Caneta, Papel e Lápis

Um blog sobre escrita criativa, de Ana C. Nunes (A blog about writing fiction, by Ana C. Nunes)

Celibato

2 comentários

22_celibatoUm velho salão, iluminado pelos majestosos candeeiros que se estendiam e multiplicavam pelo telhado esculpido em séculos passados. Os ocupantes caminhavam de forma ordeira pelas delimitações impostas pela cantina e conversavam animadamente uns com os outros. O som de uma campainha barulhenta soou por todo o edifício. Os suspiros que se seguiram demonstraram o desagrado de muitos.
“Lá vamos nós outra vez.” – Um dos homens mais altos que ali se encontrava, envergando uma batina castanha, benzeu-se com o sinal da cruz e elevou os olhos ao céu, como que implorando misericórdia.
O barulho que se seguiu poderia apenas ser comparado a uma debandada. O chão tremeu e os candeeiros de cristal abanaram compulsivamente, dando a sensação de estarem prestes a cair.
A multidão que invadiu o refeitório, foi de tal modo rápida e feroz que quase arrancou as colossais portas duplas que davam entrada para o local.
Olhos esbugalhados, bocas abertas e a salivarem, irromperam pelas filas ordenadas, empurrando tudo e todos que se apresentavam à sua frente.
“ORDEM! Meninos, ORDEM!” – Os funcionários que estavam protegidos da comoção por balcões de aço, batiam com as colheres de pau nos tachos, tentando impor respeito e ordem naquela rusga desenfreada. – “Há comida que chegue para todos.”
“Temos fome!” – Um rapaz com cabelos encaracolados e sardas salpicadas pelo rosto, elevou a sua voz acima da multidão. Foi seguido por um estrondoso grito de apoio dos restantes colegas.
“Vocês e toda a gente que aqui está. Mantenham-se na fila ou então vão passar as noites a limpar retretes.”
O som de amuo que tomou conta dos jovens foi como o gemido irritante e infantil de miúdos mimados a quem os pais prometeram doces e deram sopa.
Eles acalmaram-se, se bem que só um pouco, tentando ganhar terreno no campo de batalha que era a fila para a cantina.
O monge, que tinha tido o infortúnio de ser um dos últimos a entrarem antes de a escola terminar, viu-se rodeado de crianças que esbarravam contra ele. Nem mesmo o seu ar de “não te metas comigo que eu sou um homem de Deus e tenho força e autorização para te dar uns bons tabefes”os mantinha na linha. Ele suspirou e rezou, como que tentando afastar a ideia de berrar com eles e desatar à batatada.
«Deus é contra a violência.» – Repetia ele por entre os dentes.
“É verdade que os monges não podem ter sexo?”
A questão, vinda do nada, deixou-o atónico. Lentamente virou o rosto na direcção do seu inquisidor. Uma rapariga de curtos cabelos ruivos e com os olhos enormes e inquisidores, olhava-o curiosa. Não foi capaz de lhe responder.
“Deve ser uma seca. Viver sem sexo. Quem foi que inventou essa parvoíce?”
Para seu espanto, ao lado da ruiva estava outra ruiva. Uma cópia quase igual mas com um corte de cabelo ligeiramente diferente, mais curto ainda.
“Já experimentaste ao menos? É que se calhar nem sabes o que estás a perder.”
O queixo dele quase tocou no chão e ele ficou com a boca aberta a observar as duas pirralhas a discutirem sobre a sua vida sexual, ou falta dela neste caso. Elas não podiam ter mais de quinze anos. Que raio de conversa era aquela? E ainda tinham a distinta lata de o tratar como se ele fosse um amigo de escola. Onde estava o respeito pelos mais velhos.
“Se quiseres eu conheço umas raparigas que não se importavam de te mostrar os prazeres carnais. E nem levam dinheiro nem nada.”
“Que nos dizes, padreco? Prometo que não te vais arrepender”
«Eu não sou padre, suas piolhas!»
Ele considerou que fingir ignorância seria o seu melhor bilhete de saída para fora daquele filme assustador. Virou o rosto para o outro lado e prosseguiu em escolher uma sopa de ervilhas.
A gémea com o cabelo mais comprido observava-o atentamente e ele sentia-se como debaixo de um microscópio, sendo examinado ao pormenor e dissecado lentamente.
“Tu até pareces ter um corpo bem jeitoso. Tens a certeza que não queres deixar de lado essa ideia de celibato? Eu não me importava de dar umas voltas no teu —”
Como num reflexo ele plantou a sua mão na boca dela, corando como um tomate maduro.
“Mas será que vocês não têm tento na língua?”
A outra irmã sorriu de orelha a orelha e ele sentiu-se derrotado. Elas tinham conseguido afectá-lo mais do que ele gostaria.
“Afinal o padreco até sabe umas coisas …”
«Eu não sou padre, raios.»
“Não que isso seja do vosso interesse, mas eu sou monge e o celibato não me impede de ter … relações, apenas me impede de casar.” – E dizendo essas palavras, com o rosto ainda tingido de vermelho, prosseguiu rapidamente para fora da fila, tentando enfiar-se numa mesa qualquer o mais rapidamente que podia.
Os miúdos já não tinham respeito nenhum.

Este pequeno conto faz parte, como história alternativa, do projecto PFA (titulo provisório).

Autor: Ana C. Nunes

I love to write, read and draw. I write novels, draw characters and, sometimes, graphic novels or comics.

2 thoughts on “Celibato

  1. I likes it bery bery much!

    Se isto é PFA, vamos nessa!😀

  2. Pingback: Entrevistas e NaNoWriMo! | Caneta, Papel e Lápis

Comente / Comment

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s