Caneta, Papel e Lápis

Um blog sobre escrita criativa, de Ana C. Nunes (A blog about writing fiction, by Ana C. Nunes)

Momentos 05

7 comentários

momentos_01E o que temos cá hoje?
Parece que é um tema algo sensível.
Racismo na Literatura.
Credo!
E Também há o facto de os escritores mostrarem mais do que querem.
Sr. Virilha. A culpa é sua.
Nós os musos não temos culpa. E é Viridis, por favor.
Se calhar fazem de propósito.
Não fazemos nada.
Então de quem é a culpa?
Dos autores, claro!
*Ahem*
-silêncio-
Acho que ouvi uma voz do além.
Não é do além. É ela! A lenda … A autora.
Aquela que não faz nada o dia todo?
*Ahem*
-silêncio-
É melhor ficarmos por aqui.
Sim é melhor.

Depois de ler esta entrevista ao autor China Miéville (cujo livro The City & The City eu tenho muita vontade de ler), lembrei-me de algo que sempre me intrigou na escrita fantástica (e não só). A questão do racismo e o facto de, muitas vezes sem nos darmos contas, transmitirmos para o papel as nossas crenças, dúvidas e pontos de vista (quer sejam bons ou maus).

O excerto seguinte foi o que despoletou esta questão:

«Yes, I heard about RaceFail ’09 some time after the event, and rather regret not having been there while it was going on. The category of Political Correctness is so nebulous that it’s rarely very helpful, particularly because it is often used disgracefully as a stick with which to beat anti-racists or progressives. In the broader sense, I absolutely do think that the implicit politics of our narratives, whether we are consciously “meaning” them or not, matter, and that therefore we should be as thoughtful about them as possible. That doesn’t mean we’ll always succeed in political perspicacity—which doesn’t mean the same thing as tiptoeing —but we should try. So for example: If you have a world in which Orcs are evil, and you depict them as evil, I don’t know how that maps onto the question of “political correctness.” However, the point is not that you’re misrepresenting Orcs (if you invented this world, that’s how Orcs are), but that you have replicated the logic of racism, which is that large groups of people are “defined” by an abstract supposedly essential element called “race,” whatever else you were doing or intended. And that’s not an innocent thing to do. Maybe you have a race of female vampires who destroy men’s strength. They really do operate like that in your world. But I think you’re kidding yourself if you think that that idea just appeared ex nihilo in your head and has nothing to do with the incredibly strong, and incredibly patriarchal, anxiety about the destructive power of women’s sexuality in our very real world. These things are not reducible to our “intent”—we all inherit all kinds of bits and pieces of cultural bumf, plenty of them racist and sexist and homophobic, because that’s how our world works, so how could you avoid it?»

Lembro-me de quando surgiu o filme do “Senhor dos anéis” eu ter dado por mim a pensar: Mas será que todos os Orcs são maus? Não tem lógica catalogarem uma espécie inteira como sendo maldosa.
Isto para mim nunca fez sentido pois não acho que a maldade, bondade ou espírito violento estejam de algum modo relacionados com a nossa cor de pele, lugar de nascença, ascendência, estatuto social, crença, ou outro factor semelhante.
Acontece o mesmo em algumas histórias de ficção científica, onde uma raça inteira alienígena não fazem mais do tentar exterminar a raça humana por razão nenhuma (ou porque querem tomar posse do nosso planeta).
O problema é o mesmo.
São todos os extraterrestres maus? Não há nem sequer uma pequena parte que se rebele e tente seguir outro caminho?
Claro está que também existem muitos livros (e filmes e outros) que exploram essa mesma vertente. O lado do bom versus maus dentro de uma outra raça/espécie que não a nossa. E esses livros podem chegar a ser muito bons. Mas os outros, fazem-me impressão.
Não há lógica! Não é realista dizer que uma espécie, uma comunidade, ou mesmo um grupo, tem pessoas que pensam todas exactamente da mesma forma, como autómatos programados só para aquilo e nada mais (a menos que a própria história estipule isto como sendo a realidade dos factos).
Como escritora (amadora), desde sempre, e inconscientemente, tentei evitar este caminho de generalização.
Porque não há só pessoas más ou boas. Há meios termos. Há pessoas que são boas mas também são capazes de cometer actos atrozes, assim como há gente de má índole capaz de um pouco de gentileza e até compaixão. Claro que também há extremos. Mas estes não estão delimitados numa cor de pele, numa espécie, num planeta, numa crença ou num ambiente.
Se duas pessoas nascerem e crescerem em ambientes exactamente idênticos, até ao mais ínfimo pormenor, elas ainda assim não pensarão da mesma forma, agirão da mesma maneira ou terão as mesmas reacções a situações semelhantes. Porque todos somos diferentes e porque todos temos a capacidade de nos adaptarmos às circunstâncias, absorvermos informações de formas e modos diferentes de todos os que nos rodeiam.
Claro que neste ponto todos teremos ideais diferentes, porque todos somos diferentes, mas a mim parece-me algo inverosímil uma história (livro, filme) onde um grupo de pessoas, adjectivados pela sua raça, ideologia ou origem, sejam catalogadas como idênticas, sem algo que as torne únicas e capazes de pensamentos individuais e possivelmente conflituosos com os restantes, sem que isso pareça pouco natural.

