Caneta, Papel e Lápis

Um blog sobre escrita criativa, de Ana C. Nunes (A blog about writing fiction, by Ana C. Nunes)

Ira

3 comentários

“Não posso acreditar.”
Uma jovem mulher caminhou, cambaleante, rua abaixo, tentando aguentar-se em cima dos tacões que lhe massacravam os pés e da saia justa que lhe limitava os movimentos.
“Aquele cabrão vai arrepender-se. Ai se vai.”
Cerrou uma mão e esmurrou uma montra, que resistiu ao impacto. Ela gemeu com as dores e, furiosa, descalçou um dos sapatos e arremessou-o contra o vidro, uma e outra vez, até que o buraco cresceu e o vidro acabou por se partir em pequenos cacos.
O alarme soou furioso e ela levou as mãos à cabeça, berrando e injuriando tudo o que respirava. Deixou o sapato no meio dos estilhaços, e seguiu caminho com um só sapato calçado. O tacão prendeu-se nos paralelos e ela gritou ao sentir as dores no tornozelo. Pontapeou o ar e o outro sapato voou, para depois aterrar no tejadilho de um dos carros estacionado ao lado dela.
“Quem é que me vai pagar uns sapatos novos. QUEM?”
Ninguém respondeu mas ela seguiu como se isso não interessasse muito.
“Cabrão! Onde já se viu deixar-me ficar sozinha no bar? Lá porque a irmã teve um acidente, ele tinha mais era que ficar ao pé de mim e levar-me a casa. A irmã pode morrer, quero lá saber.”
Sentiu uma picada num dos pés e encostou-se a um dos carros para poder ver o que se espetara na sua pele. Era um vidro de uma garrafa de cerveja.
Ela arrancou-o à força e começou a sangrar, mas continuou a sua caminhada, cambaleante, até chegar ao seu Mercedes. Entrou e espetou as chaves na ignição, não acertando à primeira e enfurecendo-se com o automóvel, esmurrando o tablier e os assentos, como se isso fosse resolver o problema. Furiosa, premiu a buzina e assim esteve durante um minuto ou dois, até ela própria se cansar da barulheira e tentar começar o carro novamente.
“Mas será possível que hoje está tudo contra mim?”
Sem cinto e descalça, com o pé ainda a sangrar, manobrou o carro para sair do seu espaço, mas tinha a visão tão turva que embateu tanto no carro da frente como no de trás, profanando os condutores dos outros veículos por a espremerem ali.
Ligou o rádio e pôs-lo a tocar no máximo, cantarolando e movendo-se ao som da música enquanto conduzia a alta velocidade pela estrada.
Avistou um pequeno cão a mancar pela estrada à sua frente e um sorriso assustador tomou conta do rosto dela. Pressionou o acelerador e riu-se como uma doida enquanto o carro passou por cima do animal.
“É o que as bestas merecem. Gostaste?”
O riso não parou e a música fazia tremer o interior do carro enquanto ela continuava a acelerar.
Quando estava numa enorme recta, avistou ao longe um outro carro que arrancou depois de largar três miúdos na beira da estrada. Eles atravessaram a passadeira e ela observou-os calmamente. Voltou a carregar a fundo no acelerador, com os olhos alerta e o riso arrepiante a vir do fundo da garganta.
“Vais ver o que acontece quando me deixam sozinha. Vais ver o que acontece, cabrão.”
Os rapazes, que conversavam alegremente e trocavam piadas, viram os faróis do carro e assustaram-se quando perceberam que o louco do condutor vinha a toda a velocidade de encontro a eles.
O rapaz que vinha mais atrás, saltou para a retaguarda e os outros dois correram para a frente.
Conseguiram esquivar-se por sorte, embora o do meio tivesse raspado a perna no guarda-lamas do Mercedes.
Ela não conseguiu parar, de tão louca que estava, nem percebeu que ia direita a um muro de pedra. O carro espetou-se com uma força descomunal contra o mural e ela saiu a voar pelo vidro fora, embatendo violentamente com a cabeça na pedra.
Teve morte imediata.

Este texto está aberto a interpretações várias, ou se calhar eu estava só de mau humor.

Submetido ao desafio Pecados e Virtudes da Fábrica de Histórias.

Autor: Ana C. Nunes

I love to write, read and draw. I write novels, draw characters and, sometimes, graphic novels or comics.

3 thoughts on “Ira

  1. Olá Ana …

    Sempre que leio os teus textos esqueço-me de respirar …
    Fantástico como sempre, é bom ter-te de volta.

    Bjs

  2. Gostei do teu conto… gostei da forma como conseguiste transmitir do personagem para mim, toda a sua ira, a sua raiva, a sua fervura. Parabens, pois a leitura para mim, não foi uma perda de tempo.

  3. Obrigada, Nuno. Fico contente por saber que gostaste.

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