A primeira coisa que reparei, quando estava a rever o “O Sangue das Rosas” (um conto que escrevi no ano passado) foi que o conto estava amador. Sinceramente, não sei como achei que aquilo já estava terminado. A base boa está lá, mas o conto está tão rústico, tão mal temperado, que até me arrepiei. Acho que é a primeira vez que releio um conto meu e acho que devia estar sob a influência de alguma coisa quando decidi que aquilo estava bem como o deixei.
Rabisquei uma versão impressa, com muitos e muitos apontamentos, mas ainda não tive oportunidade de o rever no computador e deixá-lo pronto a ser ‘lançado’ ao mundo. Espero em breve terminar isto e ficar satisfeita com o resultado.

Em contrapartida, fui reler o “A Última Ceia” (outro conto terminado em 2010) )e achei que este estava praticamente perfeito (digo isto com toda a humildade). Só tive de corrigir uma ou duas gafes que me escaparam nas outras revisões e mais nada. Acho que está mesmo o que eu pretendia, o que é estranho, tendo em conta que me lembro bem de não ter ficado totalmente satisfeita com o resultado quando o terminei no ano passado. Mas agora, depois de vários meses sem o ler, posso dizer que, segundo os meus parâmetros, está muito bom.

Ambos contos são de horror, o que não deixa de ser curioso, já que antes destes não me lembro de ter escrito nenhum que pudesse ser considerado dentro do género. Já fui muito fã de filmes de horror, mas agora gosto mais do factor ‘susto’ do que da violência excessiva e factor ‘choque/repulsa’ que se vê em muitos filmes de horror nos dias que correm. Estranhamente poucos foram os livros/contos de horror que realmente me marcaram, talvez porque ainda não li as obras certas, ou porque penso que para mim o horror é mais um factor visual/sonoro do que propriamente literário. O que não quer dizer que não existam excelentes exemplos literários de horror. Como em tudo, o quem é bom, é mesmo bom.

Esta minha experiência no género (horro/terror) foi curiosa. Não posso dizer se o fiz bem ou mal, pois sou apenas a escritora, mas logo o saberei, já que vão ambos ser lançados ao ‘mar’, depois de uns ajustes, para ver se alguém morde a isca. Aliás, estando o “A Última Ceia” já pronto, devo submetê-lo em breve a alguns pontos de interesse.