O que pensam vocês?

Autor: Ana C. Nunes

I love to write, read and draw. I write novels, draw characters and, sometimes, graphic novels or comics.

7 thoughts on “Momentos 05

  1. Estou contigo, all the way. É uma coisa que me… incomoda bastante. Não só por ser racista, mas sim por ser uma visão tão simplificada do mundo e da mente.

    Nem todos os aliens são maus, nem todos os vampiros são maus *hint*, e nem todos os… sei lá, tipos da Nação do Fogo são maus!😀

  2. lol
    Do que tu te foste lembrar (tenho saudades do “Avatar”). E do meu querido Gabriel (ele anda furioso por eu não o escrever).

  3. O Cristopher Paolini, que é o traste que é, lá pôs o seu Eragon a ter que lidar com o seu ódio à Versão-dos-Orcs, o que acho interessante, já que é um rip-off de Tolkien que sempre ganhou uma certa consciência ao longo do caminho. Li ainda há pouco tempo um excerto em que um soldado de um posto avançado vai matando vários extraterrestres, desesperado e repugnado pelas criaturas, com as suas… duas pernas, par de olhos e cor lívida. E a saga de fantasia que para aí tem sido mais badalada, a do George Martin or whatever, diz que substitui a moralidade branco-preto por moralidade cinzenta. Ou por moralidade cinzenta-preta. Cortesia do TVtropes: http://tvtropes.org/pmwiki/pmwiki.php/Main/GreyAndGrayMorality

    O Tolkien era um retrógado, católico (digo isto como se fosse a peste🙂 ), moderadamente sexista, e… agora o golpe de misericórdia… claramente alegórico. Tenho dito.

  4. Nem precisamos de ir a filmes, o cinema e mesmo “estudos científicos” estão cheio de preconceitos desses. Desde o Italiano ser mafioso, o negro ser criminoso, o Russo ser perigoso, até ao mais recente estudo em que colocavam duas bonecas em frente a crianças de todas as cores e lhes perguntavam qual era a boneca bonita e a feia, a boa e a má.

    Uma boneca era negra com carapinha, a outra branca de olhos azuis. Todas as crianças sejam brancas ou negras identificavam a boneca branca, loura de olhos azuis como a boa e a bonita, sendo a negra feia e má.

  5. Nem precisamos de ir a livros… era o que queria dizer.

    E queria também salientar, que apesar do racismo ser errado, na verdade existe a liberdade de expressão e mesmo um racista tem o direito de dizer que o é.
    Devemos sim repudiar os que o são e negam.
    Um branco dizer que não gosta de negros é no fundo o mesmo que eu dizer que não gosto de comunistas e não me refiro ao peixe. Na verdade expor a nossa forma de pensar não é ilegal, ilegal seria que agíssemos contra terceiros.

  6. Já tinha ouvido falar nessa das bonecas, mas parece-me incrível que nem uma das crianças tenha escolhido de forma diferente. Eu quando era pequena teria muito provavelmente escolhida a boneca negra como sendo mais bonita. Não me perguntes porquê mas sei que seria a minha escolha.

  7. Sim claro. Afinal cada um tem direito às suas opiniões. Mau é quando isso traz conflitos, violência e especialmente discriminação.

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