Caneta, Papel e Lápis

Um blog sobre escrita criativa, de Ana C. Nunes (A blog about writing fiction, by Ana C. Nunes)

O nome é KIKA!

5 comentários

07_maisdoqueumacompanhiaDepois de aos cinco anos ter um ataque cardíaco, aos 11 descobrimos que ela tinha tumores.

Como devem imaginar, não me refiro a um ser humano.

Ainda me recordo muito bem do dia em que cheguei a casa para encontrar o mais fofo presente com um laço ao pescoço.

Uns meses antes, uma cadela que tínhamos acolhido em nossa casa, morreu depois de ser barbaramente queimada por uns miúdos nossos vizinhos. Eu andava já a chatear a minha mãe para me arranjar outro cão. Sempre adorei animais, mas na verdade nunca tive muita sorte com estes fieis amigos. Tive um gato preto que decidiu fugir com a mãe e aproveitaram para encher a pança com os meus dois periquitos. Os peixes, esses coitados, não duravam muito lá em casa. Tivemos também um pato que morreu novo e um coelho que vi morrer com os meus próprios olhos. Chorei muito com todas estas “partidas”, especialmente com o Pachá (coelho) e a cadela preta, que embora só lá tivesse estado um ou dois meses, era muito querida e morreu de forma muito cruel.
Talvez por tudo isto a minha mãe não estivesse com muita vontade de trazer outro animal para dentro de casa. Já todos sabíamos que perder estes bichinhos era muito doloroso, e ela não gostava que nós, os dois filhos, tivéssemos de sofrer com a morte deles.
Mas, segundo ela mesma confessou, foi amor à primeira vista!
Na altura ela tinha uma confecção e quando foi à loja das linhas, a dona estava a oferecer os rebentos da mais recente ninhada da sua cadela. Aquela bolinha de pêlo branco apaixonou a minha mãe e como eu andava a pedir-lhe já há algum tempo, ela não pensou duas vezes antes de a trazer para casa.

Depois das aulas, sem suspeitar de nada, cheguei a casa para encontrar a minha mãe e a tia Fátima (sua sócia na confecção) entre sorrisos. Fui convidada a espreitar por entre duas grandes montanhas de ribe (punhos dos fatos de treino). Lá, incutilhada com o medo, estava a coisa mais fofa que alguma vez vi. Uma autêntica bola de pêlo branco, com um vivaz laçarote cor-de-rosa choque ao pescoço. Ela cabia na palma da minha mão, mas eu não cabia em mim de felicidade.
Fui mais uma das que se apaixonou à primeira vista.

Este animal, o qual mimámos, talvez, em demasia e que amámos com todo o nosso coração, deu-nos um grande susto aos seus cinco anos.

Numa noite igual a tantas outras, o meu irmão predispôs-se a brincar à bola com a cadela. Ela adorava esses jogos de apanha. A bola rebolou para debaixo da cama e ela lá gatinhou para a ir buscar, mas quando não saiu, o meu irmão sabia que algo não estava certo e chamou aos berros por mim. Eu lá me espremi por baixo da cama para a encontrar completamente imóvel. Ao principio pensei que ela estava apenas cansada ou a fazer-se de difícil, até reparar que estava a espumar pela boca e que estava com incontinência (sim, mijou-se involuntariamente).
Arrastei-a pelas patas para fora dali, gritando pela minha mãe, já que não percebia nada do que se estava a passar. Ficamos os três sem saber o que fazer. Nunca tínhamos visto nada assim.
Eu tentei chamar por a cadela. Ela estava desperta, mas não se movia nem reagia a nada do que eu falava ou fazia. Foi aterrorizador!
A minha mãe vasculhou a Lista Telefónica pelo número de um veterinário com atendimento 24h. Descrevemos a situação e ele disse-nos de imediato que ela tinha tido um “ataque cardíaco” (ou qualquer outro nome que lhe queiram dar). Deu-nos o nome de um medicamento e eu fui, sozinha, de táxi, à 1h da mdrugada, à farmácia de serviço, para comprar o medicamento. Ela estabilizou e no dia seguinte de manhã, levamos-la ao veterinário. A partir desse dia, a cadela deixou de comer doces (maldita hora que nos lembramos de lhe dar docinhos) e já não conseguia fazer tanto esforço físico. A correria de sempre parou de vez. Já não havia a montanha russa do trapo, ou o “busqui busqui” atrás da bola. As eternas corridas pelo chão da casa ou os grandes passeios ofegantes na praia, com o pavor adjacente da água do mar. Tudo amainou e ela começou a engordar, graças ao abrandamento do esforço físico.

07_maisdoqueumacompanhia_2Os anos foram passando e a saúde dela mantinha-se estável. Estava mais velha, claro! Mais cansada, tinha ganho uma hérnia proeminente na barriga e começou a mancar de uma pata. Mas nada de muito grave ou debilitante.

No último dia de Outubro de 2008, esta velha cadela teve uma visita inesperada. Eu e a minha mãe, as eternas babadas por cães, tínhamos trazido uma pequena cadela abandonada para nossa casa. A ideia original era dar-lhe de comer e um banho quente, e depois tratarmos de lhe arranjar um dono que a estimasse. A pequena criatura devia ser ainda um bebé, tão minúscula e completamente morta de fome. Tinha medo da própria sombra!
Nunca pensamos que a cadela da casa fosse receber aquela intrusa de braços patas abertas, mas foi o que sucedeu. E aos poucos, os habitantes deste apartamento T2+1 foram-se afeiçoando àquela pequena cadelita, até que já não conseguiam sequer pensar em dá-la a quem quer que fosse. A família ficou 3+2, com maioria feminina (4-1).

