Os dois lobos

15 08 2009

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Uluru sempre fora uma das mais belas da tribo. Com a sua tez cor de cacau e os seus grandiosos olhos negros, ela desde nova fazia saltar os corações dos homens à sua volta.
Mas para Uluru, esta beleza era como uma maldição, uma prisão que a confinara ao guerreiro mais forte da tribo. Um homem que tinha já duas esposas para além de si, que nunca lhe dava atenção e que gostava apenas de a mostrar como sendo sua e que a desprezava por ainda não ter conseguido dar-lhe um herdeiro.
Numa noite em que a Lua brilhava intensamente sobre o céu estrelado, Uluru abandonou a sua tenda, deixando para trás o marido que havia adormecido depois de a fornicar, embrenhando-se na floresta.
Sentia como se estivesse em transe, sem controlo dos seus movimentos, sem pensar para onde ia ou estranhar o facto de os ganos caídos das árvores lhe cortarem a sola dos pés.
Desembocou numa extensa clareira que nunca antes tinha visitado. Maravilhou-se na sua beleza e caminhou até à rocha que se encontrava no centro. Só, rústica e estranhamente alienada naquele cenário idílico.
A relva massajava-lhe agora os pés, mas ao mesmo tempo fazia arder a carne viva que ali se expusera.
No topo da rocha estava uma malga com um grande pedaço de carne vermelha mas Uluru não sentia fome e por isso não lhe tocou.
Sentou-se e sentiu o frio da rocha percorrer o seu corpo quase desnudo.
Da orla da floresta surgiram duas sombras.
Uluru teve receio, mas não se moveu.
À medida que avançavam na sua direcção, Uluru percebeu que eram dois lobos castanhos. Um tom de castanho em tudo semelhante ao da sua pele.
Um dos lobos tinha o pêlo limpo e liso, como se tivesse acabado de tomar banho e de ser escovado. O outro tinha o pêlo desalinhado, como se tivesse acabado de sair de uma luta feroz. Eram idênticos. Tão idênticos de facto, que Uluru pensou estar a ver o mesmo lobo em dois espaços de tempo diferentes.
Os dois aproximaram-se dela e sentaram-se à sua frente.
Uluru percebeu o que queriam.
Retirou a faca que transportava sempre consigo, presa à cinta, e cortou o pedaço de carne em dois. De seguida atirou um pedaço a cada um dos lobos. Eles devoraram o jantar com avidez e de seguida deitaram-se aos pés de Uluru.
Ela sentia-se bem na companhia deles e passou ali a noite. Naquele local a que só ela parecia ter acesso.
A partir daquela noite Uluru visitava a clareira com regularidade, encontrando sempre a carne e os lobos e alimentando ambos com carinho.
O tempo passava e Uluru sentia-se cada vez mais abatida, mais deprimida e só.
O seu marido batia-lhe constantemente, gritava-lhe várias vezes por dia e insultava-a à frente dos seus pais e familiares, como se ela não passasse de um monte de lixo que se prostrava a seus pés.
Uluru queria retorquir, queria erguer-se do lamaçal onde ele a colocara, mas não tinha forças para tal e sabia que seria castigada se abrisse a boca para dizer o que quer que fosse.
As outras mulheres dele já tinham engravidado três vezes cada, mas Uluru ainda não conseguira uma só vez. Parecia que o seu ventre secara assim que o desposara, mas ele dizia que a culpa era dela. Que fazia de propósito. Que tentava humilhá-lo ao não o brindar com um filho como era seu dever.
Todos os dias, sem excepção.

Uma noite foi particularmente violenta. Ele entrou na tenda quando ela já dormia, rasgou-lhe as roupas e forçou-a a copular, ignorando os gritos e choros dela. Ele foi tão violento que ela começou a sangrar por entre as pernas, mas nem aí ele parou. Continuou a violentá-la e ela ficou sem forças para protestar.
Os seus olhos, conhecidos por serem sempre vivos e translúcidos, ficaram opacos, envidraçados e ela saiu da sua mente para não mais se importar com o que ele fazia ao seu corpo.
Ele continuou, durante horas, proferindo barbaridades sobre ela, sobre o seu corpo e a sua aparente falta de vontade em satisfazê-lo.
Quando finalmente se deu por terminado, deitou-se ao lado dela, de barriga para cima e adormeceu rapidamente.
Uluru deixou-se ficar. Imóvel.

Alcançou a clareira e caminhou lentamente até à rocha. O seu corpo nu repousou na fria superfície mas Uluru nem o sentiu.
Uma vez mais os lobos surgiram, lado a lado, como irmãos.
Ela pegou na carne sangrenta e reparou que não transportava a sua faca.
Mirou os dois lobos que aguardavam ansiosamente.
O mais aprumado abanava alegremente a cauda, aguardando o festim.
O mais sujo e pestilento olhava-a com fervor, passando a língua rosada pelos dentes afiados.
Uluru não hesitou.
O jantar aterrou na boca do desmazelado e ele não se fez de rogado.
O outro lobo ganiu e escondeu o focinho entre as patas.
Uluru observou apática enquanto este último se tornava mais e mais escanzelado, até que conseguia desenhar-lhe os ossos através da pele.
Por seu lado, o outro lobo, crescia e crescia, até Uluru não mais lhe poder ver os olhos e somente vislumbrar o seu focinho por baixo.
Ele estraçalhava o pedaço de carne, divertindo-se e sorrindo enquanto massacrava o naco.
Uluru estava hipnotizada por aquela cena e rapidamente levou as mãos à cabeça, rindo-se tão fortemente quanto podia. Não se conseguia conter e começou a imitar o lobo maior, imaginando ter a faca na mão e cortando algo invisível à sua frente.
O sangue do naco de carne chovia em cima dela e ela recebia-o como uma dádiva, sem nunca parar de se rir ou de mover a lâmina imaginária através da carne invisível.
O lobo franzino caiu no chão e morreu.
Uluru parou para admirar a beleza do animal e o outro lobo terminou de devorar o seu manjar. Desapareceu floresta adentro e Uluru ajoelhou-se ao lado do que não se levantara.
Lágrimas começaram a escorrer-lhe pelo rosto e ela gritou aos céus enquanto tentava limpar o corpo do líquido vermelho que o cobria e que lhe causava asco.

