Prato principal

30 08 2009

21_pratoprincipalA afluência de pessoas à cantina, todas as noites, era um espectáculo impressionante. Estudantes, funcionários, agentes, todos tinham algo para comer naquele enorme salão da era vitoriana, reaproveitado para um serviço mais comunitário que a simples dança ocasional.
Alana, uma jovem de longos cabelos loiros e baixa estatura, entrou na fila que avançava a passo de caracol. O tabuleiro castanho, seguido dos talheres, guardanapo, pão saloio, copo e uma pequena garrafa de água, deslizaram pelo corrimão, sob a mão dela.
“Boa noite, linda.”
Alana estremeceu ao ouvir uma voz conhecida a soprar no seu ouvido. Com um movimento rápido, levou o cotovelo na direcção do seu, mais que indesejado, companheiro.
“Boa noite, só se for para ti.”
Ele desviou-se sem dificuldade, mergulhando o rosto no seu próprio tabuleiro e sorrindo de orelha a orelha. – “Tem calma, fofura.”
“Não me chames isso.”
Ele ergueu-se novamente em toda a sua glória. Quase dois metros de pura imposição corporal. Ele era capaz de ameaçar qualquer um, mesmo quando essa não era a sua intenção. Mas Alana não se deixava intimidar.
“Tu és tão stressada. Tens as veias a saltar-te da testa, querida.”
“Não te preocupes que não vão explodir e banhar-te em sangue, ok?”
“Uma pena …”
Ela grunhiu qualquer coisa enquanto tentou ignorá-lo e avançou um pouco mais com o seu tabuleiro.
“Carne, Peixe, Vegetariana ou Surpresa?” – A mulher de idade que a cumprimentou, por detrás do balcão, com uma cara carrancuda, segurava na mão uma enorme colher de pau e exultava uma aura de ‘não quero discussões aqui’, que impunha mais respeito que a estatura do homem ao seu lado.
“Vegetariana, por favor.”
“Para variar …” – O sarcasmo intencional do homem, não foi bem vindo.
“Escuta, Giorgio. Lá porque tu tens uma dieta selecta, não quer dizer que possas meter o bedelho no que eu como.”
“Mas vegetais e fruta … é triste!”
Ela quase lançou o cotovelo novamente no ar.
“Ignora-o, ignora-o.”
“Eu consigo ouvir-te, doçura.”
Ela estava prestes a rebentar, mas a servente fez o favor de interromper a tensão, pousando ruidosamente o prato no tabuleiro de Alana.
“Próximo!”
“AB positivo, por favor.”
Alana suspirou de alívio quando deixou a fila e prosseguiu para uma das poucas mesas ainda vazias. Aquele homem punha-a numa pilha de nervos.
Sentou-se e antes mesmo que tivesse oportunidade de começar a comer, já ele estava sentado à sua frente. Ela rugiu como uma leoa feroz.
“Vá, vá. Sabes muito bem quais são as regras.” – O sorriso constante dele, só serviu para a pôr ainda mais azul de raiva.
“Quem fez essas malditas regras devia arder no fogo do inferno.”
Ele soltou uma gargalhada e girou o temporizador na tampa da sua caneca de litro. – “Acho que já lá esteve durante muito tempo.”
O estômago de Alana deu umas voltas e fez um barulho como quem queria vomitar.
“Não sejas assim, fofa. Eu também não sou fã da tua comida, mas ao menos não me dá vómitos ver-te comer.”
“Eu como comida normal!”
“Normal para ti, queres tu dizer.”
Alana ignorou-o e levou uma garfada de salada exótica à boca.
Sentiu um arrepio na espinha e olhou de relance para o homem à sua frente. Ele lambeu os lábios de forma sedutora.
Eeeeeeeewwwwwwwwww!
“Que foi?”
“Tu acabaste de olhar para mim como se eu fosse um aperitivo.”
“Estava a pensar mais em prato principal, doçura.”
Nojento! Afasta-te de mim.”
Ele voltou a soltar uma gargalhada sonora e várias pessoas olharam na direcção dos dois. Alana abaixou o rosto e devorou, literalmente, a sua refeição.
Um suave ‘plim‘ soou do temporizador no tabuleiro da frente e ela viu-o lamber novamente os lábios enquanto retirava a tampa e levava o copo à boca.
Alana observou, como que hipnotizada, enquanto ele bebia avidamente o líquido vermelho, sem desperdiçar uma única gota. A maçã de adão dele subia e descia no seu pescoço, como uma relógio compassado.
Quando ele finalmente terminou, com um suspiro de satisfação, Alana reparou que quase se tinha esquecido de comer. Tentando esquecer a imagem dele a devorar o sangue, ela depenicou lentamente no seu prato, já sem grande fome.
“Tens que comer tudo senão ficas fraca. Não te queremos com anemia, pois não?”
Ela olhou-o incrédula.
“O que é que isso tem a ver contigo?”
Ele sorriu e interligou os dedos por baixo do queixo, olhando-a como um predador olha a sua presa.
“Querida, eu gosto mais quando o teu sangue flui bem pelas tuas veias. É mais fácil lutar a teu lado quando sei que não vais desmaiar a meio de uma missão.”
“És tão atencioso.” – Ela usou o tom mais sarcástico que conseguiu.
“Só contigo, querida.”
Ela revirou os olhos e continuou a comer, desta vez já com mais vontade.
Ele continuou a observá-la, incitando-a a comer mais. Ela tentou não pensar muito nisso e terminou o mais depressa que pôde. A companhia dele deixava-a nervosa, mas trabalho era trabalho.

