Caneta, Papel e Lápis

Um blog sobre escrita criativa, de Ana C. Nunes (A blog about writing fiction, by Ana C. Nunes)

Como ondas

12 comentários

04_como-ondasEle conseguia sentir o vento forte a bater-lhe de encontro ao rosto. Os seus cabelos castanhos esvoaçavam livremente, assemelhando-se às ondas do mar que embatiam nos rochedos, muito abaixo de si.
Enquanto segurava a mão esquerda dela, fortemente entre os seus dedos fortes e grosseiros devido aos trabalhos esforçados que toda a vida tinha realizado, tentou recordar-se do que os levara até ali.
Tudo era tão vago …
Ao som das fortes ondas, o seu inconsciente parecia ter-se esvaído de qualquer pensamento. Nada o perturbava, nada o intimidava, nada o fazia mudar de ideias.
Ele não sabe quanto tempo passou até que decidiu olhar para o lado onde se encontrava a mulher que pretendia segui-lo até aos confins do mundo.
Eles tinham-se conhecido apenas alguns dias antes, por uma qualquer coincidência que nenhum deles conseguia explicar. A vida de ambos era insípida, cheia de frustrações e dissabores, uma vida de escravatura e para quê? De que lhes servia matarem-se, literalmente, dia após dia, trabalhando apenas porque tinham de fazer algo, sem nunca na verdade fazerem nada por si próprios, sem nunca conseguirem atingir algo que os completasse, que desse às suas vidas um qualquer mísero significado.
Encontrarem-se um ao outro foi o rebentamento de uma corda, já de si fraca de mais para sustentar o peso das suas vidas, mas foi também a criação de um pequeno cordão que uniu os dois. Algo muito frágil mas que na realidade não se quebraria nunca.
Pensavam da mesma forma, sentiam da mesma maneira, tinham os mesmos desejos. Sentiam-se quase felizes por se terem conhecido e essa réstia de felicidade levou-os a uma conclusão conjunta, ausente de palavras ou gestos, de amor ou de ódio. Uma conclusão que terminaria com um profundo alívio.

A força das ondas que rebentam contra a costa e aos poucos desgastam a dura pedra que cria um estonteante desfiladeiro. Nada lhes pareceu mais acolhedor.

Texto submetido ao desafio “Mar Nosso”  da Fábrica de Histórias.

Autor: Ana C. Nunes

I love to write, read and draw. I write novels, draw characters and, sometimes, graphic novels or comics.

12 thoughts on “Como ondas

  1. Muito suave, mas vivo e em movimento, como o Mar.
    Gostei!

    Bjs

  2. Obrigada Maria. Eu sei que é um tema um pouco controverso, mas tentei ameniza-lo ao máximo.

  3. Acrescento … que adorei o não habitual “happy ending” …

  4. E foi bem conseguido, ao ler não senti aquela angustia característica dos finais infelizes, o texto é sereno, demasiado tranquilo… o final não é chocante, a beleza da união que tão bem descreves atenua a tragédia… gostei mesmo!

  5. Confesso que não sou grande adepta de “happy endings” na minha escrita. Não sei bem porquê …

  6. Obrigada! É bom ouvir (ler) isso.

  7. Subscrevo as palavras da Maria das Quimeras…
    Sem dúvida, suave…
    Gostei mesmo…
    Beijinho

  8. Obrigada, Ametista.

  9. Gostei. Um texto simples, para um tema forte.

    Parabéns.

  10. adorei…meitos parabéns.mesmo…=)

Comente / Comment

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s