Caneta, Papel e Lápis

Um blog sobre escrita criativa, de Ana C. Nunes (A blog about writing fiction, by Ana C. Nunes)

O retrato

4 comentários

20_retratoGostava de fotografar a tua alma, mas tenho medo do que possa ver.
Será que mudarei a minha opinião acerca de ti quando a lente da câmara captar a tua verdadeira forma?
Será que é justo julgar-te dessa forma?
Tu que sempre te mostrastes pronta a ajudar todos, que estás rodeada de amigos e que ao mesmo tempo pareces tão só.
Tu que sorris tantas vezes e ao mesmo tempo nunca sorris verdadeiramente.
Será que tenho o direito de violar o teu íntimo desta forma?
“Então o que vai ser hoje?”
Sorris, mas não o sentes. Consigo vê-lo nos teus olhos.
Não o fazes por mal. Acredito que não. Mas por detrás de toda essa aparente felicidade está um manto de tristeza.
O que foi que te feriu tão profundamente?
“É hoje que tiras o meu retrato?”
Pondero a tua questão. Sinto vontade de dizer que sim, mas temo fazê-lo.
“Começo a sentir-me menosprezada. Serei eu a única pessoa da vila a quem nunca tiraste uma foto?”
Sim és. Mas nunca to direi.
“Achas que te vou dar cabo da película?”
Duvido que esse fosse o problema. Só não quero é estragar a imagem que tenho de ti.
Quero compreender-te, mas tenho medo. Medo de ver a verdade e nunca mais conseguir olhar-te do mesmo modo.
Não quero menosprezar-te. Não quero alienar-te como fiz a tantos outros depois de os capturar em filme.
Aquelas fotos que nunca deveriam sair do meu estúdio. Aquelas que todos acham ser os melhores retratos da cidade, mas que aos meus olhos mostram todas as barbaridades e toda a podridão de cada um dos retratados.
Tu foste a única que permaneceu imutável depois de tantos anos de ausência. Ages da mesma forma, sorris da mesma forma. O teu coração de ouro mantêm-se intacto. Mas … o brilho desapareceu. Aquele brilho que rendia qualquer um imóvel e que te tornava tão única.
Quatro anos de ausência trouxeram muitas mudanças à minha vida. Quando regressei à vila, tudo parecia semelhante, mas no fundo estava tudo diferente. Todos têm algo a esconder e eu acabei por descobrir a podridão de todos eles.
Tornei-me apático já que não queria criar inimizades.
Tento não pensar no que sei, no que vejo, no que todos escondem debaixo de uma manto de normalidade que não faz mais que camuflar a verdade ao de leve, sem nunca esconder de realmente o que quer que seja.
Tu também deves ter os teus podres. A diferença é que não os quero conhecer. As tuas falhas, quero que permaneçam só tuas, a menos que querias partilhá-las comigo.
Tantas vezes ergo a câmara na tua direcção.
Hesito com o dedo sobre o “Capture”.
Os minutos passam e eu pareço uma estátua presa no tempo.
Acabo sempre por recolher a ferramenta, sem ter pressionado o botão uma só vez.
Gosto deste relacionamento. Deste desconhecimento total que tenho em relação a ti. Tão diferente do que tenho com os restantes. Tão mais confortável. Assustador, sim, mas também extremamente confortável.
“Promete-me que um dia vais tirar o meu retrato e que será o melhor de sempre.”
Por momentos aquele brilho característico regressa ao teu olhar. Tenho a certeza que o meu rosto mostra surpresa.
“Prometes?”
Afagas levemente o teu ventre proeminente. Não é intencional no meio da conversa, mas de alguma forma esse gesto faz desaparecer o brilho novamente.
Quero perguntar-te tantas coisas sobre a criança.
Quem é o pai?
Onde é que ele está?
Porque vos abandonou?
Mas sou um covarde e por isso mantenho-me em silêncio.
Será por isso que te sentes tão à vontade comigo? Porque não te questiono como todos os outros fazem. Todos os curiosos e coscuvilheiro que não querem mais do que ter razões para se deleitar na miséria dos outros, ao invés de ponderar sobre a sua.
“Sabes…”
A tua pausa parece durar uma eternidade.
“Gostava mesmo que tirasses uma foto de nós os dois. Só tu conseguirias captar verdadeiramente o que sinto por esta criança.”
Fico abismado enquanto observo o brilho regressar. Sempre soube que nutrias um amor incondicional pelo bebé que carregas no ventre, mas também era por ele que mostravas a maior tristeza que os teus olhos poderiam carregar.
Voltas o teu olhar para mim e suplicas-me, sem palavras, que realize o teu desejo.
Nem eu seria capaz de recusar.
Pego numa velha cadeira que está encostada a um canto e trago-a para o pé de ti, atrás do balcão.
Peço-te que te sentes, da forma mais confortável que puderes.
Afastas ligeiramente as pernas e viras-te um pouco de lado, apoiando as costas na cadeira que chia. As tuas mãos repousam suavemente sobre a tua barriga de quase nove meses.
Sempre pensei que fosses daquelas mulheres curiosas que não esperaria até ao nascimento para saber o sexo do bebé, mas surpreendeste-me ao revelar que não pretendias fazê-lo.
Relaxa.
Ficas silenciosa.
É estranho.
Vejo-vos através do visor da câmara.
Hesito.
O teu leve sorriso e o brilho nos teus olhos … quero aprisioná-los na película, mas temo o resultado.
Pressiono o botão.