Nota: Este texto faz parte do universo do meu novo projecto, temporariamente apelidado de PFA. E antes que perguntem … não, não é só sobre vampiros, muito longe disso aliás.





O retrato

23 08 2009

20_retratoGostava de fotografar a tua alma, mas tenho medo do que possa ver.
Será que mudarei a minha opinião acerca de ti quando a lente da câmara captar a tua verdadeira forma?
Será que é justo julgar-te dessa forma?
Tu que sempre te mostrastes pronta a ajudar todos, que estás rodeada de amigos e que ao mesmo tempo pareces tão só.
Tu que sorris tantas vezes e ao mesmo tempo nunca sorris verdadeiramente.
Será que tenho o direito de violar o teu íntimo desta forma?
“Então o que vai ser hoje?”
Sorris, mas não o sentes. Consigo vê-lo nos teus olhos.
Não o fazes por mal. Acredito que não. Mas por detrás de toda essa aparente felicidade está um manto de tristeza.
O que foi que te feriu tão profundamente?
“É hoje que tiras o meu retrato?”
Pondero a tua questão. Sinto vontade de dizer que sim, mas temo fazê-lo.
“Começo a sentir-me menosprezada. Serei eu a única pessoa da vila a quem nunca tiraste uma foto?”
Sim és. Mas nunca to direi.
“Achas que te vou dar cabo da película?”
Duvido que esse fosse o problema. Só não quero é estragar a imagem que tenho de ti.
Quero compreender-te, mas tenho medo. Medo de ver a verdade e nunca mais conseguir olhar-te do mesmo modo.
Não quero menosprezar-te. Não quero alienar-te como fiz a tantos outros depois de os capturar em filme.
Aquelas fotos que nunca deveriam sair do meu estúdio. Aquelas que todos acham ser os melhores retratos da cidade, mas que aos meus olhos mostram todas as barbaridades e toda a podridão de cada um dos retratados.
Tu foste a única que permaneceu imutável depois de tantos anos de ausência. Ages da mesma forma, sorris da mesma forma. O teu coração de ouro mantêm-se intacto. Mas … o brilho desapareceu. Aquele brilho que rendia qualquer um imóvel e que te tornava tão única.
Quatro anos de ausência trouxeram muitas mudanças à minha vida. Quando regressei à vila, tudo parecia semelhante, mas no fundo estava tudo diferente. Todos têm algo a esconder e eu acabei por descobrir a podridão de todos eles.
Tornei-me apático já que não queria criar inimizades.
Tento não pensar no que sei, no que vejo, no que todos escondem debaixo de uma manto de normalidade que não faz mais que camuflar a verdade ao de leve, sem nunca esconder de realmente o que quer que seja.
Tu também deves ter os teus podres. A diferença é que não os quero conhecer. As tuas falhas, quero que permaneçam só tuas, a menos que querias partilhá-las comigo.
Tantas vezes ergo a câmara na tua direcção.
Hesito com o dedo sobre o “Capture”.
Os minutos passam e eu pareço uma estátua presa no tempo.
Acabo sempre por recolher a ferramenta, sem ter pressionado o botão uma só vez.
Gosto deste relacionamento. Deste desconhecimento total que tenho em relação a ti. Tão diferente do que tenho com os restantes. Tão mais confortável. Assustador, sim, mas também extremamente confortável.
“Promete-me que um dia vais tirar o meu retrato e que será o melhor de sempre.”
Por momentos aquele brilho característico regressa ao teu olhar. Tenho a certeza que o meu rosto mostra surpresa.
“Prometes?”
Afagas levemente o teu ventre proeminente. Não é intencional no meio da conversa, mas de alguma forma esse gesto faz desaparecer o brilho novamente.
Quero perguntar-te tantas coisas sobre a criança.
Quem é o pai?
Onde é que ele está?
Porque vos abandonou?
Mas sou um covarde e por isso mantenho-me em silêncio.
Será por isso que te sentes tão à vontade comigo? Porque não te questiono como todos os outros fazem. Todos os curiosos e coscuvilheiro que não querem mais do que ter razões para se deleitar na miséria dos outros, ao invés de ponderar sobre a sua.
“Sabes…”
A tua pausa parece durar uma eternidade.
“Gostava mesmo que tirasses uma foto de nós os dois. Só tu conseguirias captar verdadeiramente o que sinto por esta criança.”
Fico abismado enquanto observo o brilho regressar. Sempre soube que nutrias um amor incondicional pelo bebé que carregas no ventre, mas também era por ele que mostravas a maior tristeza que os teus olhos poderiam carregar.
Voltas o teu olhar para mim e suplicas-me, sem palavras, que realize o teu desejo.
Nem eu seria capaz de recusar.
Pego numa velha cadeira que está encostada a um canto e trago-a para o pé de ti, atrás do balcão.
Peço-te que te sentes, da forma mais confortável que puderes.
Afastas ligeiramente as pernas e viras-te um pouco de lado, apoiando as costas na cadeira que chia. As tuas mãos repousam suavemente sobre a tua barriga de quase nove meses.
Sempre pensei que fosses daquelas mulheres curiosas que não esperaria até ao nascimento para saber o sexo do bebé, mas surpreendeste-me ao revelar que não pretendias fazê-lo.
Relaxa.
Ficas silenciosa.
É estranho.
Vejo-vos através do visor da câmara.
Hesito.
O teu leve sorriso e o brilho nos teus olhos … quero aprisioná-los na película, mas temo o resultado.
Pressiono o botão.

