Semanário 29

semanário_23Finalmente consegui dar início à escrita do “Através do vidro“.
Não sei quantas palavras escrevi porque o que fiz foi à mão (ainda tenho de passar para o computador), mas já é um começo.
Voltei a falhar com o “Conto de sexta” (que agora poderá ser colocado também aos sábados ou domingos) e isso é imperdoável. Vou tentar compensar trazendo esta semana dois ou três contos. Vamos ver se consigo fazer isso (espero bem que sim).

E acho que é tudo. Claro que as ideias não pararam de fluir, mas em termos de produção foi só isso.

Momentos 04

momentos_01Isto tem andado tão calmo.
O Virilha foi de férias.
É Viridis! E não fui de férias.
Mas não tens trabalhado como deve de ser.
Eu até já aumentei o número de “tea times” diários.
Há alturas assim. Até as musas precisam de pausas…
Kit-kat!
Para colocar as ideias em ordem. Dizia eu.
Quero ver isso.

E cá estamos nós, de volta a mais  um interlúdio. Desta feita o tema é a Invasão da mente. E não. Não me refiro a invasões extra-terrestres.

Algo que me acontece muitas vezes (e que imagino ser característico de grande parte dos escritores (amadores incluídos)) é o estar naquela fase do quase sono e ter uma ideia fantástica para uma cena fenomenal num novo projecto que me surgiu do nada.
O que acontece?

Levanto-me. Tropeço no baú e guincho porque sei que vou ter o joelho pisado no dia seguinte. Corro a alcançar um caderno e vasculho por uma caneta que está no seu sítio de sempre mas que eu falho em encontrar. Lembro-me finalmente de ligar a luz (visão iluminada esta, não).
Escrevinho no papel pautado ou liso (depende de qual me cair nas mãos primeiro), em letra ridiculamente ilegível e que provavelmente não entenderei na manhã seguinte.
Recordo-me que me esqueci de colocar os óculos quando dou por mim a colar o rosto à folha ao mesmo tempo que escrevo. Não me dou ao trabalho de os colocar, mas resmungo porque me doem as vistas. Termino.
Deixo o caderno aberto à frente do computador e a caneta a balouçar em cima dela, prestes a cair a qualquer instante.
Apago a luz e volto para a cama. Aconchego os lençóis. Fecho os olhos numa tentativa fútil de voltar ao estado pré-sono.
Passam-se minutos e eu finalmente consigo voltar ao ciclo que me permitirá dormir até de manhã.

Mais uma ideia!

Ergo-me com um salto. Quem sabe a ideia não foge antes de eu alcançar o papel?
Tropeço novamente no baú. Saltito até à mesa do computador, massajando o meu tornozelo. Desta vez lembro-me de ligar a luz e rapidamente escrevo o que está a ocupar-me a mente.
Sinto-me pronta para tudo. A vontade de ligar o computador e começar a teclar é enorme e nem as dores de cabeça, fruto da falta de óculos, me demove dessa ideia.
Olho para o relógio. São 2,30h da manhã. Acabo de expor as sequências no papel e volto para a cama. Esqueci-me de apagar a luz. Prontos! É desta que durmo!
Deitada de papo para cima, não tenho vontade de fechar os olhos e as imagens da minha história começam a passar à frente dos meus olhos, como uma autêntico filme numa sala de cinema, com sistema 3D incorporado e tudo.
Viro-me para a esquerda.
Rebolo para a direita.
Ajeito as calças do pijama que entretanto já estavam quase na parte contrária do meu corpo e a meio das pernas, sem que eu percebesse muito bem como isso se tinha passado.
Dou voltas e mais voltas até que, sem me dar conta, acabo por adormecer.

No dia seguinte olho para os papéis em que apontei as minha sonolentas novas ideias. Não entendo metade do que lá está escrito, mas felizmente ainda tudo está fresco na minha memória. Decido apontá-las digitalmente. E lá vou eu toda contente escrever no documento “Ideias”, a juntar à enorme pilha que lá se acumula de dia para dia.

Será que algum dia poderei escrever tudo aquilo de forma satisfatória?
Talvez!
Mas é provável que não. Quando chegar a altura de isso acontecer, é fácil de imaginar que ache as ideias já caducadas ou que tenha outras mais recentes, mas aliciantes, mais imediatas.
Devo então ter pena das pobres ideias que nunca sairão da gaveta (hardrive)?
Não!
Devo limitar-me a fazer o melhor que posso e dedicar-me ao que me parece mais promissor, ou que simplesmente me puxa mais naquele momento. Haverá um tempo em que abrirei esses velhos ficheiros, esboçarei um sorriso e direi “Lá ideias nunca me faltaram!”.

Por isso armazeno, na esperança de poder desenvolver todos esses pensamentos, todos esses conceitos, todas essas cenas, personagens, situações, sentimentos, essas histórias que me invadem na calada da noite e perduram por muitos anos.
Quando não mais delas me lembrar, abro os ficheiros ou as capas e releio. É como se estivesse a ser invadida novamente.
Porque a musa nunca esquece. E o Viridis é nocturno e gosta de me manter acordada a noite toda.