No meu estúdio escuro, revelo cuidadosamente o rolo que usei para tirar fotografias tuas.
Não sei o que deva sentir, pois depois da minha relutância inicial, acabei por não conseguir parar de te tirar fotos. Tu que, divertida, mudavas de posições e esbanjavas sorrisos como já não te via fazer desde que regressara à vila, sete meses atrás.
Estranhamente não sinto grande receio enquanto espero que as películas sequem. Tento não olhar fixamente para elas, pois só quero vê-las fora do estúdio.
Pode ser ridículo, mas não quero descobrir-te no mesmo local que vi todos os outros por aquilo que realmente são.
Saio do quarto, com as fotos na mão. Sento-me no sofá e respiro fundo. Não há como negar que estou nervoso.
Talvez não devesse vê-las a fundo.
Seria melhor entregá-las e nunca lhes prestar atenção.
Lentamente baixo o olhar para as fotos.
Nada.
Não há nada a sujar a imagem, nada a rodear-te em obscuridade.
Nada.
Nunca tinha visto uma imagem capturada tão limpidamente. Nunca vira um sorriso tão verdadeiro e uma completa ausência de ressentimentos, culpas e tristezas.
Seria possível que eu estivesse todo aquele tempo a pensar demais?
Será que tu não tinhas mesmo nada a esconder?
À medida que visualizo cada uma das tiragens, acredito que sim. Que nada te havia manchado e que tu conseguias assim criar a mais bela das fotos.
Até que cheguei à última. Aquela que tinha sido, de verdade, a primeira a ser tirada, quando ainda não estavas suficientemente descontraída.
A sombra negra que paira sobre ti e alcança o seu ventre, com um sorriso assustador no rosto … eu reconheço aquela forma. Sei quem era pois já o tinha capturado com a minha câmara e sabia as coisas que ele tinha feito.
O meu coração acelera o compasso.
Todo o meu corpo treme e sinto uma raiva tão grande que penso não conseguir contê-la.
Aquela besta!
A morte seria punição demasiado leve para ele.

