Caneta, Papel e Lápis

Um blog sobre escrita criativa, de Ana C. Nunes (A blog about writing fiction, by Ana C. Nunes)

Os dois lobos

2 comentários

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Uluru sempre fora uma das mais belas da tribo. Com a sua tez cor de cacau e os seus grandiosos olhos negros, ela desde nova fazia saltar os corações dos homens à sua volta.
Mas para Uluru, esta beleza era como uma maldição, uma prisão que a confinara ao guerreiro mais forte da tribo. Um homem que tinha já duas esposas para além de si, que nunca lhe dava atenção e que gostava apenas de a mostrar como sendo sua e que a desprezava por ainda não ter conseguido dar-lhe um herdeiro.
Numa noite em que a Lua brilhava intensamente sobre o céu estrelado, Uluru abandonou a sua tenda, deixando para trás o marido que havia adormecido depois de a fornicar, embrenhando-se na floresta.
Sentia como se estivesse em transe, sem controlo dos seus movimentos, sem pensar para onde ia ou estranhar o facto de os ganos caídos das árvores lhe cortarem a sola dos pés.
Desembocou numa extensa clareira que nunca antes tinha visitado. Maravilhou-se na sua beleza e caminhou até à rocha que se encontrava no centro. Só, rústica e estranhamente alienada naquele cenário idílico.
A relva massajava-lhe agora os pés, mas ao mesmo tempo fazia arder a carne viva que ali se expusera.
No topo da rocha estava uma malga com um grande pedaço de carne vermelha mas Uluru não sentia fome e por isso não lhe tocou.
Sentou-se e sentiu o frio da rocha percorrer o seu corpo quase desnudo.
Da orla da floresta surgiram duas sombras.
Uluru teve receio, mas não se moveu.
À medida que avançavam na sua direcção, Uluru percebeu que eram dois lobos castanhos. Um tom de castanho em tudo semelhante ao da sua pele.
Um dos lobos tinha o pêlo limpo e liso, como se tivesse acabado de tomar banho e de ser escovado. O outro tinha o pêlo desalinhado, como se tivesse acabado de sair de uma luta feroz. Eram idênticos. Tão idênticos de facto, que Uluru pensou estar a ver o mesmo lobo em dois espaços de tempo diferentes.
Os dois aproximaram-se dela e sentaram-se à sua frente.
Uluru percebeu o que queriam.
Retirou a faca que transportava sempre consigo, presa à cinta, e cortou o pedaço de carne em dois. De seguida atirou um pedaço a cada um dos lobos. Eles devoraram o jantar com avidez e de seguida deitaram-se aos pés de Uluru.
Ela sentia-se bem na companhia deles e passou ali a noite. Naquele local a que só ela parecia ter acesso.
A partir daquela noite Uluru visitava a clareira com regularidade, encontrando sempre a carne e os lobos e alimentando ambos com carinho.
O tempo passava e Uluru sentia-se cada vez mais abatida, mais deprimida e só.
O seu marido batia-lhe constantemente, gritava-lhe várias vezes por dia e insultava-a à frente dos seus pais e familiares, como se ela não passasse de um monte de lixo que se prostrava a seus pés.
Uluru queria retorquir, queria erguer-se do lamaçal onde ele a colocara, mas não tinha forças para tal e sabia que seria castigada se abrisse a boca para dizer o que quer que fosse.
As outras mulheres dele já tinham engravidado três vezes cada, mas Uluru ainda não conseguira uma só vez. Parecia que o seu ventre secara assim que o desposara, mas ele dizia que a culpa era dela. Que fazia de propósito. Que tentava humilhá-lo ao não o brindar com um filho como era seu dever.
Todos os dias, sem excepção.