No meu estúdio escuro, revelo cuidadosamente o rolo que usei para tirar fotografias tuas.
Não sei o que deva sentir, pois depois da minha relutância inicial, acabei por não conseguir parar de te tirar fotos. Tu que, divertida, mudavas de posições e esbanjavas sorrisos como já não te via fazer desde que regressara à vila, sete meses atrás.
Estranhamente não sinto grande receio enquanto espero que as películas sequem. Tento não olhar fixamente para elas, pois só quero vê-las fora do estúdio.
Pode ser ridículo, mas não quero descobrir-te no mesmo local que vi todos os outros por aquilo que realmente são.
Saio do quarto, com as fotos na mão. Sento-me no sofá e respiro fundo. Não há como negar que estou nervoso.
Talvez não devesse vê-las a fundo.
Seria melhor entregá-las e nunca lhes prestar atenção.
Lentamente baixo o olhar para as fotos.
Nada.
Não há nada a sujar a imagem, nada a rodear-te em obscuridade.
Nada.
Nunca tinha visto uma imagem capturada tão limpidamente. Nunca vira um sorriso tão verdadeiro e uma completa ausência de ressentimentos, culpas e tristezas.
Seria possível que eu estivesse todo aquele tempo a pensar demais?
Será que tu não tinhas mesmo nada a esconder?
À medida que visualizo cada uma das tiragens, acredito que sim. Que nada te havia manchado e que tu conseguias assim criar a mais bela das fotos.
Até que cheguei à última. Aquela que tinha sido, de verdade, a primeira a ser tirada, quando ainda não estavas suficientemente descontraída.
A sombra negra que paira sobre ti e alcança o seu ventre, com um sorriso assustador no rosto … eu reconheço aquela forma. Sei quem era pois já o tinha capturado com a minha câmara e sabia as coisas que ele tinha feito.
O meu coração acelera o compasso.
Todo o meu corpo treme e sinto uma raiva tão grande que penso não conseguir contê-la.
Aquela besta!
A morte seria punição demasiado leve para ele.