Cada vez mais velha e com mais dificuldade em movimentar-se, a cadela mantinha-se, ainda assim, forte. Sempre atiçada pela sua companheira de brincadeiras, que aos poucos ganhou uma confiança digna de registo e se tornou uma ciumenta de primeira categoria (o medo da próprio sombra é que teima em persistir).
Em Janeiro de 2008, ou talvez até um pouco antes, começamos a notar uns novos talos a cresceram no corpo da cadela, junto aos mamilos. Cheguei a brincar com a situação, dizendo que era leite acumulado por ela nunca ter tido crias (claro que sei que não é possível gerar leite sem estar prenha). Quando um desses talos rebentou, aí a situação já deixou de ter graça. Se até aí tínhamos evitado ir com ela ao veterinário, por razões financeiras, depois desse acontecimento tornou-se iminente a visita ao especialista.
Assim que viu a ferida, a doutora não esteve com cerimónias e disse-nos que era grave.

Cancro da Mama!

Posso até ser muito ignorante, mas nunca imaginei que os animais também sofressem deste tipo de flagelo.
Não sei muito bem como reagi. Aliás … até sei! Fiquei serena. Vá-se lá saber porquê, até agora talvez a ideia ainda não se tenha assentado bem na minha cabeça.

Há hipótese de operar, mas foi-nos logo dado o aviso de que isso tanto poderia ter bons resultados, como não dar em nada, se o tumor for maligno. O preço da operação é alto. Não é muito mais do que eu imaginava, mas, verdade seja dita, a minha família não está na melhor situação neste momento e despender 700€ para operar uma cadela de 11 anos, que tanto pode ficar boa como morrer passado um mês, não é uma hipótese muito viável. Vindo de nós, isto soa-me irracionalmente cruel. Em qualquer outra altura nós não pensaríamos duas vezes antes de gastar esse dinheiro com ela, mas neste momento, é absolutamente impossível.
Rezaria, se fosse religiosa, mas não o sou e muito menos hipócrita.
Vejam lá que só agora, enquanto escrevia estas palavras, chorei desde que recebi a notícia esta tarde.

Ela ainda está viva, e se tudo correr bem, assim continuará por mais algum tempo. Mas quanto tempo? Se as coisas piorarem (não quero pensar muito nisso), vamos mesmo ter de a abater, assim que a dor se torne insuportável para ela.
A veterinária disse-nos que ela não tem muitas dores, com sorte, para já não terá dores nenhumas. E, segundo ela, enquanto continuar a comer e a beber normalmente, tudo está bem. O pior acontecerá se parar de comer. Mas isso ela não precisava dizer-nos. Quando chegar a isso, nós saberemos porque esta cadela come que se farta!
Verdade seja dita, como dona de animais de estimação desde muito nova, eu sabia que haveria de chegar a isto, mais tarde ou mais cedo, de uma forma ou de outra. Os animais tem uma vida muito curta, comparada com nós, humanos. Fico contente por saber que pude dar uma vida boa a este e outros animais. E vejam lá, já estou a falar como se ela tivesse morrido. Não! Ela ainda aqui anda. Cansada, velha, doente, mas continua a mesma de sempre! Uma mimalha a quem dei mais de uma centena de nomes (carinhosos), que estica a pata para pedir cócegas e gane quando não lhe damos a atenção devida. Uma cadela que me vem bater à porta quando quer ir fazer as necessidades e que é muito gulosa. Uma cadela que espero ainda ter a fazer-me companhia durante mais algum tempo … Kika.
Muitos podem discordar de mim e do meu afecto por este animal, assim como pelos outros que a antecederam e que vieram depois dela. No entanto eu não poderei nunca partilhar da vossa opinião, por isso poupem-me a julgamentos de moral e ideias. Para mim, os animais tem tanto direito a uma vida digna, como qualquer um de nós. Nós cuidamos deles e eles retribuem-nos com o seu amor incondicional, a sua presença constante e a sua completa lealdade. Poucas coisas no mundo podem ser tão belas quanto isto!
Não me interpretem mal. Não estou nem estarei nunca a comparar humanos e animais (chamados irracionais), mas não nego que há pessoas que merecem menos respeito da minha parte que estes bichinhos que não mentem, enganam ou sequer mordem a mão que os alimenta.

Autor: Ana C. Nunes

I love to write, read and draw. I write novels, draw characters and, sometimes, graphic novels or comics.

5 thoughts on “O nome é KIKA!

  1. Minha, que mau.😦 Espero que corra tudo bem com ela, sinceramente.

  2. Obrigada!
    Eu também espero que corra pelo melhor, mas a gente já sabe que os cães não vivem muito anos. É a sina dos donos que adoram os seus animais.

  3. Pingback: O nome é Kika - Fim « Caneta, Papel e Lápis

  4. Ana, perdoa-me a ignorância… desconhecia de todo a situação dela, mas… a Kika ainda não morreu, pois não?

  5. Infelizmente morreu. Estava a sofrer muito e tivemos de tomar a decisão. Foi duro, mas foi o melhor para ela. Coitadinha estava cada vez pior. Seria cruel da nossa parte deixá-la ficar assim.
    Eu na altura não contei a muita gente porque bem … era doloroso. Desculpa não te ter avisado.
    Agora temos a minorca cá em casa. Chegaste a conhecê-la? É uma pequenita e preta, que a Kika adoptou.

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