Caneta, Papel e Lápis

Um blog sobre escrita criativa, de Ana C. Nunes (A blog about writing fiction, by Ana C. Nunes)

Anormal

6 comentários

Todos me chamam anormal.
Nem os da minha espécie mostram respeito ou sequer um pouco de simpatia. Pensei que ao menos eles compreendessem, afinal são vampiros como eu e deviam perceber a minha dor por não conseguir ser … normal. Não que concorde com os que me chamam anormal, mas também sei que não sou como os outros.
Eu bem gostava de perfurar artérias com só meus incisivos e deixar o sangue fluir dos humanos para a minha boca. Gostava de soltar enzimas nos seus corpos reticentes que logo se tornariam cooperativos, quando o sugar de sangue se tornasse prazeroso ao invés de doloroso. Muitos imploravam para serem mordidos, sugados, desprovidos do seu sangue. Mas não a mim! A mim nunca ninguém implorava.
“AUCH!” – O humano afastou-me do seu pescoço e tapou a ferida com a mão. Estava furioso mas eu tinha os olhos fixos no pescoço dele e nas gotas de sangue que escapavam por entre os seus dedos calejados. – “Qual é o teu problema, miúda? Isso doe para caralho!”
Deixei cair o garfo de dois dentes no chão e a custo lá desviei o olhar para o rosto dele, arrependendo-me logo de seguida.
Ele tinha o rosto manchado de óleo de motor, mais piercings do que dentes e uma expressão que prometia muita pancada. Nunca fui fã de violência, mas como a minha avó costumava dizer: «A cavalo dado não se olha o dente».
“Desculpa mas já tinha dito que não ia ser como com os outros.” – Passei a língua pelos lábios e baixei o rosto até ao pescoço dele. Uma mão suja e malcheirosa estampou-se na minha testa, empurrando-me o rosto para trás. – “Então? Tínhamos um acordo!”
Ele levantou-se do banco de jardim, tentando amedrontar-me com os seus metro e noventa de altura e corpo robusto. – “Mudança de planos. Não sou masoquista.”
Ergui-me do chão e bati-lhe com mão no peito, fazendo-o cambalear um pouco para trás. – “Eu já te paguei e tu vais dar-me o que preciso.”
“Vai-te foder, miúda!” – Ele curvou-se para agarrar no casaco de cabedal que estava no banco e depois voltou-se para partir, cuspindo para o chão aos meus pés, desprezando-me.
Senti o sangue ferver-me nas veias e a minha visão pintou-se de vermelho. Antes que ele tivesse tempo de dar dois passos, saltei-lhe para as costas. Ele caiu de cara no chão e agarrei nos dedos que tapavam a ferida no pescoço, vergando-os um a um para ter acesso aos dois buracos que tinha aberto da artéria segundos antes. Os gritos dele fundiram-se com o som do comboio que passava ali perto e eu saboreei cada gota de sangue que fluiu do seu pescoço. Estava um pouco alcoolizado, e tinha muito colesterol, mas eu não era muito exigente com as minhas refeições.
Quando me senti finalmente saciada, levantei-me, fazendo das costas dele um assento algo desconfortável. Passei a manga da minha camisola pela boca, retirando o excesso de sangue que sempre ficava nos cantos e na parte inferior dos lábios. Eu babava-me sempre um bocado.
Ergui-me de um salto e dei umas quantas palmadas amigáveis nas costas do homem, que nem se mexia. Estava fraco pela falta de sangue mas eu não estava preocupada. Umas horas de sono no chão do parque e ele estaria pronto para outra ronda, assim que comesse qualquer coisa, claro.
“Para a próxima devolves o dinheiro. Não gosto que me roubem.” – Finalizei dando-lhe um pontapé nos rins que, esperei, tivesse doido muito. Odiava quando me desprezavam.
