Caneta, Papel e Lápis

Um blog sobre escrita criativa, de Ana C. Nunes (A blog about writing fiction, by Ana C. Nunes)

Nascer do sol

4 comentários

18_nascerdosol“Se calhar não vamos encontrar um bom sítio hoje.”
“É bom que isso não seja verdade. Eu não estou para andar o dia todo na mala deste carro. Cheira a mofo lá atrás.”
“E por acaso esqueces-te que eu tenho de dormir?”
“Essa é a menor das minhas preocupações.”
“Claro…”
As conversas entre os dois passageiros do monovolume acabava sempre azeda. Também não ajudava nada ao caso o facto de um deles ser um vampiro.
“Quanto tempo falta?”
A impaciência dele não fazia mais do que aborrecê-la e ela suspirou antes de olhar para o relógio que trazia no pulso esquerdo.
“Mais ou menos meia hora.”
“SÓ! Põe mas é esta sucata a andar que eu quero dormir num local confortável.”
“Porque não guias tu e vemos já se fazes melhor com esta sucata?”
Ele acanhou-se um pouco e murmurou um “cabra” que julgou que a mulher não fosse ouvir.
“AUCH!”
O som oco que o embate da mão dela no crânio dele produziu, foi quase abafado pelo alarido que o motor fazia.
“Quem é que é cabra aqui?”
“Tu! Quem mais? E não me voltes a bater se não eu …”
“Tu o quê? Mordes-me?” – A voz dela perdeu-se por entre os dentes, como se não tivesse grande vontade de proferir as palavras mas ao mesmo tempo sentisse necessidade de o fazer.
“Vontade não falta.” – O jovem rapaz voltou o rosto para o vidro do passageiro, observando a paisagem desértica que pintava o cenário fora do veículo.
O silêncio voltou a instalar-se entre os dois. Um ambiente que já era conhecido de ambos e que se tornava mais reconfortante que as conversas que terminavam sempre em discussões.
“Encontrei um sítio.”
Estas palavras foram como um despertador barulhento que tocou junto ao ouvido do rapaz. Ele saltou no assento e voltou-se para a frente onde viu uma pequena mansão, coberta por trepadeiras e com alguns vidros partidos mas ainda bem conservada.
“Já não era sem tempo.”
Ela estacionou o veículo, sem grandes cerimónias, em frente do alpendre que dava lugar à porta principal.
O rapaz nem esperou que o carro parasse antes de sair disparado para dentro da mansão. Ela seguiu-o pouco depois.
“Este sítio é fabuloso. Até tem cortinas escuras e tudo. Se calhar foi habitado por outros vampiros.”
A mulher sorriu levemente e suspirou. Já estava habituada àquele comportamento entusiástico sempre que encontravam uma casa que ainda tivesse condições suficientes para ele poder repousar durante o dia, sem correr o risco de entrar em combustão com a luz do sol.
Ela caminhou lentamente pela casa, observando todos os seus cantos e móveis poeirentos, cobertos por finas cortinas meticulosamente laboradas pelas aranhas que povoavam o local.
Da sala de jantar tirou uma velha cadeira de madeira e levou-a até à sala de estar, onde a colocou junto à janela, desviando brevemente a grossa cortina preta, para poder avistar o exterior.
Sentou-se.
O rapaz tomou repouso no chão, com os braços apoiados nos joelhos dela e olhando-a com um misto de carinho e inveja. A mão dela estava pousada sobre a dele, acarinhando-o ao de leve.
A luz da manhã iluminou timidamente o rosto dela e um largo sorriso preencheu as suas feições à medida que a luz inundava o céu.
O rapaz observou-a como que em transe e os dois permaneceram ali durante cerca de trinta minutos. Ela enamorada pelo sol e ele filtrado na luz que se reflectia na pele dela, imaginando o calor que o gentil sol estaria a produzir na pele dela e tentando recordar como tal sentia.
Lentamente ela voltou a fechar a cortina e a casa ficou na penumbra. Depois de estarem ambos deslumbrados pela luz, parecia tudo tão mais escuro dentro daquele local.
“Foi um espectáculo lindo. O sol estava extremamente vermelho hoje.”
Ele não respondeu e limitou-se a fixar o olhar no chão, como que envergonhado pelo seu comportamento.
Ela levou as suas mãos ao rosto dele e ergueu-o de encontro a si. Num gesto de puro carinho, encostou o rosto dele de encontro ao seu.
Ele deu um salto ao sentir o calor que se armazenara na pele dela, mas rapidamente se acalmou e fechou os olhos para saborear o único que lhe restava do sol.
Afastaram-se ligeiramente e ela, com as mãos ainda no rosto dele, baixou-o para lhe poder plantar um leve beijo na testa. Ele manteve os olhos fechados.
“Eu serei o sol da tua vida. Até ao dia em que morrer.”
Ele abriu os olhos e fixou o olhar nela. Aquela que era sua irmã mais nova e que agora envelhecia a olhos vistos. Os dois viajavam juntos há mais de trinta anos. Ele, como uma estátua, não mudava com a passagem do tempo. Ela, crescendo, amadurecendo e envelhecendo como a poeira que se acumulava nos móveis daquela casa. Chegaria o dia em que os móveis ficariam invisíveis debaixo do seu manto. O mesmo aconteceria com ela. Mas enquanto pudessem, ambos desejavam permanecer juntos. Por mais doloroso que fosse para ambos, por mais que isso os impedisse de viverem normalmente com os da sua espécie.
“E eu serei a sombra que nunca se afastará ou desaparecerá.”
Ela sorriu gentilmente.
Os dois entraram no quarto que ele havia limpo anteriormente ela deitou-se na cama, enquanto ele se ajeitou no sofá que trouxera propositadamente da sala de estar.
Com as mãos entrelaçadas entre a cama e o sofá, os dois adormeceram rapidamente e dormiram o sono dos justos, até que o dia terminou e a sua viagem prosseguiu.

Para os curiosos: Esta história passa-se no mesmo universo que o “Angel Gabriel”.

Autor: Ana C. Nunes

I love to write, read and draw. I write novels, draw characters and, sometimes, graphic novels or comics.

4 thoughts on “Nascer do sol

  1. O quê, eu ainda não tinha comentado isto? Mas adorei da primeira vez que li!

    Aliás, seria muito mau dizer-te que estes dois me soam muito Angel/Gabriel mas ao mesmo tempo tem pouco ou nada a ver? Aliás, acho que até gosto mais destes.

    Vou tirar algum tempo para deliberar.

  2. Oh não, espera, não são a Amilda e o Catalysm, pois não?

    Isso seria óptimo material de fanfiction, acho que vou começar a trabalhar nisso.

  3. Por acaso não. Nem tinha pensado que poderia dar confusão.
    É sobre a Gigliona, uma personagem que apareceu um pouco no capítulo 4 e 5 (se não estou em erro). Foi ela quem ajudou a Angel a fugir, se é que estás lembrada.

    E fanfiction? *drolls and faints*

  4. Aha! Se calhar até parecem, mas não foi propositado porque o amor destes dois é claramente de irmãos e nada mais. Esta história tem continuação, mas ainda não está escrita.

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