Viríl, que andas a fazer com a nossa Ana?
Senhor Virilha. Como pôde.
Pude o quê?
Sabes muito bem o quê. Nunca pensei…
Estou chocadíssima.
Nós não estamos todos em sintonia, pois não?

Deixa lá Viridis. Só se é jovem uma vez! E eu não me importo de ter um muso que só trabalha à noite.

Semanário 28

semanário_22 Penso demais.

Planeio de mais.

Faço de menos.

Tenho dito.

On Writing

stephen_king_on_writing“On Writing” (Escrever) de Stephen King

Esta opinião está agora hospedada na Floresta de Livros.

Classificação: 7/10

Semanário 27

semanário_21Que semana …
Produtividade = 0
Não me lembro da última vez que não escrevi nem uma palavra durante uma semana inteira.
Que horror … (O horror, o drama, a tragédia)

Passemos à frente.

Como sempre o Muso trabalhou muito (com a ajuda das duas ajudantes habituais). Não tanto como é costume, mas o suficiente para eu não ficar preocupada (como já aconteceu).
A verdade é que me senti algo apática toda a semana. Isto porque estou à espera de receber críticas bastante dolorosas.
Auch!

Eu enviei a uma selecta casta cópias do primeiro manuscrito do Angel Gabriel e agora é esperar pelo pior melhor.
Àqueles a quem eu prometi enviar e ainda não enviei, peço paciência. Primeiro quero fazer uma revisão baseada nas primeiras impressões, depois darei a ler a mais gente.
Ando muito consciente do que fiz e isso faz-me dores de barriga. Tenho vontade de dizer a essas selecta casta para parar de ler. Tudo porque tenho medo das críticas. Pavor! Não sei de onde vem este bichinho, mas prontos.

Esta semana pretendo começar mesmo a escrever o Através do vidro. Tenho de voltar a escrever diariamente senão daqui a nada volto aos velhos tempos de não produção. E isso eu não quero. Seria a pior coisa que poderia fazer a mim mesma.

E ficamos por aqui.
Escrevam muito.

Semanário 26

semanário_20A semana passada foi, no mínimo, estranha.
Lembram-se que eu disse que ia fazer uma pausa no “Angel Gabriel“?
Pois …
Mas as minhas musas pareceram não ter gostado lá muito dessa ideia e o meu cérebro trabalhou 24 horas por dia neste projeto.
Não estou a brincar!
Eu sonhava com a Amilda e os restantes personagens.
Fiquei parva!
Pior de tudo é que agora tenho tantas ideias que acho que um só volume não chega. E se decidir pôr em prática tudo o que quero, então das duas uma:
1) Escrevo 1 volume do tamanho de um bloco de cimento (500+ páginas)
2) Escrevo dois volumes mais pequenos e tenho de encontrar um ponto para partir a história a meio.
Agora o facto é que eu não quero dividir a história em duas. Ou seja, tenho outras duas hipóteses:
1) Não aplico a maioria das novidades, e limito-me a melhorar o que já tenho
2) Aplico tudo e fico com um livro maior do que o desejado.

Só que eu, teimosa como sou, não vou fazer nem um, nem dois e muito menos quatro. Vou ficar quietinha, como tinha decidido, e esperar que a poeira assente.

Ainda está tudo muito fresco e por isso é que eu quero fazer tudo e mais alguma coisa. Preciso concentrar-me noutra coisa durante um mês e depois vejo qual destas ideias ainda prevalece.
Se bem que, já estou mesmo a ver-me a escrever o dobro das páginas que até aqui fiz. Não tenho emenda e acho que não vou ficar satisfeita até lá.
E, bem, não garanto que durante esta semana não acabe por sucumbir às musas e me ponha mesmo a escrever para o “Angel Gabriel” novamente.
Não é que seja mau, mas eu sei que preciso da pausa. Só que também tenho medo de depois perder a veia artística que corre neste momento.
Dilemas … dilemas …

Entretanto estou a a ler “On writing” de Stephen King. Pode ser que leia uns bons conselhos.

Fadas

12_naturezaA escuridão começou a dar lugar a uma luz tímida e ténue, que aos poucos invadiu os céus, brindando as montanhas e prados com claridade.

As flores mais tímidas, que se expõem apenas quando o sol as acorda e se recolhem assim que a escuridão cobre o céu – como crianças que pedem aos pais para deixarem o candeeiro acesso durante a noite, com medo dos monstros que vivem debaixo das suas camas e dentro dos seus guarda-fatos – deixaram-se embalar pelo vento matinal e abriram as suas belas pétalas, expondo os tesouros que protegiam das intempéries.

Milhares de pares de asas, das mais variadas cores e feitios, ornamentaram os prados com os seus voos rasantes e as suas corridas matinais, que mais não passam de rituais de celebração. Uma forma de se cumprimentarem pela manhã e planearem o dia que se iniciava e que prometia ser muito solarengo.