A campainha toca, retirando-me à força do meu estado odioso.
Sinto nojo de mim próprio, pois por momentos tinha imaginado as coisas mais horrendas e tinha arquitectado planos mirabolantes para colocar tudo isso em prática.
Não ia fazê-lo.
Não podia fazê-lo.
Tu és quem devia odiá-lo, e mesmo assim escolheste perdoá-lo. Quem sou eu para negligenciar essa decisão?
Abro a porta e sinto-me ainda mais enojado ao aperceber-me que tenho de forçar um sorriso para receber-te. Tenha vergonha de mim mesmo.
“Disseste-me que podia passar por cá quando fechasse a loja.”
Entras, sem grandes cerimónias. Afinal já conheces os cantos à casa.
“Já estão prontas?”
Vês o monte que espalhei na mesa da sala e pareces brilhar de excitação.
“Posso vê-las?”
Tenho a boca seca. Limito-me a acenar e tu caminhas o mais rápido que podes até lá. Sentas-te e reparo que tens muito cuidado para não bateres com a barriga na mesa. O bebé deve estar quase a nascer. Essa criança que nasceu de uma noite que te marcará para sempre.
“UAU! Estão lindas.”
Posso apenas imaginar pelo que tenhas passado.
És muito mais forte do que alguma vez te julguei. Sinto vergonha por ter sequer ponderado a tua fraqueza, a tua vergonha. És mais do que alguma vez poderei desejar ser e só espero nunca te magoar.
“Não sei como consegues. Eu nunca fui fotogénica, mas estão … estão … olha nem sei.”
Estão muito aquém da realidade, essa é a verdade.
“Podes colocar esta em tamanho maior? Quero pendurá-la lá na loja.”
Escolheste bem. Não só a foto capta uma grande parte do teu estabelecimento como tu irradias de beleza nela.
“Estou indecisa. Quais devo aumentar?”
Aumenta-as todas.
“AHA! Não posso. Onde as ia colocar?”
Podes ter a certeza que ficarão penduradas nas paredes do meu coração para sempre.
Sou mesmo covarde.
Durante todo este tempo tive medo. Medo de te ver realmente. Medo de me ferir.
Agora que sei a verdade, tenho o mesmo medo, somado ao medo de te magoar mais do que alguma vez poderia a mim mesmo.
“Vais pôr alguma destas exposta na tua galeria?”
Não tenho tempo para te responder que sim. Claro que sim!
“AHA! Claro que não. Tens fotos de gente tão mais bonita. Porque havias de ocupar um espaço comigo?”
O teu riso não é nervoso, nem falso. É como música.
É óbvio que vou expor-te. És a minha obra-prima, a única para a qual consigo olhar sem ter de camuflar o meu asco, a minha repulsa. Podia esconder-te dos olhares alheios, mas estaria a ser egoísta.
Vou colocar-te no pódio da galeria, em tamanho três vezes maior que todos os outros.
“Não brinques.”
Nunca.
“A sério? Ah, mas isso é muito embaraçoso.”
Só quero que todos vejam o que eu vejo. Nada mais.
“Estás a deixar-me corada. AHA!”
Este último riso já é nervoso, mas não soa falso.
O teu rosto brilha um rosado tão teu, que já não via à mais de quatro anos. Tinha-me perguntado onde ele tinha ido.
Ainda tens o hábito de conciliar as tuas bochechas vermelhas com as mãos.
Não mudaste quase nada.
Não!
Mudaste muito.
Para melhor …
“Lá estás tu outra vez.”
Quero abraçar-te, mas não sinto que seja o momento apropriado. Ou talvez seja e eu esteja a pensar demasiado sobre as coisas.
Tudo seria mais fácil se eu soubesse ao certo como reagirias, mas tu consegues sempre surpreender-me e por isso temo mover-me demasiado depressa.
Só lá colocarei a foto se me deres permissão. Se não quiseres, basta dizeres-me.
“Bem … não sei … achas mesmo que vale a pena?”
Nunca me senti mais orgulhoso de uma foto. Mas se não estiveres à vontade com isso, eu limitar-me-ei a guardá-las na minha colecção
“Isso é ainda mais embaraçoso.”
Viras o rosto para onde não posso ver a tua expressão.
Não sei como devo interpretar essa tua resposta.
O silêncio toma conta de nós e sinto que devo dizer algo, fazer algo para o quebrar.
Temo arrepender-me mas os meus braços já rodeiam os teus ombros antes mesmo que me dê conta do que estou a fazer.
Ficas tensa.
Relaxas.
Não fazes qualquer movimento para me afastar e eu deixo-me ficar, sentindo o perfume delicioso a jasmim que sai dos teus cabelos.
Talvez seja melhor mantê-las só na minha colecção.
“É capaz de ser melhor.”
Fechas os olhos e recostas-te na cadeira e nos meus braços.
Não te largarei até que me obrigues a fazê-lo.


