Caneta, Papel e Lápis

Um blog sobre escrita criativa, de Ana C. Nunes (A blog about writing fiction, by Ana C. Nunes)

Pequenas Coisas

2 comentários

Catarina, uma jovem mulher com não mais de 29 anos, recostou-se na cadeira de madeira da sua sala de jantar, suspirando profundamente e levando uma mão à cabeça enquanto o a outra mão caia a seu lado.
Vários papeis se prestavam em cima da mesa despida, num emaranhado semelhante à secretária de uma empresa muito caótica, acompanhados de uma velha máquina calculadora que ela tinha recebido na escola quando, aos 13 anos, teve direito ao subsídio de apoio às famílias mais carenciadas que não conseguiam fazer frente às despesas do material escolar dos filhos. Uma gasta esferográfica, deslizou lentamente pelo lado da mesa, até cair no chão, sem grande alarido.
– “Estou tão farta desta merda!”
A cena era igual a tantas outras. Podia até dizer-se que o ciclo de repetição era de sensivelmente 30 dias. Todos os meses, quando chegava a altura de gerir o orçamento familiar para pagar todas as despesas, o dinheiro era sempre escasso. Há muitos anos que ela não sabia o que era poupar uns míseros Euros todos os meses.
A renda da casa, embora não muito alta para a zona onde se encontravam, era a maior fatia das despesas, seguida daquelas outras que não se podiam cortar por mais que se desejasse fazê-lo: Electricidade, Água e Saneamento, Gás e, um pouco a esticanço, o serviço de Telefone e Internet mais barato que conseguiram encontrar, porque o miúdo precisava fazer pesquisas para os trabalhos de escola e porque, tanto ela como o marido, também gostavam de navegar um pouco na Web. Um desperdício de dinheiro, por assim se dizer, mas um pequeno prazer que, bem vistas as coisas não era a maior despesa da casa – não que isso fosse desculpa para despender esse dinheiro todos os meses -. Já para não falar nos seguros, no combustível dos automóveis, porque, numa cidade como aquela, os serviços públicos não eram alternativa e um sem-número de outras pequenas coisas.
Tudo isto e mais as normais despesas de comida, eventuais compras de vestuário e calçado, sim porque o miúdo tinha uma propensão para romper calças e gastar ténis que era uma loucura.
No fim de contas, o ordenado do marido e o subsídio de desemprego dela, mal chegavam para cobrir as despesas. Todos os meses ela tentava arranjar soluções práticas para pouparem mais um pouco, mas nunca parecia ser o suficiente. Alguns meses antes, e para grande tristeza do seu filho, vira-se forçada a cortar o serviço de televisão e tinha a impressão que não tardaria muito a terem mesmo de cortarem no telefone e na internet.
A poucos e poucos tudo ia desaparecendo.
Era certo que nenhuma destas coisas são um bem essencial, mas «o hábito faz o monge» e quando já estamos acostumados a ter um certo nível de vida, ter de abdicar de tudo, a poucos e poucos, custa muito … muito mesmo!
Já para não falar na dificuldade em encontrar trabalho. Catarina estava já desempregada há oito meses e cada vez parecia menos credível a possibilidade de encontrar trabalho na sua área de formação. Pondo de parte essa possibilidade, ela já tinha mesmo tentado encontrar vaga noutras áreas, mas nem aí teve muita sorte. A todo o lado onde ia, ofereciam-lhe o salário mínimo, a maior parte das vezes, com um horário irregular e em condições precárias de trabalho. Tinha podido dizer que não até aí, já que estava a ganhar mais no desemprego, mas essa ajuda estatal acabaria rapidamente e então ela teria de aceitar qualquer coisa. Quando isso acontecesse, a família iria sofrer ainda mais. Com um orçamento cada vez mais reduzido, o que teriam de cortar depois de tudo o que era supérfluo desaparecer?
Catarina sentiu pequenos dedos atracarem-se por cima dos seus olhos. – “Adivinha quem é?” – Ela sorriu.
“Quem será? Não sei se consigo adivinhar.” – Ouviu as risadas do seu filho e este som encheu-a de alegria.
“Sou eu mamã!” – Rapidamente o rapaz retirou as mãos do seu rosto e saltou para o lado dela, esbanjando alegria naquele pequeno rosto.
“Ah pois é! Quem diria que aquelas mãos pertenciam ao menino mais lindo do mundo?” – O sorriso dele aumentou ainda mais e a mãe babada ponderou sobre esse misterioso facto de a felicidade poder crescer e crescer, até ao infinito, sem que uma pessoa alguma vez se pudesse sentir cansada com isso.
O pequeno rapaz saltou para o colo da mãe, com a ajuda dela, e colocou os seus braços à volta do pescoço da mulher que mais o amava no mundo. – “Amo-te mamã!” – O pequeno beijo na bochecha que se seguiu a estas palavras, resultou numa explosão de fogo-de-artifício no coração daquela mulher que parecia, momentos antes, ter perdido toda a esperança de uma vida melhor.
Ela nunca entendeu ao certo como pequenos gestos como aquele tinham um impacto tão grande no seu íntimo.
Eram aquelas pequenas coisas que tornavam a sua vida maravilhosa.
Aquela era a verdadeira felicidade!

* Texto dedicado à minha Mãe, a mulher que sacrificou tudo para dar uma vida melhor aos filhos e para quem a vida sempre trouxe muitos dissabores.

Autor: Ana C. Nunes

I love to write, read and draw. I write novels, draw characters and, sometimes, graphic novels or comics.

2 thoughts on “Pequenas Coisas

  1. Sabes, gosto mesmo disto. A tua voz narrativa é tão… única.
    Não sei se escreves sempre assim, mas neste caso especial, acho que a maturidade e objectividade do narrador se enquadram perfeitamente.

    Congratulações.😀

  2. Obrigada!
    Eu tento escrever sempre assim, mas sou de Luas e nem sempre as coisas saem como o desejado.

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