Baixei-me para apanhar o garfo do chão e inspeccionei-o cuidadosamente. Estava intacto, o que me agradou já que era feito de platina, sendo uma peça rara que outrora pertencera ao faqueiro da minha avó, a mulher mais maravilhosa que conheci, tanto em vida como na morte. Limpei os dentes do garfo na bainha da camisola, ergui-o ao nível dos meus olhos, voltei a limpá-los e só à terceira vez fiquei contente com o resultado. Não queria manchas de sangue alheio no meu garfo. Bufei para o talher depois esfreguei-o na ombreira da minha camisola, que era feita de pele, e depois, satisfeita, enfiei-o no bolso de trás dos calções.
Enxotando o chão arenoso, caminhei para fora do parque, passando por vários pares de namorados, enrolados uns nos outros como se precisem de respirar através da boca do parceiro. Um ou outro mendigo pediram-me esmolas, mas eu estava sem cheta pois tinha usado todo o dinheiro que carregava comigo para pagar àquele ladrão que pensava fugir sem me dar o que eu solicitara.
Quando atravessei os portões parque, senti o telemóvel a vibrar num outro bolso. Abri-o, vi de relance que era o remetente («Hugo Parvalhão») e premi o botão verde. – “O que é que queres?”
“Também te amo, minha doce Marta.” – Ao fundo podia ouvir a música alta e os gritos estridentes dos loucos que se esfregavam uns nos outros em cima da pista de dança.
“Diz lá o que queres que eu não tenho a noite toda.” – Impaciente batia com as unhas no telemóvel enquanto tentava mastigar a língua. Escusado será dizer que não podia fazer balões de goma com ela.
“O Chefão disse para passares por cá. Vai haver festa esta madrugada.” – E por Chefão ele referia-se ao Filipe, o vampiro mais velho da região, e um impotente completo que não conseguia erguê-la fosse por quem fosse, à excepção de uma situação bem invulgar em que eu estive envolvida. Desde aí nunca mais tinha conseguido que ele tirasse os olhos de mim.
“Não estou interessada.”
“Não sejas assim! Já sabes que ele te vai buscar à força se assim tiver de ser.” – Houve uma pausa em que pensei ouvir umas sucções e quase consegui imaginá-lo a falar ao telefone enquanto agarrava duas mulheres e lhes chupava o sangue sabe-se lá bem de que artéria (ele não tinha preferência especial pelo pescoço). Finalmente o som parou. – “Ele acha que queres te rebelar e olha que não é bom teres o Chefão na tua perna.” – A quem ele o dizia. Eu andava com ele na minha perna há três anos. Três anos! Sempre odiei stalkers.
“Eu não vou e ponto final.” – Sem aguardar por uma resposta, pressionei o botão vermelho e voltei a guardar o pequeno aparelho no bolso dos calções. Ainda nem tinha chegado à primeira esquina quando ouvi o chiar dos pneus de um carro e senti um par de mãos puxarem-me para dentro de uma limusina branca. Nem tive tempo de lutar antes de aterrar de fuças nos estofos de pele.
Olhei para cima e dei de caras com o dito cujo: o Chefão! Saltei para trás e tentei abrir as portas que estavam trancadas. O interior da limusina estava completamente escura, mas só pelo cheiro e pela silhueta eu conseguia saber que era ele.
“É um prazer rever-te, minha querida.” – Ele nem e mexeu, mas eu senti o olhar dele em mim e arrepiei-me toda.
“O prazer é todo TEU. Agora deixa-me sair.” – Voltei a tentar forçar as portas, mas nem sinal de enfraquecimento.
“Não te canses. Este carro está preparado para aguentar com o ataque de um Troll. E acredita que tu não tens nem metade da força de um.” -Como se eu precisasse de umas lições de mitologia e sobrenatural.
“O que queres de mim?” – Ajeitei-me o assento tentando manter-me o mais afastada possível dele. Duas taças de champanhe, vazias, brilhavam com as luzes laterais das portas e eu conseguia ver as calças de cabedal vermelho que ele usava, justinhas ao corpo, se a vista não em enganava. Tive vontade de rir quando o imaginei vestido todo em cabedal vermelho. Certamente que a visão seria mais ridícula que quando o Hugo se vestiu de Teletubby.
