Caneta, Papel e Lápis

Um blog sobre escrita criativa, de Ana C. Nunes (A blog about writing fiction, by Ana C. Nunes)

Pânico

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17_panicoE tudo começou assim, sem mais nem menos, sem precedentes ou avisos, como uma tempestade que parece surgir do nada e começa a despejar chuva nos insuspeitos que passeiam pelas ruas com as suas roupas frescas, sem mangas, em calções e possivelmente até com óculos de sol.
Mas isso agora não interessa nada.
Eu não estou no meio de nenhuma tempestade e muito menos tenho óculos de sol. Também não faziam falta nenhuma neste negrume que me envolve dos pés à cabeça e não me deixa sequer ver a ponta do meu gelado nariz. Por falar em gelado … o meu preferido é aquele com amêndoa, muito chocolate e um toque de menta. Mhm … Delicioso!
Mas lá estou eu a divagar novamente.
A verdade é que estava eu muito entretida a ver televisão – um daqueles programas repetitivos mas que acabamos sempre por ver porque não dá mais nada de jeito na TV -, recostada o meu velho sofá, quando senti uma leveza enorme na cabeça.
Imagino ter desmaiado porque quando acordei dei por mim num local desconhecido, coberto pela escuridão e a cheirar a peixe podre com cobertura de batata mais podre ainda. Yuck!
Agora a sério … estou parva com a minha calma.
Quer dizer.
Aqui estou eu, sozinha, sem saber onde, quando e como estou e não me sinto a entrar em pânico.
Se calhar é melhor não pensar muito nisso porque já sinto o coração palpitar com o simples pensamento de não estar nervosa.
Quão estúpido é isso?
Não oiço um único som para além da minha própria respiração. Sinto como se eu própria fosse algo alienígena, estranha a mim mesma. Não estou capaz de reconhecer esse som como sendo parte de mim e isso é algo assustador. Mas não muito.
Queria ter medo.
Juro que queria.
Assim ao menos sabia que estava reagir de forma normal.
Agora isto?
Nem sei que pensar?
É estúpido.
Aliás …
SOU estúpida!
Ah!
Já sinto a respiração mais ofegante.
Sim. Aquela mesma que não parece bem minha mas que eu sei ser, por mais que o meu cérebro tente pregar-me partidas e dizer-me que não.
Será que estou só?
Será que é mesmo a minha respiração que preenche o pesado silêncio?
Ui que fixe!
Estou a ficar paranóica.
Isto sim é o máximo.
Que se lixe a compostura.
Qualquer pessoa nesta situação teria de entrar em pânico absoluto e começar aos berros, até que começasse arrancar cabelos e a partir unhas enquanto tentava furar a parede de argamassa que a confinava.
Já agora …
Existem paredes aqui?
É que nem sequer me dei ao trabalho e tentar sair daqui. Limitei-me a ficar sentada e ver – ou nem tanto – o tempo passar.
Ah!
Se calhar isso foi o primeiro impulso de pânico.
Sou mesmo estúpida!
Tenho de me arrastar pelo chão e tentar encontrar uma saída.
Força mulher.
Tu consegues.
Tu consegues.
Mas se calhar é melhor ficar aqui quietinha à espera que alguém apareça.
É isso!
Vou ficar sentadinha no meu canto – mais propriamente no meio porque não estou encostada a nenhuma parede – até que os meus captores – ou captor – se dignem a fazer-me uma visita e explicar-me porque aqui estou.
É isso.
É isso …
Não me vou mexer nem um milímetro.
Não lhes vou dar esse prazer.
Vou ficar aqui a ruminar sobre a vida e sobre o porquê da minha respiração estar cada vez mais errática.
Deve ser o pânico.
Aquela coisa que eu tanto desejava que me afligisse.
É isso.
De certeza.
Pânico.

Autor: Ana C. Nunes

I love to write, read and draw. I write novels, draw characters and, sometimes, graphic novels or comics.

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