Nota: Esta história faz parte do universo de “Alma” um projecto meu que começou por ser uma novela gráfica, mas que provavelmente terminará em romance.

Nota 2: A pessoa na fotografia é uma amiga. Espero que não leve a mal.





Nascer do sol

2 08 2009

18_nascerdosol“Se calhar não vamos encontrar um bom sítio hoje.”
“É bom que isso não seja verdade. Eu não estou para andar o dia todo na mala deste carro. Cheira a mofo lá atrás.”
“E por acaso esqueces-te que eu tenho de dormir?”
“Essa é a menor das minhas preocupações.”
“Claro…”
As conversas entre os dois passageiros do monovolume acabava sempre azeda. Também não ajudava nada ao caso o facto de um deles ser um vampiro.
“Quanto tempo falta?”
A impaciência dele não fazia mais do que aborrecê-la e ela suspirou antes de olhar para o relógio que trazia no pulso esquerdo.
“Mais ou menos meia hora.”
“SÓ! Põe mas é esta sucata a andar que eu quero dormir num local confortável.”
“Porque não guias tu e vemos já se fazes melhor com esta sucata?”
Ele acanhou-se um pouco e murmurou um “cabra” que julgou que a mulher não fosse ouvir.
“AUCH!”
O som oco que o embate da mão dela no crânio dele produziu, foi quase abafado pelo alarido que o motor fazia.
“Quem é que é cabra aqui?”
“Tu! Quem mais? E não me voltes a bater se não eu …”
“Tu o quê? Mordes-me?” – A voz dela perdeu-se por entre os dentes, como se não tivesse grande vontade de proferir as palavras mas ao mesmo tempo sentisse necessidade de o fazer.
“Vontade não falta.” – O jovem rapaz voltou o rosto para o vidro do passageiro, observando a paisagem desértica que pintava o cenário fora do veículo.
O silêncio voltou a instalar-se entre os dois. Um ambiente que já era conhecido de ambos e que se tornava mais reconfortante que as conversas que terminavam sempre em discussões.
“Encontrei um sítio.”
Estas palavras foram como um despertador barulhento que tocou junto ao ouvido do rapaz. Ele saltou no assento e voltou-se para a frente onde viu uma pequena mansão, coberta por trepadeiras e com alguns vidros partidos mas ainda bem conservada.
“Já não era sem tempo.”
Ela estacionou o veículo, sem grandes cerimónias, em frente do alpendre que dava lugar à porta principal.
O rapaz nem esperou que o carro parasse antes de sair disparado para dentro da mansão. Ela seguiu-o pouco depois.
“Este sítio é fabuloso. Até tem cortinas escuras e tudo. Se calhar foi habitado por outros vampiros.”
A mulher sorriu levemente e suspirou. Já estava habituada àquele comportamento entusiástico sempre que encontravam uma casa que ainda tivesse condições suficientes para ele poder repousar durante o dia, sem correr o risco de entrar em combustão com a luz do sol.
Ela caminhou lentamente pela casa, observando todos os seus cantos e móveis poeirentos, cobertos por finas cortinas meticulosamente laboradas pelas aranhas que povoavam o local.
Da sala de jantar tirou uma velha cadeira de madeira e levou-a até à sala de estar, onde a colocou junto à janela, desviando brevemente a grossa cortina preta, para poder avistar o exterior.
Sentou-se.
O rapaz tomou repouso no chão, com os braços apoiados nos joelhos dela e olhando-a com um misto de carinho e inveja. A mão dela estava pousada sobre a dele, acarinhando-o ao de leve.
A luz da manhã iluminou timidamente o rosto dela e um largo sorriso preencheu as suas feições à medida que a luz inundava o céu.
O rapaz observou-a como que em transe e os dois permaneceram ali durante cerca de trinta minutos. Ela enamorada pelo sol e ele filtrado na luz que se reflectia na pele dela, imaginando o calor que o gentil sol estaria a produzir na pele dela e tentando recordar como tal sentia.
Lentamente ela voltou a fechar a cortina e a casa ficou na penumbra. Depois de estarem ambos deslumbrados pela luz, parecia tudo tão mais escuro dentro daquele local.
“Foi um espectáculo lindo. O sol estava extremamente vermelho hoje.”
Ele não respondeu e limitou-se a fixar o olhar no chão, como que envergonhado pelo seu comportamento.
Ela levou as suas mãos ao rosto dele e ergueu-o de encontro a si. Num gesto de puro carinho, encostou o rosto dele de encontro ao seu.
Ele deu um salto ao sentir o calor que se armazenara na pele dela, mas rapidamente se acalmou e fechou os olhos para saborear o único que lhe restava do sol.
Afastaram-se ligeiramente e ela, com as mãos ainda no rosto dele, baixou-o para lhe poder plantar um leve beijo na testa. Ele manteve os olhos fechados.
“Eu serei o sol da tua vida. Até ao dia em que morrer.”
Ele abriu os olhos e fixou o olhar nela. Aquela que era sua irmã mais nova e que agora envelhecia a olhos vistos. Os dois viajavam juntos há mais de trinta anos. Ele, como uma estátua, não mudava com a passagem do tempo. Ela, crescendo, amadurecendo e envelhecendo como a poeira que se acumulava nos móveis daquela casa. Chegaria o dia em que os móveis ficariam invisíveis debaixo do seu manto. O mesmo aconteceria com ela. Mas enquanto pudessem, ambos desejavam permanecer juntos. Por mais doloroso que fosse para ambos, por mais que isso os impedisse de viverem normalmente com os da sua espécie.
“E eu serei a sombra que nunca se afastará ou desaparecerá.”
Ela sorriu gentilmente.
Os dois entraram no quarto que ele havia limpo anteriormente ela deitou-se na cama, enquanto ele se ajeitou no sofá que trouxera propositadamente da sala de estar.
Com as mãos entrelaçadas entre a cama e o sofá, os dois adormeceram rapidamente e dormiram o sono dos justos, até que o dia terminou e a sua viagem prosseguiu.