Uma noite foi particularmente violenta. Ele entrou na tenda quando ela já dormia, rasgou-lhe as roupas e forçou-a a copular, ignorando os gritos e choros dela. Ele foi tão violento que ela começou a sangrar por entre as pernas, mas nem aí ele parou. Continuou a violentá-la e ela ficou sem forças para protestar.
Os seus olhos, conhecidos por serem sempre vivos e translúcidos, ficaram opacos, envidraçados e ela saiu da sua mente para não mais se importar com o que ele fazia ao seu corpo.
Ele continuou, durante horas, proferindo barbaridades sobre ela, sobre o seu corpo e a sua aparente falta de vontade em satisfazê-lo.
Quando finalmente se deu por terminado, deitou-se ao lado dela, de barriga para cima e adormeceu rapidamente.
Uluru deixou-se ficar. Imóvel.

Alcançou a clareira e caminhou lentamente até à rocha. O seu corpo nu repousou na fria superfície mas Uluru nem o sentiu.
Uma vez mais os lobos surgiram, lado a lado, como irmãos.
Ela pegou na carne sangrenta e reparou que não transportava a sua faca.
Mirou os dois lobos que aguardavam ansiosamente.
O mais aprumado abanava alegremente a cauda, aguardando o festim.
O mais sujo e pestilento olhava-a com fervor, passando a língua rosada pelos dentes afiados.
Uluru não hesitou.
O jantar aterrou na boca do desmazelado e ele não se fez de rogado.
O outro lobo ganiu e escondeu o focinho entre as patas.
Uluru observou apática enquanto este último se tornava mais e mais escanzelado, até que conseguia desenhar-lhe os ossos através da pele.
Por seu lado, o outro lobo, crescia e crescia, até Uluru não mais lhe poder ver os olhos e somente vislumbrar o seu focinho por baixo.
Ele estraçalhava o pedaço de carne, divertindo-se e sorrindo enquanto massacrava o naco.
Uluru estava hipnotizada por aquela cena e rapidamente levou as mãos à cabeça, rindo-se tão fortemente quanto podia. Não se conseguia conter e começou a imitar o lobo maior, imaginando ter a faca na mão e cortando algo invisível à sua frente.
O sangue do naco de carne chovia em cima dela e ela recebia-o como uma dádiva, sem nunca parar de se rir ou de mover a lâmina imaginária através da carne invisível.
O lobo franzino caiu no chão e morreu.
Uluru parou para admirar a beleza do animal e o outro lobo terminou de devorar o seu manjar. Desapareceu floresta adentro e Uluru ajoelhou-se ao lado do que não se levantara.
Lágrimas começaram a escorrer-lhe pelo rosto e ela gritou aos céus enquanto tentava limpar o corpo do líquido vermelho que o cobria e que lhe causava asco.

Uluru deixou cair a faca a seus pés e olhou as suas mãos trémulas. O sangue que as pintava era-lhe estranho e tentou limpar as mãos na pele da tenda, sem sucesso. O sangue estava por todo o lado e ela sentiu-se zonza.
Virou-se mas apenas encontrou mais sangue.
Caiu de joelhos e embateu em algo. Tentou perceber o que era, mas estava tão escuro.
Com as mãos foi lentamente apalpando o local.
Os seus olhos vivazes abriram-se ao máximo quando os seus dedos tocaram num longo manto de cabelos.
Ela sabia o que era. Quem era. Sabia no que tinha tocado.
Aquele sangue.
Aquela faca.
Sabia o que significavam.
Sabia o que tinha feito mas não queria acreditar.
Gritou com todas as forças que lhe restavam, clamando pelos lobos.
Só um dos lobos lhe respondeu.

“Foste tu quem me alimentou todo este tempo.”

Nota: Este conto é inspirado na “História dos dois lobos

Autor: Ana C. Nunes

I love to write, read and draw. I write novels, draw characters and, sometimes, graphic novels or comics.

2 thoughts on “Os dois lobos

  1. Ok, vou ser sincera e dizer-te que não percebi nada… mas gostei, e tenho um aperto no peito.

    Isso costuma ser bom sinal. ;D

  2. Imaginei que ia criar uma sensação de o.O qualquer e por isso é que mencionei a busca no google da “História dos dois lobos”. Vai a um dos links que aparece e já percebes o verdadeiro significado deste conto.
    Eu escrevi-o propositadamente de forma confusa, por isso é normal que te percas.

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