Caneta, Papel e Lápis

Um blog sobre escrita criativa, de Ana C. Nunes (A blog about writing fiction, by Ana C. Nunes)

Efeito Dominó -excerto-

4 comentários

À medida que me aproximava cada vez mais do local ao qual chamava de lar, o meu coração parecia ser esmagado. Era como se alguém o estivesse a apertar com força entre duas mãos fortes, e isso era um mau presságio. Sempre que eu me sentia dessa forma era sinal de que algo de ruim estava para vir, o que só servia para me agonizar mais ainda.

Ao longe avistei finalmente a casa de meus pais. Sorri ao notar que nada parecia fora do normal mas muito rapidamente esse sorriso desapareceu pois notei a porta entreaberta. O meu pai era sempre muito cuidadoso e se alguém deixasse a porta da rua aberta, era sermão que estava para vir, por isso nós estávamos sempre habituados a nos certificarmos de que a porta estava devidamente fechada.

Passei o portão e parei abruptamente no alpendre. Fiquei a olhar para a porta durante largos minutos. O meu corpo suado, a roupa colada ao corpo e a respiração rara, parecia até que me faltava o ar, o que não estava muito longe da verdade.

Com o pouco de coragem que ainda me restava, caminhei até á porta. Estiquei a mão na direcção do puxador redondo da porta principal, e quando estava prestes a alcançá-lo recuei a mão. Senti as forças desvanecerem-se á medida que o tempo passava e eu não ouvia som algum a vir de dentro da minha casa. A esta hora a minha mãe, o meu pai e o meu irmão já estavam todos em casa e era difícil de acreditar que nenhum deles estivesse a fazer qualquer tipo de barulho.

Com a mão direita contra o peito, tentei concentrar-me e procurar o mais pequeno ruído, já que por mais pequeno que fosse, traria sem dúvida um grande alívio ao meu coração palpitante. Naquele momento parecia que até esse pequeno orgão vital queria sair aos pulos pela boca afora.

Engoli em seco e preparei-me novamente para abrir a porta. De certo que ficar ali á espera não me levaria a lado algum. Assim que a minha mão tocou no puxador de madeira, senti um arrepio a percorrer-me a espinha. A minha respiração, que já havia voltado á normalidade, estava agora novamente rara e difícil, sentia como se estivesse a cair num poço bem fundo, do qual não conseguia avistar o fim.

Naquele momento, sem qualquer razão aparente, recordei-me que no meio de todos os recentes acontecimentos, eu havia deixado a minha mochila caída no chão, perto do portão da escola. Não que isso fosse importante, mas de certa forma serviu para me descontrair um pouco, devido á tensão da situação.

A porta de madeira rangeu à medida que eu a puxava em direcção a mim. Uma vez mais engoli em seco e tentei soar despreocupada á medida que anunciava a minha chegada a casa. – Cheguei! – Quando a porta estava já completamente aberta, eu pude ver o hall de entrada. Nada de muito grande, possuía apenas uma pequena mesa e um chaveiro na parede, assim como um bengaleiro.

Quando não ouvi resposta alguma, não consegui evitar segurar-me no bengaleiro que se encontrava do meu lado direito. Tinha um nó no estômago e a minha visão já não estava muito clara. Parecia sufocar naquele corpo masculino, mas de certa forma eu sabia que a culpa não era da minha forma humana, mas sim da angústia que sentia bem fundo no coração. Mas estava decidida a saber o que se passava, e por isso, em passos pequenos e inseguros, caminhei até perto da porta da sala.

O meu pai costumava estar lá a esta hora, a ler o seu jornal. Assim como a porta de entrada, esta encontrava-se também entreaberta.

– Pai? – a minha voz saiu rouca e incerta e quando mais uma vez não obtive resposta senti o meu coração pular e parar abruptamente. As lagrimas rolaram-me pela face e as palavras seguintes saíram de uma forma estranha por entre os meus lábios, parecendo afogadas nas minhas lágrimas. – PAI? – abri a porta com um murro, temendo o que encontraria dentro da minha própria sala.

Não sei o que senti naquele momento. Se um grande alívio ou se uma angústia ainda maior. Talvez fossem até os dois sentimentos misturados num só, quem sabe?

A sala de estar estava vazia. O jornal repousava intacto em cima a mesa, esta rodeada pelos sofás. Tudo parecia em ordem. Respirei com alívio, talvez eles tivessem saído e se esquecido de me avisar. É! Devia ter sido isso.

Excerto do projecto “Efeito Dominó”, escrito em 2004

Autor: Ana C. Nunes

I love to write, read and draw. I write novels, draw characters and, sometimes, graphic novels or comics.

4 thoughts on “Efeito Dominó -excerto-

  1. Alright. Diz-me que estamos a falar de uma criança shape-shifter e vou amar-te para sempre!😀

  2. Pagam-te para seres bruxa? É que eu acho que não dei isso a entender neste excerto. Ou será que sim?

  3. Bruxa? Pff, espia!

    Nah, não deste a entender de forma óbvia. Mas mencionaste uma mochila, e só as crianças/adolescentes andam na escola. Tratas a tua personagem no feminino, mas ela refere um corpo masculino. Logo… SHAZAM! É o meu sexto-sentido a funcionar.😉

  4. A percepção inata das/os escritoras/es. Eu também acho que percebo certas subtilezas mais depressa que os outros (ou se calhar acho que tenho rei na barriga e sou mais que todos XD).

Comente / Comment

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s