Para os curiosos: Esta história passa-se no mesmo universo que o “Angel Gabriel”.





Fadas

5 06 2009

12_naturezaA escuridão começou a dar lugar a uma luz tímida e ténue, que aos poucos invadiu os céus, brindando as montanhas e prados com claridade.

As flores mais tímidas, que se expõem apenas quando o sol as acorda e se recolhem assim que a escuridão cobre o céu – como crianças que pedem aos pais para deixarem o candeeiro acesso durante a noite, com medo dos monstros que vivem debaixo das suas camas e dentro dos seus guarda-fatos – deixaram-se embalar pelo vento matinal e abriram as suas belas pétalas, expondo os tesouros que protegiam das intempéries.

Milhares de pares de asas, das mais variadas cores e feitios, ornamentaram os prados com os seus voos rasantes e as suas corridas matinais, que mais não passam de rituais de celebração. Uma forma de se cumprimentarem pela manhã e planearem o dia que se iniciava e que prometia ser muito solarengo.

Uma pequena fada com asas de um suave rosa e um garrido verde, esticou os seus quatro longos membros e as suas duas antenas, antes de levantar voo da Papoila que a tinha albergado do frio da noite.

“Obrigada doce Papoila.”

A flor tremeu levemente, soltando um pouco de pólen, como um simples “Volta sempre” que a pequena fada entendeu com um sorriso.

O seu trabalho consistia em polinizar as Papoilas que a acolhiam de pétalas abertas e que gentilmente lhe sediam as suas sementes.

Outras das fadas estavam encarregues das mais diferentes espécies de flores. Estavam separados por grupos e a cada grupo cabia a função de propagar uma espécie de flora. Era um trabalho extremamente recompensador!

“HUMANOS!”

Quando ela ouviu as palavras serem gritadas por cada vez mais das suas colegas, percebeu que era tempo de evacuarem.