Também durante a semana passada estive a redescobrir as minhas personagens. Mais propriamente as do projecto “Vermelho Sangue“. Como já aqui mencionei antes, estou a ponderar que história vou escrever durante o NaNoWriMo deste ano e o “Vermelho Sangue” é uma das opções que está em cima da mesa. Dessa forma tenho, nos últimos tempos, feito algum brain-storming para tentar decidir como colmatar as várias lacunas que ainda encontro na história, mesmo depois de anos a amadurecer a ideia (este é, para quem não sabe, um dos meus projectos mais antigos, em fila de espera talvez desde antes de 2003; pois também eu tenho o meu pet-project, como tantos escritores pelo mundo fora; ou seja, aquele projecto que imaginamos desde sempre, mas que só passado muito tempo nos achamos com capacidade para lhe dar a visão que merece).
Já há algum tempo que tinha pegado num caderno só para apontar coisas relativas a este projecto. Embora este caderno ainda esteja muito vazio (pois a maioria do que penso e arquitecto fica somente armazenada nos arquivos da massa cinzenta) a verdade é que com esta estratégia já atei várias pontas soltas que ao longo dos anos não tinha conseguido coser no enredo. Tais como, o porquê de eu ter decidido que as minhas personagens tinham quase todas cores de cabelos diferentes, numa palete que engloba as cores do arco-íris, ou quais as verdadeiras motivações do meu vilão (para além de ser maléfico e outras coisas que não posso revelar), ou como é que a minha protagonista tinha meios de andar a persegui-lo e obtinha as informações que precisava. E por aí fora … As coisas nas quais muitas vezes só pensamos quando já estamos a escrever a história e nos damos conta que (maldição!), devíamos ter pensado nisso antes.
Isto também me ajudou a detectar certos padrões repetitivos que eu nunca havia notado antes. Só para mencionar um. Eu tinha três personagens orfãs de ambos pais e quatro orfãs de mãe. Que raio! Como é que nunca me dei conta de uma barbaridade destas? É tipo … drama! (a mais) Por isso mudei a situação de algumas personagens, embora a ‘orfanidade’ de muitas delas não possa ser mulada por razões inerentes à própria trama, mas ao menos dei um novo alento à condição de cada um, resultando num aprofundamento da personalidade da cada personagem (afinal são estas coisas que nos definem, mesmo que não queiramos).
Mas, mesmo depois de tanto matutar, há algo que eu ainda não resolvi e é um assunto que me incomoda imenso. A situação é a seguinte: Quando imaginei este enredo, estava numa fase de histórias de aventura, daí ter criado as personagens num cenário em que estavam sempre a andar de um lado para o outro, como um grupo não muito coeso, mas sempre metidos em sarilhos. Foi assim que imaginei a narrativa e foi desta forma que me afeiçoei às personagens. O problema é que, hoje em dia, mais madura no sentido literário (julgo eu), acho completamente ridículo ter sete ou oito personagens a viajarem pelo mundo, todos juntos, em perseguição de uma assassino. Parece-me tão forçado, que não me sinto com capacidade para o fazer, mas o mal é que, para mim, a história não funcionará se assim não for.
Este é o mal de gostar tanto das minhas personagens que não consigo raciocinar de forma inteligente, sobre qual a melhor forma de lidar com o problema. Mas a verdade, verdadinha, é que se não tiver os oito a viajarem juntos, vai ser o desenvolvimento das personagens que vai perder. Ou não fosse quase toda a trama girar em volta da interacção entre os oito.
Ainda não sei como vou resolver este dilema. Sinto que se mantiver este padrão, a história vai parecer um pouco amadora, pelo menos no início, mas se o alterar, vou estar a comprometer toda a trama (e a alterá-la de forma irreversível).
Esta é a razão principal porque ainda não decidi se será o “Vermelho Sangue” o contemplado para o NaNoWriMo deste ano. Até Novembro terei que tomar uma decisão.

E vocês, alguma vez tiveram a sensação de que tinham de mudar algo drástico na história (algo central)? Se sim, chegaram a fazê-lo, ou mantiveram as coisas como estavam?

Nos meus blogs Floresta de Livros e Asas da Mente:
– “Pariah 2“, de Aron Warner / Brett Weldele / Philip Gelatt;
– “Dark Swan – Storm Born 3“, de Richelle Mead / Grant Alter / David Hamann;
– “Pariah 3“, de Aron Warner / Brett Weldele / Philip Gelatt;
Página 4, da banda desenhada;
– Booking Through Thursdays – Tempo Tempestuoso;
– “Contos de Terror do Homem-Peixe“, antologia

No exterior:
Why the Human Element Is All-Important to a Story’s Beginning, WordPlay;
Men and Women: The friendship that dare not speak its name, no Murderati;
19 Ways to Get More Readers for Your Author Blog, no The Book Designer;
When Creativity isn’t Enough: Tips for bringing out your inner disciplinarian, no blog de Linda Poitevin;
Telling details vs clutter, no blog de Patricia C. Wrede;
Pesky Pet Words, no Rhemalda Publishing;
The Business Rusch: Unexpected Gold in Self Help Books, no blog de Kristine Kathryn Rusch;
Most Common Mistakes Series: Is Nothin’ Happening in Your Scene?, no WordPlay;
Red Flags for Female Characters Written By Men, no SuperHero Nation;
Fact vs. Fiction: Writing Outside Your Life, no Writer Unboxed;
Order and Outlines, no blog de Patricia C. Wrede;

Autor: Ana C. Nunes

I love to write, read and draw. I write novels, draw characters and, sometimes, graphic novels or comics.

