Caneta, Papel e Lápis

Um blog sobre escrita criativa, de Ana C. Nunes (A blog about writing fiction, by Ana C. Nunes)

Aparências

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Com os olhos quase colados, Janelle esfregou os nós dos dedos na cara, para tentar desfazer-se da desconfortável remela que todas as noites lhe envolvia os olhos. Era uma coisa muito nojenta, conforme ela tinha aprendido depois de, no seu primeiro dia na academia, ter saído do quarto sem lavar a cara, e ter sido posteriormente gozada por todas as pessoas que encontrou a caminho do gabinete do director.
Já se tinha sentido suficientemente mal por ser nova na academia, e por ainda não estar habituada àquele corpo, mas ouvir as risadas dos outros enquanto caminhava pelos corredores, foi a maior humilhação de sempre. Não que ela tivesse muitos termos de comparação, mas sentira-se como uma formiguinha debaixo das gargalhadas de gozo, e nunca mais se queria sentir assim.
Infelizmente ainda não tinha feito amigos, e limitava-se a ficar sempre junto do Nanael, que era exactamente como lhe tinham contado, um anjo de pessoa, ou melhor dizendo, era mesmo um anjo EM pessoa.
Às vezes também passava tempo com o Marco, que era um metamorfo como ela, mas já quase a terminar o seu mandato, ou mesmo com os restantes metamorfos em serviço, mas eles pouco tempo tinham para ela, pois estavam sempre atarefados com os seus afazeres.
Janelle gostava da companhia deles, mas o problema era que a diferença de idades era um entrave e acabava sempre por se sentir como uma criança imatura, o que raramente acontecia quando estava com o Nanael.