Sacudiu o seu corpo violentamente e com as suas patas dianteiras cobriu o seu rosto, com movimentos frenético.

Dos seus membros saia uma mucosa muito especial que permitia criar uma máscara em torno do seu rosto. Quando terminou parecia uma qualquer outra borboleta do planalto.

Esta era uma medida que tomavam sempre que haviam humanos nas imediações.

No passado não o faziam e acabaram perseguidos e dissecados pelos vis seres que os achavam tão peculiares. Agora, desde há muitas gerações, tinham ordens para se camuflarem e assim impedirem que os humanos os julgassem como sendo mais que pequenas e frágeis borboletas.

Não era uma medida infalível, já continuavam a ser caçados e coleccionados, mas ao menos não era tão mau como houvera sido em tempos. Chegaram a estar à beira da extinção, antes de resolverem tomar estas medidas.

Levantou voo, tendo de deixar o seu trabalho a meio, e começou a seguir as outras fadas que batiam as suas asas com força, continuando a bradar o nome das criaturas que tinham aprendido a temer.

Uma estranha sombra cobriu o seu corpo e quando se deu conta já estava rodeada por enormes grades de cor creme.

“Apanhei uma!”

A pequena fada suava e remexia-se na sua prisão, tentando encontrar uma frincha por onde pudesse escapar. Nada!

“Deixa ver, deixa ver!”

A claridade surgiu por detrás dela e ela virou-se, com dificuldade, esperançosa.

Entrou em pânico!

O enorme círculo azul que a observava atentamente era ainda mais ameaçador do que imaginara. Recuou a medo para a parte mais afastada da sua cela e embateu com as pequenas patas nas moles paredes do seu cativeiro

“Tão linda!”

“Agora é a minha vez.”

O globo ocular azul foi substituído por um negro como a noite.

“É um bocado feia. Olha para aquelas patas. Nojento!”

“Não entendes nada! As borboletas são lindas! Já viste aquelas asas?”

“Mas o resto do corpo …”

“Não percebes nada!”

“Vocês, raparigas, é que são muito esquisitas. O que é que há de bonito numa coisa assim?”

“És um parvo!”

Fez-se um silêncio mas a pequena fada sabia que estavam em movimento porque embatia com a cabeça e as asas de um lado para o outro, incapaz de controlar o movimento, tentando a todo o custo estabilizar-se ou voar dentro daquela gaiola que apenas deixava umas pequenas grades vermelhas por onde sentia um pouco do calor do sol.

Imaginou-se a ser enfiado numa daquelas prisões de vidro sobre as quais já tinha ouvido falar tantas vezes. Viva? Morta? Tudo dependia do seu carcereiro, mas uma coisa era certa, mais tarde ou mais cedo sucumbiria. As fadas não foram feitas para estarem presas!

“Que queres fazer com ela?”

“Não sei …”

“Vá decide! Queres que a mate para depois a expores no teu quarto?”

“NÃO! Isso é tão cruel!”

“Então?”

“Solta-a.”

“Ah? Tive eu este trabalho todo para agora a soltar?”

“Eu não quero matá-la. Coitadinha!”

“És mesmo estranha.”

“Não sou nada!”

“Como queiras.”

Quando voltou a sentir o calor dos sol e a ver o céu azul e as nuvens brancas, a pequena fada teve vontade de chorar. Não percebia as motivações dos seus captores mas apressou-se a levantar voo e afastar-se dos dois pequenos humanos que a observaram de olhos arregalados.

“Tão linda!”

“Raparigas…”

Parou o seu voo por momentos, para olhar para trás. Os dois humanos continuavam de olhos postos em si, especialmente aquele que tinha o pelo mais comprido e era mais baixo. Tinha um sorriso aberto nos lábios, acenando com os dois membros superiores na sua direcção, como que enviando-lhe uma mensagem que ela não compreendia.

Voltou-se e seguiu viagem prado afora, até onde sabia estar o seu bando.

Desta vez tinha escapado e sabia que tinha sido graças à camuflagem, e talvez, um pouco graças à gentileza daqueles humanos que felizmente pareciam não possuir a malícia tão característica da sua espécie.

Ela sentiu-se afortunada. Muito mesmo!

