Caneta, Papel e Lápis

Um blog sobre escrita criativa, de Ana C. Nunes (A blog about writing fiction, by Ana C. Nunes)

Mudanças

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01_mudancasO sol brilhava intensamente, quase cegando-a enquanto atravessava a passadeira para peões. Albergando-se sob a sombra de uma árvore, pousou os dois sacos, que trazia consigo, no chão.
Do bolso exterior da preta bolsa à volta dos seus ombros retirou um pequeno leitor de MP3 com auriculares, colocando-os na respectiva orelha.
Circulando a rotunda, apareceu um autocarro de cor branca, com riscas verdes em volta e com um pequeno, e, quase ilegível, papel colado ao vidro com o destino da carreira escrito.
Erguendo dois dedos à sua frente, fez paragem. O veículo parou e as portas abriram-se com dificuldade, ela apressou-se a subir o alto degrau e deslizou o passe no pequeno aparelho da companhia rodoviária. Rapidamente se dirigiu a um lugar vazio, mas não sem antes quase perder o equilíbrio quando o autocarro circundou uma outra rotunda.
Finalmente teve a oportunidade de ligar o pequeno leitor de música. O volume inicial estava em 10, mas rapidamente ela se apercebeu de que não só não percebia qual a música que estava a tocar, como mais parecia que nada estava a escutar.
O problema não estava no aparelho diminuto, mas sim no grande autocarro, cuja idade devia ultrapassar em muito os 25 anos, e que, como muitos outros naquelas localidades, já tinha vindo em segunda mão de outros países.
O barulho produzido era ensurdecedor. De cada vez que o motorista acelerava, o veiculo dava uma espécie de soluços bem audíveis.
A agora passageira, limitou-se a pensar se o autocarro chegaria inteiro ao destino. Aumentou o volume para 20, e mesmo assim podia dizer que não conseguia ouvir de feição toda a música.
Os outros dois únicos passageiros conversavam animadamente à sua frente:
– “Sabias que fulana fez isto, isto e isto?”
– “Não acredito! E ouviste falar daquele a quem aconteceu isto, aquilo e algo mais”
As conversas do costume…
Ao passarem por cima de uma ponte, o tema mudou, mas não deixou de ser o mesmo de sempre. “Pobre daquela senhora que se atirou daqui abaixo no outro dia.” – “Que Deus a perdoe.” – Aquela passagem por cima do rio tinha adquirido uma nova fama:
“Ponte de onde aquela senhora de idade se atirou” – Já ninguém sabia qual o nome da dita ponte.
Mas o surpreendente era porque ainda falavam desse tema. Era algo horrível sim, mas já tinha passado bem mais de um mês desde tal acontecimento. Será que ainda era considerado novidade. Será que naquela terriola não havia nada de mais novo interessante para discutir.
Uma vez mais a rapariga apercebeu-se de que vivia numa terra que, embora tivesse tudo para ser grande, parecia parada no tempo. Não evoluía, não mudava. Não nada! Era a mesma todos os dias…

Autor: Ana C. Nunes

I love to write, read and draw. I write novels, draw characters and, sometimes, graphic novels or comics.

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