Espreguiçou-se lentamente na cama, sem grande vontade de abandonar os lençóis de flanela que lhe aqueciam as pernas e a deixavam mole o suficiente para querer ficar o dia todo deitada no conforto do quarto.
Vestindo as primeiras peças de roupa que apareceram à sua frente, sem qualquer preocupação em combinar as cores ou perceber se as peças lhe assentavam bem (desde que não a apertassem, porque ela odiava sentir-se apertada), passou os dedos pelos cabelos lisos e quebradiços, antes de escovar os dentes.
Quando se preparava para sair do quarto, um receio familiar tomou-a de assalto e ela nem conseguiu agarrar convenientemente a maçaneta da porta, antes de a empurrar para baixo e entreabrir a porta. Meteu o nariz de fora e espreitou para o corredor. O barulho era estrondoso, como nas manhãs anteriores, e a comoção era assustadora. Todos os alunos se levantavam àquela hora para depois seguirem em direcção à cantina onde todos, mesmo os agentes mais condecorados, tomavam as suas refeições.
Janelle ficou à porta, esperando que a multidão dispersasse e ela pudesse então sair a correr, para não correr o risco de se cruzar com ninguém, mas o seu estômago não estava de acordo com esses estratagema já que começou a roncar baixinho, embaraçando-a ainda mais.
Ela voltou a enfiar-se dentro do quarto, com as bochechas rosadas e os joelhos moles. Respirou fundo antes de voltar a abrir a porta e, dessa vez, sair para o corredor concorrido. Ninguém lhe prestou muita atenção. Era apenas mais uma no meio de muitas!
Foi para a cantina e tomou o seu pequeno-almoço vitamínico, cheio de complementos e preparados especiais a que só os da sua espécie tinham acesso, pois eram os únicos que deles necessitavam. Estranhou não ver o Nanael, mas concluiu que ele já estaria na sala de aula e por isso despachou-se a comer tudo para depois poder ir para junto dele.
Queria lá chegar depressa, mas a multidão era tão densa que ela tinha dificuldade em avançar rapidamente, e em nada ajudava o facto de a sua coordenação motora não ser das melhores. Muitas vezes tropeçou nos próprios pés e só não caiu de cara porque a multidão acabava por a amparar, não sem muitos grunhidos e queixumes do restante corpo de aulas. De cada vez que embatia em alguém, Janelle baixava a cabeça, fazia uma pequena vénia, desfazendo-se em desculpas, até que os queixosos lhe viravam costas, muitos apenas depois de gozarem um pouco com o aspecto físico dela, algo que ela achava incompreensível.
De tão estranho que achava tal comportamento, decidiu questionar o Nanael sobre o assunto.
Quando chegou à sala de aulas, encontrou o professor junto da mesa de docente, preparando o computador portátil e o projector para a aula que só começaria dali a trinta minutos.
“Bom dia, Nanael!” – Janelle entrou sorridente pela sala, e ele logo ergueu o rosto para a cumprimentar da mesma forma carinhosa.
“Bom dia, minha querida. Passaste bem a noite?”
Ela respondeu-lhe com um aceno vivaz da cabeça, juntando as mãos nervosas na bainha da saia. – “Queria perguntar-lhe … -te uma coisa.” – Ainda não estava habituada a trata-lo por tu, como ele tinha insistido que fizesse desde o primeiro dia.
“Força!”
“Bem, é que toda a gente faz pouco do meu aspecto e eu gostava de saber se há alguma coisa de mal com a minha aparência. Se calhar estou a fazer alguma coisa de mal e nem me dou conta.”
O Nanael sorriu-lhe ainda mais enquanto ligava o computador. – “Diz-me, porque escolheste essa forma?”
Ela roçou o pé esquerdo na perna direita, nervosa. – “Lá em casa a televisão está sempre ligada e nós vemos de tudo, para nos mantermos actualizados.” – Ela fez uma pausa e ele fez um leve gesto com a cabeça, incentivando-a a prosseguir. – “Um dia estava a ver um filme e apareceu uma rapariga muito sorridente, que parecia irradiar felicidade e eu achei-a tão bonita que decidi ficar parecida com ela.”
O Nanael afagou-lhe o cabelo com um sorriso trapaceiro nos lábios. – “Era muito bonita mesmo.”
A Janelle mostrou um beicinho que fez com que ele desatasse a rir. – “Mas todos fazem pouco de mim!”
Ele parou de rir e abaixou-se para a poder encarar olhos nos olhos. – “Isso é porque nesta sociedade a beleza é estereotipada e tudo o que fuja à regra deixa de ser bonito aos olhos de quase toda a gente.”
“Então eu não sou bonita?” – Cabisbaixa, de olhos postos no chão e olhos semi-cerrados, ela lutou contra as lágrimas mordendo o lábio inferior enquanto este tremia. Escolhera aquela forma por a achar linda. Não fazia ideia que os outros não gostavam daquele modelo de pessoa.
O Nanael colocou as mãos debaixo dos braços dela e ergue-a no ar. Janelle soltou um gritinho estridente, sentindo-se muito pequena ao pé daquele gigante.
“Tu és linda! E nunca deixes que ninguém te diga o contrário. Está bem?”
A Janelle concordou com a cabeça, de rosto tão vermelho como a camisola do professor que a erguia bem alto nos seus braços.
Ele pousou-a no chão e ela quase perdeu o equilíbrio ao sentir novamente os pés a suportarem o peso do corpo. Afastou-se dele, dando-lhe espaço para terminar as preparações para a aula, e voltou-se para o espelho no fundo da sala.
O reflexo mostrava uma menina de dez anos, com o rosto quadrado, lábios finos, olhos azuis como a água, mãos pequenas e dedos cheios, num corpo mais recheado do que os que ela via a passear pelo corredor.
Na sua mente jovem não conseguia entender como podiam achá-la feia. As suas curvas eram bem mais bonitas de se ver que os ossos salientes dos restantes. A sua pele era macia e não se sentia mal a andar, conseguia respirar muito bem e fazia tudo o que os outros faziam. Porque então é que a desprezavam e chamavam de gorda?
Nanael surgiu atrás dela e o reflexo mostrou também o professor com pele da cor da terra, escura e com um cheiro muito característico do cacau puro.
Ele colocou as mãos nos ombros dela e beijou-lhe o cabelo antes de fitar os olhos dela reflectidos no espelho. – “Vês como és linda?”
“Sim, mas outros não pensam o mesmo, pois não?”
“Não interessa o que os outros pensam. O que importa é que tu te sintas bem e gostes do que vês. Tudo o resto é secundário.”
Aquelas palavras ficariam para sempre com ela, assim como o carinho patente em cada palavra do seu guardião.
“Obrigada.”
Ele sorriu uma vez mais, mostrando os seus belos dentes brancos, antes de se erguer e pedir-lhe que o ajudasse com o quadro. Ela seguiu-o, mas não sem antes dar uma última olhada ao reflexo e sorrir a si mesma, rodopiando com a saia voar à sua volta, como a bela menina que ela uma vez vira na televisão.