Submetido ao desafio “As nossas crianças” da Fábrica de Histórias





Chuva

27 02 2009

10_chuvaAli estava ele!
Aquele estranho homem que, em dias de forte chuva, ficava parado no meio do parque, sem qualquer tipo de abrigo, inundado pela força da natureza.
A sua figura era difícil de reconhecer ao longe, já que eu, e a grande maioria das outras pessoas, caminhava pelo passeio em cal, enquanto ele se erguia numa pequena clareira, por entre sobreiros, pinheiros e carvalhos, misturando-se no seu ambiente, como se ali pertencesse desde o princípio.
Fazia meses que o havia avistado pela primeira vez. O vento estava muito forte e eu tinha de usar todas as minhas forças para segurar o guarda-chuva, caminhando lentamente contra o vendaval, curvando-me para a frente de forma a manter o equilíbrio, rezando para que o meu abrigo não fosse levado pela intempérie. Por mero acaso, olhei para a clareira e lá estava ele! Quase se podia dizer que criara raízes naquele ponto e de lá ninguém o arrancaria.
De todas as vezes, ignorei-o. Pensava que ele só podia ser doido e ter vontade de morrer de pneumonia.
Sempre estranhei que ele só aparecesse em dias de chuva e não nego que a minha curiosidade crescia de dia para dia.

Num dia especialmente chuvoso mas sem os violentos ventos que tanto me irritavam, voltei a vê-lo. Não sei ao certo o que mudou naquele dia mas quando dei por mim já caminhava na sua direcção, como que atraída pela sua figura enigmática, mais do que já era habitual.
Quando estava a apenas alguns passos dele, senti o ar ficar preso nos meus pulmões. Parei de respirar por uns bons segundos, completamente apanhada de surpresa pelo que via.
Uma infinidade de ideias percorreram o meu pensamento, para tentar dar uma explicação lógica para o que se estava a suceder, mas nada parecia verosímil naquele momento. Naquele momento percebi porque nunca consegui distinguir bem o seu corpo no meio da chuva.

Ele não tinha corpo!
O vulto que avistava há tantos meses, era criado pela intensa queda das gotas de água, que criavam a ilusão de uma figura humana aos olhos inexperientes de um humano.
Era estranho!
Como se a intensidade fosse diferente em cada parte do seu corpo. Mais rápida e abundante que a restante água que caia em seu redor.
Tão estranho!
Mesmo visto assim de tão perto, aquela ilusão parecia propositada. Como se alguém a tivesse criado com um intento qualquer. Tão realista … tão assustadoramente credível!
Estendi uma mão para tentar tocar-lhe no ombro, mas assim que o fiz, senti a queda das gotas, tão fortes que pareciam picar-me. Retirei a mão rapidamente, com medo que aquela força anormal fosse capaz de me ferir.
Estava tão absorta naquela criação que deixei deslizar o guarda-chuva da minha mão. Este caiu na terra atrás de mim, como que em câmara lenta.
Quando finalmente senti a chuva tocar-me o rosto, olhei para cima, como que hipnotizada.
Pela primeira vez na minha vida, observei encantada a queda da água. Era tudo tão estranho! Senti-me mais leve que nunca. Pouco me interessou o facto de as minhas roupas estarem a ficar encharcadas, de a água deslizar, sem permissão, pelo meu corpo e invadir a minha pele com o seu toque frio e, mesmo assim, tão acolhedor.
Sem dar por isso, um sorriso invadiu o meu rosto e ergui os braços no ar, recebendo como uma dádiva aquela maravilha da natureza, que até ali tinha odiado sem razão aparente.
Girei pelo solo enlameado, como uma criança debaixo da mangueira num dia de sol escaldante.
Sabia tão bem!
Enquanto desfrutava aquela realidade, olhei de relance para aquela figura que me conduzira ali. Mais uma vez parei de respirar!
Antes de desaparecer, podia jurar tê-lo visto abrir os seus olhos, que até ali estiveram sempre cerrados, e sorrir carinhosamente.
Foi a última vez que o vi!
Sempre que chovia eu corria para o parque, sonhando em vê-lo novamente. Queria confirmar que não tinha sido a minha imaginação. Mas nunca mais o vi, independentemente de quantas vezes lá fosse.

O guarda-chuva, esse objecto para o qual deixei de ver utilidade, nunca mais saiu do bengaleiro de minha casa.

Nota: O facto de o título deste conto e do anterior serem parecidos, não é propositado.