“Acho que sabes a respostas a isso.” – Saber até sabia, mas uma parte de mim preferia manter-se ignorante.
“Não posso ajudar-te.” – Abri as pernas, para ver se ficava mais distante das dele, mas quando ele mexeu as suas, achei que estava, inadvertidamente, a convidar a algo que não queria certamente dar-lhe e voltei a fechar as pernas.
“Não podes, ou não queres?”
“Ambas.” – Não valia a pena mentir.
“Porque é que me odeias tanto assim?”
Eu não o odiava, simplesmente não gostava dele. Nem sei bem porquê, mas sentia um fosso entre nós de cada vez que pensava nele. Nunca lhe tinha visto sequer o rosto, que pelos vistos ele não mostrava a ninguém. Mantinha-se sempre nas sombras ou coberto com véus gigantescos que lhe cobriam o rosto e torso, ou então no inverno, quando usava roupas pesadas que nem deixavam antever o seu corpo por baixo, ele usava simples máscaras que impediam que alguém o visse por aquilo que realmente era.
Pessoalmente imaginava-o como um velho cheio de rugas, babado e nojento. Só de pensar nisso sentia o estômago a dar voltas.
“Porque é que te escondes por trás de mascaras e véus?”
Ele ficou tenso e ajeitou o corpo, fazendo chiar a pele branca dos assentos.
Um silêncio banal cobriu a limusina e por minutos só se ouviam os sons da estrada e do tráfego intenso. Devíamos estar perto do clube porque o resto da cidade estava em silêncio e o barulho lá fora era infernal.
“Gostava que me acompanhasses esta noite. Vamos comemorar os cem anos da revolução. É uma grande noite e deves estar junto dos teus companheiros.”
Companheiros? Bah! Como se algum deles gostasse de mim. À excepção do Hugo, que é o parvalhão do meu criador, ninguém me respeita ou me considera “igual”. Ainda assim eu gostava de festas e se ficasse com o Chefão, ninguém se atreveria a tratar-me mal. E desde que eu me mantivesse a uma distância segura dele (um metro chegaria?) também não tinha de temer que ele me atacasse. Só de pensar arrepiava-me toda!
“Muito bem, mas espero que não tenhas ideias estranhas durante o serão.”
Podia jurar que ele sorriu, mas estava demasiado escuro para distinguir os traços do rosto descoberto dele. – “Nunca.”
Senti um arrepio percorrer-me a espinha e tive novamente vontade de sair a correr da limusina, mas no último instante lá me contive. Afinal íamos estar num clube nocturno cheio de gente. Ele não se atreveria a tocar-me e arriscar um escândalo.

Este texto é um excerto de um conto em que estou a trabalhar. Perdoem-me se os tempos verbais não estiverem certos, pois ainda não revi o texto ao pormenor.

Autor: Ana C. Nunes

I love to write, read and draw. I write novels, draw characters and, sometimes, graphic novels or comics.

6 thoughts on “Anormal

  1. YAY, adoro!😀
    Esse Chefão agrada-me… especialmente porque havia um homem de véu no Final Fantasy Advent Children e toda a gente pensava que era um feio deformado e afinal era sexy como todo, e o chessmaster lá do sítio. Pois.

    xx

  2. És bruxa?
    Contigo não consigo fazer surpresas.😄
    Ele é muito sexy, sim senhora, e um pouco tarado, mas mais que isso é impotente, o que é sempre uma forma espantosa de fazer gozo dos vampiros, que hoje em dia andam muito sexuais.😛

  3. Ahem, pois, True Blood anyone? LOL
    xx

  4. lol, esse é o extremo. Já viste a capa da revista “Rolling Stone” com o triângulo amoroso do True Blood? Nojenta!

  5. Absolutamente! Tipo, consigo viver com nus e afins, mas aquilo é simplesmente… tasteless.

  6. Pingback: Semanário 77 « Caneta, Papel e Lápis

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