Caneta, Papel e Lápis

Um blog sobre escrita criativa, de Ana C. Nunes (A blog about writing fiction, by Ana C. Nunes)

Fadas

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12_naturezaA escuridão começou a dar lugar a uma luz tímida e ténue, que aos poucos invadiu os céus, brindando as montanhas e prados com claridade.

As flores mais tímidas, que se expõem apenas quando o sol as acorda e se recolhem assim que a escuridão cobre o céu – como crianças que pedem aos pais para deixarem o candeeiro acesso durante a noite, com medo dos monstros que vivem debaixo das suas camas e dentro dos seus guarda-fatos – deixaram-se embalar pelo vento matinal e abriram as suas belas pétalas, expondo os tesouros que protegiam das intempéries.

Milhares de pares de asas, das mais variadas cores e feitios, ornamentaram os prados com os seus voos rasantes e as suas corridas matinais, que mais não passam de rituais de celebração. Uma forma de se cumprimentarem pela manhã e planearem o dia que se iniciava e que prometia ser muito solarengo.

Uma pequena fada com asas de um suave rosa e um garrido verde, esticou os seus quatro longos membros e as suas duas antenas, antes de levantar voo da Papoila que a tinha albergado do frio da noite.

“Obrigada doce Papoila.”

A flor tremeu levemente, soltando um pouco de pólen, como um simples “Volta sempre” que a pequena fada entendeu com um sorriso.

O seu trabalho consistia em polinizar as Papoilas que a acolhiam de pétalas abertas e que gentilmente lhe sediam as suas sementes.

Outras das fadas estavam encarregues das mais diferentes espécies de flores. Estavam separados por grupos e a cada grupo cabia a função de propagar uma espécie de flora. Era um trabalho extremamente recompensador!

“HUMANOS!”

Quando ela ouviu as palavras serem gritadas por cada vez mais das suas colegas, percebeu que era tempo de evacuarem.

Sacudiu o seu corpo violentamente e com as suas patas dianteiras cobriu o seu rosto, com movimentos frenético.

Dos seus membros saia uma mucosa muito especial que permitia criar uma máscara em torno do seu rosto. Quando terminou parecia uma qualquer outra borboleta do planalto.

Esta era uma medida que tomavam sempre que haviam humanos nas imediações.

No passado não o faziam e acabaram perseguidos e dissecados pelos vis seres que os achavam tão peculiares. Agora, desde há muitas gerações, tinham ordens para se camuflarem e assim impedirem que os humanos os julgassem como sendo mais que pequenas e frágeis borboletas.

Não era uma medida infalível, já continuavam a ser caçados e coleccionados, mas ao menos não era tão mau como houvera sido em tempos. Chegaram a estar à beira da extinção, antes de resolverem tomar estas medidas.

Levantou voo, tendo de deixar o seu trabalho a meio, e começou a seguir as outras fadas que batiam as suas asas com força, continuando a bradar o nome das criaturas que tinham aprendido a temer.

Uma estranha sombra cobriu o seu corpo e quando se deu conta já estava rodeada por enormes grades de cor creme.

“Apanhei uma!”

A pequena fada suava e remexia-se na sua prisão, tentando encontrar uma frincha por onde pudesse escapar. Nada!

“Deixa ver, deixa ver!”

A claridade surgiu por detrás dela e ela virou-se, com dificuldade, esperançosa.

Entrou em pânico!

O enorme círculo azul que a observava atentamente era ainda mais ameaçador do que imaginara. Recuou a medo para a parte mais afastada da sua cela e embateu com as pequenas patas nas moles paredes do seu cativeiro

“Tão linda!”

“Agora é a minha vez.”

O globo ocular azul foi substituído por um negro como a noite.

“É um bocado feia. Olha para aquelas patas. Nojento!”

“Não entendes nada! As borboletas são lindas! Já viste aquelas asas?”

“Mas o resto do corpo …”

“Não percebes nada!”

“Vocês, raparigas, é que são muito esquisitas. O que é que há de bonito numa coisa assim?”

“És um parvo!”

Fez-se um silêncio mas a pequena fada sabia que estavam em movimento porque embatia com a cabeça e as asas de um lado para o outro, incapaz de controlar o movimento, tentando a todo o custo estabilizar-se ou voar dentro daquela gaiola que apenas deixava umas pequenas grades vermelhas por onde sentia um pouco do calor do sol.

Imaginou-se a ser enfiado numa daquelas prisões de vidro sobre as quais já tinha ouvido falar tantas vezes. Viva? Morta? Tudo dependia do seu carcereiro, mas uma coisa era certa, mais tarde ou mais cedo sucumbiria. As fadas não foram feitas para estarem presas!

“Que queres fazer com ela?”

“Não sei …”

“Vá decide! Queres que a mate para depois a expores no teu quarto?”

“NÃO! Isso é tão cruel!”

“Então?”

“Solta-a.”

“Ah? Tive eu este trabalho todo para agora a soltar?”

“Eu não quero matá-la. Coitadinha!”

“És mesmo estranha.”

“Não sou nada!”

“Como queiras.”

Quando voltou a sentir o calor dos sol e a ver o céu azul e as nuvens brancas, a pequena fada teve vontade de chorar. Não percebia as motivações dos seus captores mas apressou-se a levantar voo e afastar-se dos dois pequenos humanos que a observaram de olhos arregalados.

“Tão linda!”

“Raparigas…”

Parou o seu voo por momentos, para olhar para trás. Os dois humanos continuavam de olhos postos em si, especialmente aquele que tinha o pelo mais comprido e era mais baixo. Tinha um sorriso aberto nos lábios, acenando com os dois membros superiores na sua direcção, como que enviando-lhe uma mensagem que ela não compreendia.

Voltou-se e seguiu viagem prado afora, até onde sabia estar o seu bando.

Desta vez tinha escapado e sabia que tinha sido graças à camuflagem, e talvez, um pouco graças à gentileza daqueles humanos que felizmente pareciam não possuir a malícia tão característica da sua espécie.

Ela sentiu-se afortunada. Muito mesmo!

Submetido ao desafio “As nossas crianças” da Fábrica de Histórias

Autor: Ana C. Nunes

I love to write, read and draw. I write novels, draw characters and, sometimes, graphic novels or comics.

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