Caneta, Papel e Lápis

Um blog sobre escrita criativa, de Ana C. Nunes (A blog about writing fiction, by Ana C. Nunes)

Mentiras

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Ele correu até ela, arfando e usando de todas as suas forças para que as suas pernas se movessem mais rápido. Ela não teve tempo de se esquivar e soltou todo o ar que tinha preso nos pulmões, no momento em que ele embateu no seu corpo. Os dois caíram desamparados no chão, mas ele ainda foi a tempo de colocar uma das suas massivas mãos por baixo do rosto dela, assegurando-se que ela não ficaria com queimaduras de alcatrão, como ele ficou, nas mãos e braços despidos que ficaram em carne viva com o embate. Ele tentou não gritar, e quase conseguiu, mas acabou por soltar um leve gemido que a alertou.
“Estás bem?”
“Sim. “ – Mentiras. – “Não te preocupes.” – Ele só dizia mentiras.
O som que se seguiu ao estalo, deixou um zumbido estranho a soar nas orelhas dele. Com os olhos esbugalhados, incapaz de voltar a colocar o rosto na sua posição inicial, ele não conseguiu zangar-se com ela, pois sabia que o estalo era merecido, mas a surpresa era inevitável.
“Quando é que vais parar de disparar falsidade por essa boca imunda?” – As lágrimas já rolavam pelo seu rosto, incólumes. – “Diz-me a verdade, por uma vez na tua vida!”
Ele queria. Oh, se queria! Mas era já automático, era uma reacção impulsiva, que ele não controlava em absoluto e o peito ardia-lhe pois sabia que estava a magoá-la com cada mentira que proferia.
“Posso fazer isso.” – Mas o que ele realmente queria dizer, o que tinha de dizer, era que não podia fazê-lo. Mas será que ela não via isso? Não percebia que ele dizia sempre o oposto do que sentia, do que acreditava? Ele não tinha culpa, porque tinha sido programado para isso.
“Podes, se quiseres. Mas não queres, pois não?”
“Posso, mas não quero.”
Ela virou o rosto para o pavimento e empurrou-o para longe de si, incapaz de sentir o corpo dele, quente, mas tão gelado como o árctico. Não conseguia compreendê-lo e isso irritava-a, porque não se conseguia esconder que, apesar de todas as barbaridades que ele dizia, as suas acções mostravam outro tipo de atitude. Se ao menos ele não falasse e deixasse as acções falarem por si, tudo seria mais simples e ela saberia no que acreditar.
Com os olhos enxutos, voltou a fitá-lo e o que viu foi a mais pura preocupação.
Não podia odiá-lo. Não podia desprezá-lo. Afinal, não tinha ele salvado a sua vida inúmeras vezes?
“Vamos para casa.”
“Não quero.”
“Eu sei que queres.”
Erguendo-se vagarosamente, sentiu-o fazer o mesmo atrás de si. Sem uma outra palavra que fosse, começou a caminhar na direcção do seu carro, decidida a não o forçar a dizer mais nada, pois se o fizesse, sabia que acabaria por chorar novamente, por duvidar uma vez mais, e as dúvidas levavam à traição, e traição era algo que ela não podia aceitar. Nunca!

Autor: Ana C. Nunes

I love to write, read and draw. I write novels, draw characters and, sometimes, graphic novels or comics.

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