Caneta, Papel e Lápis

Um blog sobre escrita criativa, de Ana C. Nunes (A blog about writing fiction, by Ana C. Nunes)

Chuva

2 comentários

10_chuvaAli estava ele!
Aquele estranho homem que, em dias de forte chuva, ficava parado no meio do parque, sem qualquer tipo de abrigo, inundado pela força da natureza.
A sua figura era difícil de reconhecer ao longe, já que eu, e a grande maioria das outras pessoas, caminhava pelo passeio em cal, enquanto ele se erguia numa pequena clareira, por entre sobreiros, pinheiros e carvalhos, misturando-se no seu ambiente, como se ali pertencesse desde o princípio.
Fazia meses que o havia avistado pela primeira vez. O vento estava muito forte e eu tinha de usar todas as minhas forças para segurar o guarda-chuva, caminhando lentamente contra o vendaval, curvando-me para a frente de forma a manter o equilíbrio, rezando para que o meu abrigo não fosse levado pela intempérie. Por mero acaso, olhei para a clareira e lá estava ele! Quase se podia dizer que criara raízes naquele ponto e de lá ninguém o arrancaria.
De todas as vezes, ignorei-o. Pensava que ele só podia ser doido e ter vontade de morrer de pneumonia.
Sempre estranhei que ele só aparecesse em dias de chuva e não nego que a minha curiosidade crescia de dia para dia.

Num dia especialmente chuvoso mas sem os violentos ventos que tanto me irritavam, voltei a vê-lo. Não sei ao certo o que mudou naquele dia mas quando dei por mim já caminhava na sua direcção, como que atraída pela sua figura enigmática, mais do que já era habitual.
Quando estava a apenas alguns passos dele, senti o ar ficar preso nos meus pulmões. Parei de respirar por uns bons segundos, completamente apanhada de surpresa pelo que via.
Uma infinidade de ideias percorreram o meu pensamento, para tentar dar uma explicação lógica para o que se estava a suceder, mas nada parecia verosímil naquele momento. Naquele momento percebi porque nunca consegui distinguir bem o seu corpo no meio da chuva.

Ele não tinha corpo!
O vulto que avistava há tantos meses, era criado pela intensa queda das gotas de água, que criavam a ilusão de uma figura humana aos olhos inexperientes de um humano.
Era estranho!
Como se a intensidade fosse diferente em cada parte do seu corpo. Mais rápida e abundante que a restante água que caia em seu redor.
Tão estranho!
Mesmo visto assim de tão perto, aquela ilusão parecia propositada. Como se alguém a tivesse criado com um intento qualquer. Tão realista … tão assustadoramente credível!
Estendi uma mão para tentar tocar-lhe no ombro, mas assim que o fiz, senti a queda das gotas, tão fortes que pareciam picar-me. Retirei a mão rapidamente, com medo que aquela força anormal fosse capaz de me ferir.
Estava tão absorta naquela criação que deixei deslizar o guarda-chuva da minha mão. Este caiu na terra atrás de mim, como que em câmara lenta.
Quando finalmente senti a chuva tocar-me o rosto, olhei para cima, como que hipnotizada.
Pela primeira vez na minha vida, observei encantada a queda da água. Era tudo tão estranho! Senti-me mais leve que nunca. Pouco me interessou o facto de as minhas roupas estarem a ficar encharcadas, de a água deslizar, sem permissão, pelo meu corpo e invadir a minha pele com o seu toque frio e, mesmo assim, tão acolhedor.
Sem dar por isso, um sorriso invadiu o meu rosto e ergui os braços no ar, recebendo como uma dádiva aquela maravilha da natureza, que até ali tinha odiado sem razão aparente.
Girei pelo solo enlameado, como uma criança debaixo da mangueira num dia de sol escaldante.
Sabia tão bem!
Enquanto desfrutava aquela realidade, olhei de relance para aquela figura que me conduzira ali. Mais uma vez parei de respirar!
Antes de desaparecer, podia jurar tê-lo visto abrir os seus olhos, que até ali estiveram sempre cerrados, e sorrir carinhosamente.
Foi a última vez que o vi!
Sempre que chovia eu corria para o parque, sonhando em vê-lo novamente. Queria confirmar que não tinha sido a minha imaginação. Mas nunca mais o vi, independentemente de quantas vezes lá fosse.

O guarda-chuva, esse objecto para o qual deixei de ver utilidade, nunca mais saiu do bengaleiro de minha casa.

Nota: O facto de o título deste conto e do anterior serem parecidos, não é propositado.

Autor: Ana C. Nunes

I love to write, read and draw. I write novels, draw characters and, sometimes, graphic novels or comics.

2 thoughts on “Chuva

  1. É fantasia!
    Tem repetições brilhantemente colocadas da palavra “estranho”!

    E lembra-me as tardes infindáveis a jogar râguebi debaixo de chuva. Pontos bónus por isso.😀

  2. Obrigada!
    E olha que às vezes nem me dou conta que repito palavras (mas desta vez foi propositado).
    Eu confesso que sempre gostei da chuva e adoro senti-la cair … tão refrescante.

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