Este pequeno conto faz parte, como história alternativa, do projecto PFA (titulo provisório).

Autor: Ana C. Nunes

I love to write, read and draw. I write novels, draw characters and, sometimes, graphic novels or comics.

6 thoughts on “Aparências

  1. Gostei imenso!!! Gostei sobretudo porque quando era mais nova também vi na televisão uma menina de vestido toda sorridente, a correr pelos campos e durante a minha infância toda tentei ser um pouco como essa menina, até queria usar vestido e tudo.
    Para além disso, gosto da forma como falaste do tema da obesidade. Quer dizer, a obesidade traz problemas e eu penso que se devia fazer qualquer coisa para que toda a gente tivesse uma melhor alimentação e praticasse mais exercício (embora, por vezes isso não seja a soluçao para alguns casos de obesidade) mas também acho que não há mal nenhum em crianças mais gordinhas. Lembro-me perfeitamente na primária de todos os miúdos gozarem com os mais gordinhos. Quer dizer, não só na primária mas em todos os outros anos.
    Eu em particular, embora não seja obesa (há aí uns 2 anos é que fiquei com as pernas mais gordas xD), desde que entrei no 3º ciclo que sou gozada. Portanto, não interessa o aspecto que temos porque vai haver sempre alguém disposto a gozar. Temos é que saber lidar com isso.

  2. A obesidade nem era o tema central aqui, mas sim a exclusão. Só quis mostra que ás vezes as pessoas são postas de parte pelas razões mais idiotas.
    Eu sou obesa e por isso sei que isso traz vários problemas a nível social (o que eu corri para ficar com um emprego). Não o sou por comer demais, mas sim porque já é de família. Há gente que come, come e não engorda. Eu tento comer menos mas não emagreço. Mas, bem, já estou habituada e acho que o mais importante é mesmo sentirmo-nos bem connosco. O

    Ainda bem que gostaste!😄

  3. Eu provavelmente faço parte daquela gente que come, come e não engorda (ou pelo menos fazia). E embora toda a gente comentasse isso com um sorriso, não era propriamente agradável. Lembro-me que a minha mãe tinha sempre um papel no frigorífico com o peso mínimo que eu devia ter e que eu entrava em stress sempre que ia para a balança porque ter peso abaixo significava que teria de ir ao médico e eventualmente fazer análises (eu tenho pavor a médicos, agulhas, sangue, etc.) (isto foi off-topic, mas pronto).
    A verdade é que tens toda a razão e as pessoas são sempre preconceituosas e excluem os outros pelas razões mais parvas. Eu em particular senti-me muitas vezes excluída na escola e gozada pelas razões mais parvinhas e posso-te dizer que embora eu até esteja geralmente sorridente e satisfeita, é algo que me afectou. Não é agradável saberes que os outros comentam e gozam com a roupa que veste ou com a forma como te ris. Mas tento sempre relativizar um pouco tudo isto porque tenho um caso pior cá em casa. O meu irmão é surdo e é incrível a discriminação que ele sofre, como se já não lhe bastasse ter o problema que tem.
    Enfim, já me alonguei xD

  4. Realmente essas situações são horríveis e infelizmente acho que cada vez está pior.
    Não percebo, sinceramente.

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