Uluru deixou cair a faca a seus pés e olhou as suas mãos trémulas. O sangue que as pintava era-lhe estranho e tentou limpar as mãos na pele da tenda, sem sucesso. O sangue estava por todo o lado e ela sentiu-se zonza.
Virou-se mas apenas encontrou mais sangue.
Caiu de joelhos e embateu em algo. Tentou perceber o que era, mas estava tão escuro.
Com as mãos foi lentamente apalpando o local.
Os seus olhos vivazes abriram-se ao máximo quando os seus dedos tocaram num longo manto de cabelos.
Ela sabia o que era. Quem era. Sabia no que tinha tocado.
Aquele sangue.
Aquela faca.
Sabia o que significavam.
Sabia o que tinha feito mas não queria acreditar.
Gritou com todas as forças que lhe restavam, clamando pelos lobos.
Só um dos lobos lhe respondeu.

“Foste tu quem me alimentou todo este tempo.”

Nota: Este conto é inspirado na “História dos dois lobos





Pânico

24 07 2009

17_panicoE tudo começou assim, sem mais nem menos, sem precedentes ou avisos, como uma tempestade que parece surgir do nada e começa a despejar chuva nos insuspeitos que passeiam pelas ruas com as suas roupas frescas, sem mangas, em calções e possivelmente até com óculos de sol.
Mas isso agora não interessa nada.
Eu não estou no meio de nenhuma tempestade e muito menos tenho óculos de sol. Também não faziam falta nenhuma neste negrume que me envolve dos pés à cabeça e não me deixa sequer ver a ponta do meu gelado nariz. Por falar em gelado … o meu preferido é aquele com amêndoa, muito chocolate e um toque de menta. Mhm … Delicioso!
Mas lá estou eu a divagar novamente.
A verdade é que estava eu muito entretida a ver televisão – um daqueles programas repetitivos mas que acabamos sempre por ver porque não dá mais nada de jeito na TV -, recostada o meu velho sofá, quando senti uma leveza enorme na cabeça.
Imagino ter desmaiado porque quando acordei dei por mim num local desconhecido, coberto pela escuridão e a cheirar a peixe podre com cobertura de batata mais podre ainda. Yuck!
Agora a sério … estou parva com a minha calma.
Quer dizer.
Aqui estou eu, sozinha, sem saber onde, quando e como estou e não me sinto a entrar em pânico.
Se calhar é melhor não pensar muito nisso porque já sinto o coração palpitar com o simples pensamento de não estar nervosa.
Quão estúpido é isso?
Não oiço um único som para além da minha própria respiração. Sinto como se eu própria fosse algo alienígena, estranha a mim mesma. Não estou capaz de reconhecer esse som como sendo parte de mim e isso é algo assustador. Mas não muito.
Queria ter medo.
Juro que queria.
Assim ao menos sabia que estava reagir de forma normal.
Agora isto?
Nem sei que pensar?
É estúpido.
Aliás …
SOU estúpida!
Ah!
Já sinto a respiração mais ofegante.
Sim. Aquela mesma que não parece bem minha mas que eu sei ser, por mais que o meu cérebro tente pregar-me partidas e dizer-me que não.
Será que estou só?
Será que é mesmo a minha respiração que preenche o pesado silêncio?
Ui que fixe!
Estou a ficar paranóica.
Isto sim é o máximo.
Que se lixe a compostura.
Qualquer pessoa nesta situação teria de entrar em pânico absoluto e começar aos berros, até que começasse arrancar cabelos e a partir unhas enquanto tentava furar a parede de argamassa que a confinava.
Já agora …
Existem paredes aqui?
É que nem sequer me dei ao trabalho e tentar sair daqui. Limitei-me a ficar sentada e ver – ou nem tanto – o tempo passar.
Ah!
Se calhar isso foi o primeiro impulso de pânico.
Sou mesmo estúpida!
Tenho de me arrastar pelo chão e tentar encontrar uma saída.
Força mulher.
Tu consegues.
Tu consegues.
Mas se calhar é melhor ficar aqui quietinha à espera que alguém apareça.
É isso!
Vou ficar sentadinha no meu canto – mais propriamente no meio porque não estou encostada a nenhuma parede – até que os meus captores – ou captor – se dignem a fazer-me uma visita e explicar-me porque aqui estou.
É isso.
É isso …
Não me vou mexer nem um milímetro.
Não lhes vou dar esse prazer.
Vou ficar aqui a ruminar sobre a vida e sobre o porquê da minha respiração estar cada vez mais errática.
Deve ser o pânico.
Aquela coisa que eu tanto desejava que me afligisse.
É isso.
De certeza.
Pânico.