Caneta, Papel e Lápis

Um blog sobre escrita criativa, de Ana C. Nunes (A blog about writing fiction, by Ana C. Nunes)

No limiar da vida -excerto-

5 comentários

Aqui fica um excerto de uma das primeiras escritas que fiz para o meu projecto “No limiar da vida”. Está bastante mau (especialmente o diálogo telefónico), mas também fica já aqui a nota que este excerto nunca chegará à versão final do livro.

Só o estou a colocar aqui para eu própria e os outros se aperceberam um pouco de como a minha escrita mudou. Mais subtil do que drasticamente, mas ainda assim sofreu mutações.

Desfrutem!

« A noite estava gelada e Lara esfregou as mãos vigorosamente, numa tentativa de minimizar a sensação de frio. Ao respirar fortemente para as mãos, que por essa altura, já se encontravam com uma tonalidade roxa, uma mini-nuvem criou-se com a saída do ar pela sua boca, aquecendo levemente as pontas dos dedos, que rapidamente pegaram no auscultador do telefone na cabine pública onde se encontrava, discando os três dígitos.
Lara não teve de esperar mais do que uns meros segundos até ouvir a voz de um jovem rapaz do outro lado da linha. – “Ligou para o 112, qual é a sua emergência?”
Lara respirou profundamente antes de falar num tom bastante alarmado. – “Por favor mandem a polícia e ambulâncias para a Rua das Brumas , no N.º 27 de Arcos em Braga. Estão lá os quatro rapazes desaparecidos.” – Terminando com um suspiro pesado, pousou o auscultador no descanso, dando um fim ao contacto telefónico.
Enfiando as mãos nos bolsos do casaco preto que, naquele momento parecia feito de seda, de tão esfriado que era. Lara abandonou a cabine telefónica e caminhou rua abaixo num compasso apressado, deixando escapar um desabafo esperançoso. – “Espero que não entendam a chamada como uma partida de mau gosto.”
Ao percorrer as ruas, passou ao lado de um casal que conversava discreta e amorosamente. Ao vê-los de mãos dadas, o rosto de Lara mudou de expressão, sendo aparente que uma ideia tinha surgido na sua mente. Retirando a sua mão esquerda do acolhedor bolso, estendeu o braço ao seu lado, como que tomando uma outra mão na sua. – “Está mesmo muito frio esta noite.” – Sorrindo calorosamente, fitou um espaço vazio ao seu lado. – “Crianças como tu, deviam estar entre lençóis de flanela nas suas camas. Não concordas?” – Apenas depois de proferir estas palavras, Lara apercebeu-se de que alguém seguia atrás de si. A mulher, com os seus cinquenta anos e um rosto carregado de maquilhagem, demasiado vistosa, torceu o nariz na direcção dela. Deixando transparecer que pensava que Lara estava doida ou extremamente bêbada por andar na rua àquelas horas, e a falar sozinha.
Lara abrandou, observando enquanto a mulher passou por si com uma expressão de altivez e o nariz bem erguido no ar.
Quando a senhora já se encontrava a uma distância que não lhe permitisse ouvi-la, Lara deu uma gargalhada quase inaudível, mas sentida. – “Viste bem a cara dela? Digna de registo!” – A sua mão esquerda continuava suspensa no ar, como que, agarrando algo invisível. E assim permaneceu enquanto ela percorria aquelas ruas escuras e silenciosas.
O som do sino da igreja não se fez esperar e anunciou as duas badaladas noite adentro. O único pensamento da jovem Lara naquele instante foi que nunca conseguia dormir mais que cinco horas por noite e não o faria enquanto desempenhasse o papel de boa samaritana. Embora isso nunca lhe tivesse demovido da sua resolução. Para ela, a vida era demasiado curta para que se preocupasse tanto com o seu bem-estar mental. Sentia-se bem em saber que, as poucas horas que dormia, fazia-o de consciência limpa e de bem consigo mesma, sem quaisquer remorsos em relação ao rumo que a sua vida tomara. »

Autor: Ana C. Nunes

I love to write, read and draw. I write novels, draw characters and, sometimes, graphic novels or comics.

5 thoughts on “No limiar da vida -excerto-

  1. Gosto da forma como exprimes o ambiente, muito mais pessoal do que eu costumo fazer. Tipo, eu descrevo o céu. Tu descreves nuvens de respiração. É perfeito!😀

    E estou intrigada pela forma como introduziste a tua personagem “a falar sozinha”. Espicaça a curiosidade, se é que me entendes. Porque é que decidiste cortar da versão final?

  2. Eu ainda assim acho que tenho de dar mais personalidade ao Gabriel. Às vezes acho que o estou a descrever de forma demasiado “soft”. Quando editar a escrita, vou ter que o fazer mais “durão” ainda do que ele já é. Se bem que, no fundo ele nem é dos piores. Ao pé do Catalysm (outra personagem), ele é um santo!
    Mas muito obrigada pelo teu apoio. O mal de colocar pequenos (minúsculos) excertos é que corremos o risco de as pessoas não se ligarem às personagens. Mas também mostrar demais é perigoso.
    E quanto à Stephen Meyer, não poso falar porque nunca li e nem vi o filme. Sei que tem vampiros, mas mais do que isso, não faço ideia.

  3. Oh, sê dura com ele! Qual é o pior que pode acontecer?

    E adoro esse name, Catalysm. É um vilão? Por favor diz que sim.😀

    Tens razão quanto a mostrar demais. É difícil descobrir onde é o limite. :S Pode dar-nos cabo da vida em termos de copyright.

    E a Stephenie… oh well, fica na tua, a sério. O livro dela assassina o mito dos vampiros. Tipo, eles deviam ser sexy e morder pescoços e ser sexy! Mas não. Os dela brilham ao sol. *headdesk*

  4. Sim, o Catalysm é uma espécie de vilão. O tipo dá-me arrepios! Não posso revelar mais pormenores, senão lá se vão as surpresas.
    Quanto aos livros da Stephen Meyer, por acaso tenho curiosidade em ler, só que ainda não tive oportunidade de o fazer. E eu não posso condena-la, porque eu também matei um pouco o mito dos vampiros. Os meus vampiros dormem em igrejas e a prata e as cruzes para eles são adornos. Já para não falar que os meus “Primordiais” (os primeiros vampiros) podem andar ao sol sem grandes preocupações, mas isso é porque eles são algo mais do que simples vampiros.

  5. Eu às vezes perco-me a descrever este tipo de coisas … e se todos fossemos iguais, o mundo seria uma grande seca, não achas? Além de que eu adoro a tua escrita.
    Decidi cortar esta parte porque vou começar a história por outro ângulo, mas provavelmente parte desta cena ainda lá estará, sem o diálogo (estúpido) telefónico, que nem sei como escrevi algo assim, mas prontos.

Comente / Comment

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s