Uma pequena fada com asas de um suave rosa e um garrido verde, esticou os seus quatro longos membros e as suas duas antenas, antes de levantar voo da Papoila que a tinha albergado do frio da noite.

“Obrigada doce Papoila.”

A flor tremeu levemente, soltando um pouco de pólen, como um simples “Volta sempre” que a pequena fada entendeu com um sorriso.

O seu trabalho consistia em polinizar as Papoilas que a acolhiam de pétalas abertas e que gentilmente lhe sediam as suas sementes.

Outras das fadas estavam encarregues das mais diferentes espécies de flores. Estavam separados por grupos e a cada grupo cabia a função de propagar uma espécie de flora. Era um trabalho extremamente recompensador!

“HUMANOS!”

Quando ela ouviu as palavras serem gritadas por cada vez mais das suas colegas, percebeu que era tempo de evacuarem.

Sacudiu o seu corpo violentamente e com as suas patas dianteiras cobriu o seu rosto, com movimentos frenético.

Dos seus membros saia uma mucosa muito especial que permitia criar uma máscara em torno do seu rosto. Quando terminou parecia uma qualquer outra borboleta do planalto.

Esta era uma medida que tomavam sempre que haviam humanos nas imediações.

No passado não o faziam e acabaram perseguidos e dissecados pelos vis seres que os achavam tão peculiares. Agora, desde há muitas gerações, tinham ordens para se camuflarem e assim impedirem que os humanos os julgassem como sendo mais que pequenas e frágeis borboletas.

Não era uma medida infalível, já continuavam a ser caçados e coleccionados, mas ao menos não era tão mau como houvera sido em tempos. Chegaram a estar à beira da extinção, antes de resolverem tomar estas medidas.

Levantou voo, tendo de deixar o seu trabalho a meio, e começou a seguir as outras fadas que batiam as suas asas com força, continuando a bradar o nome das criaturas que tinham aprendido a temer.

Uma estranha sombra cobriu o seu corpo e quando se deu conta já estava rodeada por enormes grades de cor creme.

“Apanhei uma!”

A pequena fada suava e remexia-se na sua prisão, tentando encontrar uma frincha por onde pudesse escapar. Nada!

“Deixa ver, deixa ver!”

A claridade surgiu por detrás dela e ela virou-se, com dificuldade, esperançosa.

Entrou em pânico!

O enorme círculo azul que a observava atentamente era ainda mais ameaçador do que imaginara. Recuou a medo para a parte mais afastada da sua cela e embateu com as pequenas patas nas moles paredes do seu cativeiro

“Tão linda!”

“Agora é a minha vez.”

O globo ocular azul foi substituído por um negro como a noite.

“É um bocado feia. Olha para aquelas patas. Nojento!”

“Não entendes nada! As borboletas são lindas! Já viste aquelas asas?”

“Mas o resto do corpo …”

“Não percebes nada!”

“Vocês, raparigas, é que são muito esquisitas. O que é que há de bonito numa coisa assim?”

“És um parvo!”

Fez-se um silêncio mas a pequena fada sabia que estavam em movimento porque embatia com a cabeça e as asas de um lado para o outro, incapaz de controlar o movimento, tentando a todo o custo estabilizar-se ou voar dentro daquela gaiola que apenas deixava umas pequenas grades vermelhas por onde sentia um pouco do calor do sol.

Imaginou-se a ser enfiado numa daquelas prisões de vidro sobre as quais já tinha ouvido falar tantas vezes. Viva? Morta? Tudo dependia do seu carcereiro, mas uma coisa era certa, mais tarde ou mais cedo sucumbiria. As fadas não foram feitas para estarem presas!

“Que queres fazer com ela?”

“Não sei …”

“Vá decide! Queres que a mate para depois a expores no teu quarto?”

“NÃO! Isso é tão cruel!”

“Então?”

“Solta-a.”

“Ah? Tive eu este trabalho todo para agora a soltar?”

“Eu não quero matá-la. Coitadinha!”

“És mesmo estranha.”

“Não sou nada!”

“Como queiras.”

Quando voltou a sentir o calor dos sol e a ver o céu azul e as nuvens brancas, a pequena fada teve vontade de chorar. Não percebia as motivações dos seus captores mas apressou-se a levantar voo e afastar-se dos dois pequenos humanos que a observaram de olhos arregalados.

“Tão linda!”

“Raparigas…”

Parou o seu voo por momentos, para olhar para trás. Os dois humanos continuavam de olhos postos em si, especialmente aquele que tinha o pelo mais comprido e era mais baixo. Tinha um sorriso aberto nos lábios, acenando com os dois membros superiores na sua direcção, como que enviando-lhe uma mensagem que ela não compreendia.

Voltou-se e seguiu viagem prado afora, até onde sabia estar o seu bando.

Desta vez tinha escapado e sabia que tinha sido graças à camuflagem, e talvez, um pouco graças à gentileza daqueles humanos que felizmente pareciam não possuir a malícia tão característica da sua espécie.

Ela sentiu-se afortunada. Muito mesmo!

Submetido ao desafio “As nossas crianças” da Fábrica de Histórias