A campainha toca, retirando-me à força do meu estado odioso.
Sinto nojo de mim próprio, pois por momentos tinha imaginado as coisas mais horrendas e tinha arquitectado planos mirabolantes para colocar tudo isso em prática.
Não ia fazê-lo.
Não podia fazê-lo.
Tu és quem devia odiá-lo, e mesmo assim escolheste perdoá-lo. Quem sou eu para negligenciar essa decisão?
Abro a porta e sinto-me ainda mais enojado ao aperceber-me que tenho de forçar um sorriso para receber-te. Tenha vergonha de mim mesmo.
“Disseste-me que podia passar por cá quando fechasse a loja.”
Entras, sem grandes cerimónias. Afinal já conheces os cantos à casa.
“Já estão prontas?”
Vês o monte que espalhei na mesa da sala e pareces brilhar de excitação.
“Posso vê-las?”
Tenho a boca seca. Limito-me a acenar e tu caminhas o mais rápido que podes até lá. Sentas-te e reparo que tens muito cuidado para não bateres com a barriga na mesa. O bebé deve estar quase a nascer. Essa criança que nasceu de uma noite que te marcará para sempre.
“UAU! Estão lindas.”
Posso apenas imaginar pelo que tenhas passado.
És muito mais forte do que alguma vez te julguei. Sinto vergonha por ter sequer ponderado a tua fraqueza, a tua vergonha. És mais do que alguma vez poderei desejar ser e só espero nunca te magoar.
“Não sei como consegues. Eu nunca fui fotogénica, mas estão … estão … olha nem sei.”
Estão muito aquém da realidade, essa é a verdade.
“Podes colocar esta em tamanho maior? Quero pendurá-la lá na loja.”
Escolheste bem. Não só a foto capta uma grande parte do teu estabelecimento como tu irradias de beleza nela.
“Estou indecisa. Quais devo aumentar?”
Aumenta-as todas.
“AHA! Não posso. Onde as ia colocar?”
Podes ter a certeza que ficarão penduradas nas paredes do meu coração para sempre.
Sou mesmo covarde.
Durante todo este tempo tive medo. Medo de te ver realmente. Medo de me ferir.
Agora que sei a verdade, tenho o mesmo medo, somado ao medo de te magoar mais do que alguma vez poderia a mim mesmo.
“Vais pôr alguma destas exposta na tua galeria?”
Não tenho tempo para te responder que sim. Claro que sim!
“AHA! Claro que não. Tens fotos de gente tão mais bonita. Porque havias de ocupar um espaço comigo?”
O teu riso não é nervoso, nem falso. É como música.
É óbvio que vou expor-te. És a minha obra-prima, a única para a qual consigo olhar sem ter de camuflar o meu asco, a minha repulsa. Podia esconder-te dos olhares alheios, mas estaria a ser egoísta.
Vou colocar-te no pódio da galeria, em tamanho três vezes maior que todos os outros.
“Não brinques.”
Nunca.
“A sério? Ah, mas isso é muito embaraçoso.”
Só quero que todos vejam o que eu vejo. Nada mais.
“Estás a deixar-me corada. AHA!”
Este último riso já é nervoso, mas não soa falso.
O teu rosto brilha um rosado tão teu, que já não via à mais de quatro anos. Tinha-me perguntado onde ele tinha ido.
Ainda tens o hábito de conciliar as tuas bochechas vermelhas com as mãos.
Não mudaste quase nada.
Não!
Mudaste muito.
Para melhor …
“Lá estás tu outra vez.”
Quero abraçar-te, mas não sinto que seja o momento apropriado. Ou talvez seja e eu esteja a pensar demasiado sobre as coisas.
Tudo seria mais fácil se eu soubesse ao certo como reagirias, mas tu consegues sempre surpreender-me e por isso temo mover-me demasiado depressa.
Só lá colocarei a foto se me deres permissão. Se não quiseres, basta dizeres-me.
“Bem … não sei … achas mesmo que vale a pena?”
Nunca me senti mais orgulhoso de uma foto. Mas se não estiveres à vontade com isso, eu limitar-me-ei a guardá-las na minha colecção
“Isso é ainda mais embaraçoso.”
Viras o rosto para onde não posso ver a tua expressão.
Não sei como devo interpretar essa tua resposta.
O silêncio toma conta de nós e sinto que devo dizer algo, fazer algo para o quebrar.
Temo arrepender-me mas os meus braços já rodeiam os teus ombros antes mesmo que me dê conta do que estou a fazer.
Ficas tensa.
Relaxas.
Não fazes qualquer movimento para me afastar e eu deixo-me ficar, sentindo o perfume delicioso a jasmim que sai dos teus cabelos.
Talvez seja melhor mantê-las só na minha colecção.
“É capaz de ser melhor.”
Fechas os olhos e recostas-te na cadeira e nos meus braços.
Não te largarei até que me obrigues a fazê-lo.


Nota: Esta história faz parte do universo de “Alma” um projecto meu que começou por ser uma novela gráfica, mas que provavelmente terminará em romance.

Nota 2: A pessoa na fotografia é uma amiga. Espero que não leve a mal.

Autor: Ana C. Nunes

I love to write, read and draw. I write novels, draw characters and, sometimes, graphic novels or comics.

4 thoughts on “O retrato

  1. Olá!!! Vim aqui espreitar o teu blog porque a Rafaela disse-me no meu último post que também estás a escrever uma pseudo-autobiografia😀
    Estou a comentar neste post e não no outro porque adorei o texto. Já pensaste em fazer uma continuação? Gostava muito de saber mais sobre as personagens.

  2. Olá Babs, obrigada por passares por cá. Eu já visitei o teu blog e acho que até já comentei umas vezes, mas não tenho a certeza.
    Ainda bem que gostas e, por acaso esqueci-me de o dizer, mas esta história passas-se no mesmo “universo” que um projecto maior e que se chama “Alma”. Esta história foi um fruto do momento e talvez lhe dê continuação, mas ainda não sei ao certo.
    Obrigada.

  3. Tinha lido este conto uma vez e hoje revisitei-a.
    Gosto mesmo muito deste conto, assumi logo uma voz medonha e grave, parecia ser um psicopata a falar. E para mais entra um bébé na história e tudo. Afinal é um tipo que gosta dela. No entanto ao reler lá assumi outra vez a voz medonha (isto é esquisito).

  4. Haha! Que engraçado. nunca pensei que poderia ser interpretado dessa maneira no início, mas agora que falas …😄

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