5 thoughts on “Mudanças Centrais (Semanário 124)

  1. Confesso que para além de não ver filmes de terror, também não leio livros desse género. O mais próximo que li foi um conto de Roald Dahl chamado “Man from the South”. Não tenho propriamente termo de comparação para dizer se é propriamente terror ou não, nem tem monstros nem nada, só um homem que corta dedos. Ainda assim, a atmosfera do conto fez-me ficar arrepiada e está muito bem escrito, portanto se calhar ias gostar de ler quando tiveres um tempinho (está todo online em inglês, penso eu, e só tem ~5000 palavras).

    Quanto à outra história, se as personagens se conhecessem todas previamente era mais fácil. Ou seja, podiam os sete ou oito combinar uma viagem pelo mundo ou assim, que se transformava numa perseguição sem eles quererem. Ou então, um deles convencia os outros que era uma simples viagem, sem mostrar que na verdade o objectivo era perseguir o tal assassino e ao longo da trama os outros iam-se inteirando dos motivos e alguns podiam desistir a meio.
    Mais credível ainda, seria teres um “grupo fixo” de 3 ou 4 nessa viagem e os outros iam-se juntando a estes por algum tempo e depois abandonando a missão. Ou então, dois grupos paralelos que se cruzassem por vezes.
    Não sei a idade das tuas personagens nem o enredo, mas a viagem com 7 ou 8 pessoas faz-me lembrar uma viagem que fiz no ano passado, em que era extremamente complicado conciliar a vontade de toda a gente. Atrevo-me a dizer que muito raramente andámos todos juntos (éramos 12) ou em grupos de 8. Tanto que tivemos de ver a cidade num programa turistico (daqueles do autocarro vermelho) porque se um queria ir para um lado, o outro queria ir para outro, e mesmo quando a vontade era a mesma, era dificil decidir quem ficava com o mapa. Mesmo com a ideia do percurso já programado pelo programa, acabávamos por andar 4 ou 5 juntos, não mais do que isso.

  2. Babs, obrigada pelas sugestões. Algumas não são passíveis de funcionar, por razões várias, mas outras irei ponderar.
    Esse teu exemplo foi engraçado e elucidativo. É verdade que em grupos grandes há sempre quezílias, mas isso também pode ser bom (na história) para trazer à tona conflitos que podem ser interessantes.

    Não conheço o conto que mencionaste, mas vou tentar ler.

  3. E vocês, alguma vez tiveram a sensação de que tinham de mudar algo drástico na história (algo central)? Se sim, chegaram a fazê-lo, ou mantiveram as coisas como estavam?

    Se fosse só esse o problema… eu mudo é as histórias todas😦 Quanto mais velha, mais coisas altero nas histórias. O conto que meti na Nanozine é prova disso. Se te disser que a minha ideia inicial era reescrever o conto do “hansel e gretel” na Alemanha do século XVIII onde iria haver incesto – nada previa que ia mudar a Gretel para uma lésbica do século XXI. A verdade é que arranjar mapas da época é um bocado dificil e embora eu soubesse bastantes fontes de história Alemã ia ser uma dor de cabeça colocar muita coisa fiel. Com a nova versão só tenho de me preocupar com uma coisa: não cair em esteriotipos.

  4. Resumindo, passaste de uma história controversa, para outra igualmente (se bem que talvez um pouco menos) controversa.😛

    Não é só o caso de alterar a história, porque isso também já fiz muitas vezes, o facto aqui é que vou alterar algo que imaginei há quase dez anos e parece-me quase um ‘crime’, pois durante todo este tempo me acostumei a essa ideia, por mais ‘estapafúrdia’ que por vezes me parecesse.
    Claro que é tudo uma questão de determinação e acredito que se e quando me surgir uma ideia sólida de substituição eu irei usá-la. Mas, pelo menos para já, ainda nenhum das minhas soluções parece boa par o enredo. Espero que este cenário mude.

  5. “E vocês, alguma vez tiveram a sensação de que tinham de mudar algo drástico na história (algo central)? Se sim, chegaram a fazê-lo, ou mantiveram as coisas como estavam?” Sim e sim. Se achar que devo mudar algo central mudo, ponto final, nem que tenham de mandar todo o trabalho para o lixo. Prefiro fazer isso a continuar pelo caminho errado.

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